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Kate Winslet, David Kross

Kate Winslet, David Kross, no filme O Leitor – 2008.

Passados 1 mês da divulgação do relatório Retratos da Leitura 2015, decidi escrever também uma análise do quadro da leitura, pensando na premissa: Sim, agora temos os dados. Mas o que fazer com eles? Preferi olhar para os não leitores para discutir o que se pode fazer para incluí-los. Como formar gente que gosta de literatura?

Antes de tratar do tema preciso fazer uma correção. Contrariando o muito do que se disse em artigos, não houve  crescimento algum do número total de leitores. Na mesma pesquisa, Retratos da Leitura, realizada em 2007, 55% eram o número de brasileiros leitores; em 2015 esse número foi para 57%, o que significa zero, numa uma margem de erro de dois pontos percentuais. Os dados que alguns utilizaram para indicar crescimento foi na comparação com 2011. Vejamos:  eram 55% de leitores em 2007; 50% em 2011 e 57% em 2015.  Então, não, não houve crescimento por mais que se tente colar essa imagem de que as políticas foram acertadas. Sem que isso fique bastante claro vamos patinar nas políticas públicas para os próximos anos.

Eu me prendi em “ler” algumas telas focadas mais em quem não lê, e por quais motivos, para que cada grupo: pais, professores, editores, editoras e até gestores públicos possam pensar também em como criar políticas de inclusão dessas pessoas, porque não temos políticas realmente competentes do poder público e não devemos depender apenas dele. Não por nossos descendentes, por nosso mercado e mesmo para deixar algum legado.

Um resumo rápido desse recorte pode ser dito assim: 67% de todos os entrevistados disseram que ninguém os influenciou a gostar de literatura. 72% afirmaram que entendem que a leitura traz conhecimento e crescimento pessoal e profissional, e quase 60% de todas as pessoas tem como principal motivação para pegar num livro o prazer, entretenimento.

Tenho uma premissa comigo apreendida nos primeiros anos atuando como jornalista: se uma sentença está clara, mas muita gente não percebe a mensagem logo de cara quer dizer que não está clara o suficiente. Não para a compreensão dos fatos na velocidade da leitura é realizada hoje.

Se 2/3 das pessoas dizem que ninguém os influenciou pode indicar que:

1º. Os adultos não são bons influenciadores. Isto porque seguramente é na infância e adolescência que se adquire o gosto/hábito de ler. Esse tópico rende um bom debate de ideias e propostas.  Desde que a atividade de leitura possa ser mais bem trabalhada em atividades de grupo e por aí vai. Conversei sobre este tópico com Mariana Rolier, Editora do grupo Rocco e ela citou o seguinte: Os adultos não são bons influenciadores porque, 1o ou indicam livros adultos para jovens, principalmente na escola e/ou 2º possuem síndrome de “tio do gibi”: se apropriam do conhecimento e não permitem novas audiências, interpretações e visões, pois a superioridade lhe traz satisfação. Cabem aí os pseudo intelectuais, escritores decadentes, editores arrogantes. Em geral associados à frase: “Este público não é o meu”.

2º que pais, professores, figuras públicas não transmitem com seus exemplos e vida a mensagem de que chegaram lá por causa do estudo e dos livros. Por mais que acreditemos, não há uma mensagem forte em nossa sociedade do valor da literatura, que fixe tanto nas pessoas de forma a provocar uma revolução cultural. As campanhas para a leitura precisam dessa direção. Falar não adianta, como veremos a seguir.

72% dos entrevistados afirmaram que entendem que a leitura traz conhecimento e crescimento pessoal e profissional. Podemos extrair dessas respostas que temos um caráter utilitário associado à Literatura. Todos parecem entender a sua importância e utilidade. Mas o que essa premissa indica?  A falta prazer!

Como levar a ideia de prazer à atividade de leitura? Não. Não será transformando-a num big brother ou levando-a um show de Hip Hop. Construir a ideia de prazer, prazer real, associado ao interesse da infância, não da leitura que orgulham adultos (pais e professores), pode ser um bom caminho.

Sabem aqueles programas reality shows que ajudam pais a educar crianças? E outros, a donos a educar cachorros?  No fundo, a origem do problema sempre está no comportamento dos adultos.  E o princípio vale aqui. Se as crianças não leem é por causa de alguma estratégia errada promovida pelos adultos. Não vamos culpar as crianças. Estamos fazendo algo muito errado.

Prazer pela leitura 2Vejam como uma coisa está relacionada à outra. Todos reconhecem o valor da leitura para uma vida melhor, mas isto não é suficiente para que elas consigam tempo e interesse para ler. Quantas vezes vemos um adulto que tem plena consciência de onde começa o erro que o leva a repetir equívocos e mesmo com essa ciência não o faz mudar o próximo passo? Pense:  gente que não pode com bebida, com gordura ou cigarro. A ideia da saúde não é suficiente. Se adultos não conseguem mudar, diante de uma mensagem clara do que faz bem para eles no presente, porque devemos esperar que crianças passem a ler ao saber que isto será bom para o seu futuro?

Então, precisamos trocar a mensagem. Não, não devemos dizer que a leitura não é boa, mas, se preciso, vamos mentir, enganar, fazer o que for necessário* para convencer as crianças que o valor não está no que elas podem alcançar socialmente com a leitura. Vamos dizer que vai ser divertido, que vão rir, que vão se emocionar como se estivessem numa novela de época de Jane Austen (ou das 6h), ou que vão chorar com o drama de um personagem na vida real, ou que vão ter o desafio de desvendar o assassino antes do capítulo 6, ou que vão descobrir como as pessoas públicas mentem nos pequenos sinais entendendo um pouco de filosofia ou da linguagem do corpo. Enfim, os caminhos podem ser diversos, mas temos de priorizar o prazer.

*aqui é uma piada.

E por fim, casando com a resposta anterior, se quase 60% de todas as pessoas tem como principal motivação para pegar num livro o prazer, entretenimento, então vamos prestar a atenção nele. O prazer tem de ser o foco para formar leitores.

 

Mas para isso há um impedimento:

Cerca de 90% dos não leitores indicam uma dificuldade em ler: acham complexo, ler cansa, preferem outras atividades ou não encontram tempo. Há duas questões centrais, a meu ver, nestas respostas:

1º – O objetivo – O que se diz comumente para as pessoas que se pode alcançar com a leitura é mais uma frase de efeito que uma imagem concreta do que ela pode promover. As pessoas sabem repetir numa pesquisa sobre o valor dela, mas não acreditam de fato. Pelo menos não o suficiente para investir na atividade, insistir, achar que vale mesmo perder noites, dormir menos, largar a TV ou a ida ao cinema para ver o último lançamento que todo mundo está comentando para ler um livro que poucas pessoas estão falando.

E quem está comentando alguma coisa na imprensa sobre um livro? Quantos fóruns nas redes sociais, nos Jornais, nas TVs, portais de notícias e rádios estão discutindo o destino, a escolha feita por um personagem?  É preciso encher de literatura a vida das pessoas.  Se por um lado precisamos trabalhar na mensagem do prazer (e aqui refiro-me a todas as campanhas das entidades do livro e Minc, MEC, etc.) por outro precisamos que os meios de difusão da literatura pautem esses temas e incluam em seus canais espaço que estimulem esses caracteres da Literatura.

2º – e, o prazer da leitura para muita gente talvez esteja relacionado não apenas por falta de oferta de gêneros e tipos de livros oferecidos, mas também pela imensa dificuldade cognitiva. Assim, a atividade não está associada a um prazer. Essa é uma tarefa especialmente da Educação. Há algumas décadas a Educação deixou de investir no uso da Literatura como ferramenta na formação dos estudantes. Estivemos focados mais no estudo da língua. Conversei sobre o assunto com a Mestre em Literatura pela Unicamp, Emília Amaral, que tem mais de uma dezena de livros voltados à formação de novos leitores e que é  uma das maiores especialistas no assunto, porque tem um trabalho focado na ferramente prática. Ele me contou o que aconteceu com o ensino de Literatura e eu resumi: “A partir dos anos de 1970 desenvolveu-se um processo sócio-histórico-cultural por muitos denominado “pós-modernismo”. Sua principal marca consistiu na busca de anulação das diferenças, no sentido de democratizar a sociedade, abrindo espaço para os excluídos. Estes, os excluídos, chegaram ao centro do debate, trazendo suas linguagens, hábitos, culturas. A instituição escolar, por exemplo, relativizou a norma-padrão da linguagem. ”

Se para a inclusão de pessoas esse mecanismo trouxe algo positivo, para o estudo da Literatura, não.  Esse relativismo fez com que o estudo da Literatura passasse a acontecer sob forma de citações, extratos, fragmentos, pois o foco principal do estudo era agora a Linguagem.  E, por consequência, ela, a Literatura como obra, como estudo do texto completo, pouco a pouco foi perdendo a importância no ensino até quase desaparecer.

Como podemos formar leitores que praticamente leem apenas trechos de obras?

Aqui eliminou-se o prazer pela história. Focamos os alunos na análise de palavras, contextos culturais a partir de extratos. Donde pode-se imaginar que o problema está na base.  Salvo raríssimos professores, por iniciativa própria, por esforço pessoal, os demais seguem essa premissa que excluiu o prazer pela Literatura das salas de aula. Basta ver nas  questões dos vestibulares, na parte de Literatura, que está tudo ligado à linguagem ou à crítica social. Ninguém fala de beleza, das paisagens, das emoções ou do prazer.  Se queremos mais leitores, esta é uma discussão que precisa ser feita.

Hoje vou pedir aos leitores algo mais.  Claro, as críticas e comentários são muito bem-vindos, pois com eles posso saber o que pensam outras pessoas e corrigir meus equívocos. Mas gostaria que os leitores pudessem aproveitar esse espaço de comentários para citar cases, histórias de sucesso na formação dos leitores e dar sugestões. Assim, todos aprendemos uns com os outros.

Ps:  Quem quiser ver as telas em que me baseei e as somatórias para os números aqui apresentados elas seguem abaixo.
1ª  tela.

pessoas que influenciaram

67% de todos os entrevistados disseram que ninguém os influenciou a gostar de literatura.

Tenho uma premissa comigo apreendida nos primeiros anos atuando como jornalista: se uma sentença está clara, mas muita gente não percebe a mensagem logo de cara quer dizer que não está clara o suficiente. Não para a compreensão dos fatos na velocidade da leitura é realizada hoje.

Se 67% das pessoas dizem que ninguém os influenciou pode indicar que:

1º Os adultos não são bons influenciadores. Isto porque seguramente é na infância e adolescência que se adquire o hábito de ler. Esse tópico rende um bom debate de ideias e propostas.  Desde que a atividade de leitura possa ser mais bem trabalhada em grupo e por aí vai.

2º Que pais, professores, figuras públicas não transmitem com seus exemplos e vida a mensagem de que chegaram lá por causa do estudo e dos livros. Por mais que acreditemos, não há uma mensagem forte em nossa sociedade do valor da literatura, que fixe tanto nas pessoas de forma a provocar uma revolução cultural. As campanhas para a leitura precisam dessa direção. Falar não adianta, como veremos a seguir.

 

o que a leitura significa

Aqui, todos podiam dar duas algumas respostas. Totalizei 173%, então considerei que 17,3% aqui equivale a 10% dos respostas. Então entre 72% e 76%  das respostas afirmam  que entendem que a Leitura traz conhecimento e crescimento pessoal e profissional. Podemos extrair dessas respostas que temos um caráter utilitário associado à Literatura. Todos parecem entender a sua importância e utilidade. Mas o que essa premissa indica é?  A falta prazer.
3ª tela

principal motivação

Esta parte confirma a afirmativa anterior. Quase 60% de todas as pessoas tem como principal motivação para pegar num livro o prazer, entretenimento ( três primeiros tópicos somados). Os outros 24% citam exigência escolar, profissional, atualização. Então, vamos prestar a atenção nele. Novamente o prazer é o foco da nossa questão para tentar atrair leitores.
4ª Tela

razao para não ter lido

Cerca de 90% dos não leitores indicam uma dificuldade em ler: acham complexo, ler cansa, preferem outras atividades ou não encontram tempo.

 

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Como salvar o mercado editorial – Sobre os fomentos para a formação de mais leitores.

Diálogo de um filme:

“A receita de um romance comercial?  Uma fórmula fixa:  Um casal com química. Encontros casuais, forçados, ridículos. Desses que acontecem como por mágica. Nós assistimos a cena e não entendemos o critico 4nada. Na vida real eles jamais se olhariam. Mas é o gênero (do romanção) que manda e tudo deixa de ter sentido, o mundo e o romance. Acrescente personagens pitorescos, violinos nas cenas românticas e um desencontro causado por um mal-entendido. Não se esquecer da chuva, muita chuva. No fim, uma corrida. Não sabemos por que nem para quê. E claro, um monólogo de uma declaração, perfeito para o óbvio happy end. Tudo para alcançar o final, com um beijo longo e melado. ”

Assim, o personagem central de O Crítico explica para uma jovem que o que ela gosta é um ruim.  Trata-se de um delicioso filme argentino que consegue juntar um personagem de nicho numa película comercial.  E nem precisou ter Ricardo Darín no elenco.

O filme conta a história de um crítico de cinema típico, focado em aspectos estilísticos da sétima arte, ver sua vida se transformar no seu pior pesadelo: um romance típico dos filmes que mais odeia. Carregado de clichês.

o-criticoHá várias cenas para destacar, diálogos cínicos, cortantes, inteligentes, e separo uma, quando ele recebe um

ultimato de seu editor, no jornal em que publica suas críticas: “Há três semanas você vem surrando esta distribuidora de filmes. Este aqui é um filme para assistir comendo pipocas. Que mal pode fazer?  Ele responde: Faz mal ao bom gosto deste país!  O Editor responde: Você é um terrorista do gosto! A última vez que você deu cinco estrelas foi há 20 anos. E nós festejamos como se fosse feriado nacional. ”

Enfim, eu me diverti muito e não pude parar de pensar em quando vamos ter filmes brasileiros com temas universais (fora do trio violência/palavrão/miséria). Quem não assistiu, acho que é uma ótima pedida. Ele tem muito humor enquanto faz a crítica. Todo mundo se traveste de seus personagens sociais. Alguns ultrapassam uma barreira e transformam sua vida no personagem.  Mas quando confrontados com a vida, ninguém está acima de sua própria humanidade. No filme se pode enxergar o que acontece quando uma pessoa se torna escrava de suas próprias crenças. E as crenças que criam a sua vida. Pode ser uma religião, um estilo de vida, o círculo social (a turma da maromba, punk ou de cinéfilos). Qualquer fator externo pode criar isso. E é falso.

Me valho deste filme para comentar alguns avanços que tenho assistido no mercado editorial.

Quando escrevi, há mais de 4 anos o artigo, Precisa-se de novos críticos literários, indicando a falta de espaço nos jornais e revistas, e de críticos habilitados para escrever sobre livros não literários (infantil, juvenil, literatura policial, thriller, etc.), obras que não se enquadram na chamada alta literatura, naquela época não havia gente escrevendo sobre literatura comercial e de nichos nos grandes veículos.  Mas algo vem mudando. Desde o início deste ano, temos em O Globo, Raphael Montes, o principal “produto” deste novo mercado mais aberto, jovem autor de romances policiais de sucesso, e que surge meio que como um bandeirante, conquistando espaços e cada vez mais leitores. Paula Pimenta, autora bastante conhecida, que desbancou estrangeiros do posto mais almejado por semanas neste mês de Junho, a lista de mais vendidos de ficção. Desde 2013, ela também passou a ter uma coluna em que comenta livros na Revista Veja. Danilo Venticinque, que até setembro está de licença da Revista Época para um mestrado na Inglaterra, é um dos jornalistas focados em literatura que aborda os preconceitos de nosso mercado num veículo grande. E estes são apenas três exemplos, mas que tem sido frequentes em outros jornais e revistas, impressos e on line, por todo o país.

Há outras frentes que ainda não acordaram para este novo Brasil, que repete cotidianamente a ladainha de que quer se tornar mais educado = leitor.  As festas e os prêmios literários.

As festas e festivais, salvo raras exceções, continuam tratando a literatura comercial com pouco apreço. Quando convidam algum autor parece um tipo de mea culpa ou agulha num palheiro.  Os autores aparecem como exceção, perdido num meio de intelectuais, mais que de grandes ficcionistas.  Acha que estou exagerando? Veja as listas de presenças das festas literárias por todo o país.

Os prêmios, esses continuam com ouvidos moucos, ignorando a imensa produção de literatura sobre gêneros como policial, jovem adulto, novo adulto, terror, suspense, fantasia, aventura, ficção científica.

Decidi escrever sobre esse assunto depois de ver no resultado do Prêmio SESC de Literatura, que contemplou apenas duas categorias, Contos e Romance. Com o resultado divulgado, em apenas uma semana, quase 70 comentários dos leitores irritados. Claro que é simples de imaginar que todos aqueles que não ganharam possam ficar irritados. E o fato de o SESC abrir em sua página espaço para receber críticas seja uma postura bastante corajosa e de transparência. Mas lendo o que as pessoas escreveram percebi que estavam descontentes também por outras coisas. E não só por causa do prêmio SESC, mas uma espécie de descontentamento com os outros em todo o país. Um prêmio nacional literário que abrange apenas Contos e Romance já é bastante restrito.  Mas vi na reclamação dos leitores outros detalhes:  que gênero de contos e romances se pretendia selecionar?  Isso parecia não estar claro para os participantes. Vamos a um exemplo: Imaginemos um dia que tenhamos um prêmio para livro policial. No Brasil, um Robert Ludlum, de A trilogia Bourne ou um Ian Fleming, de James Bond, jamais ganhariam um prêmio por aqui. Mesmo em gêneros “comerciais”, quem ganharia seriam os autores literários, aqueles que fazem de um livro policial se tornar uma peça de alta literatura, (não importa se é chato, ou fraco na ação ou trama).  E foi um tanto disso que observei na reclamação dos leitores.  Para eles o Prêmio escolheu os textos por critérios exclusivamente literários, aqueles que são distinguidos mais pela forma. Vale citar que originalidade, ritmo, timing, tema, drama psicológico são algumas das dezenas de atributos que um conto ou romance pode conter.  Quem tiver curiosidade, veja os comentários no link abaixo.

http://www.sesc.com.br/portal/blog/premiosesc/post/vencedores+2015

Na época daquele artigo, uma espécie de “procura-se novos Críticos de Literatura”, fiz algumas previsões. Nada do outro mundo. Para mim apenas as consequências de um mundo em que as influências não podem ser mais impostas de cima para baixo, e isso inclui o consumo de literaturas. Dizia que suplementos literários diversos iriam fechar, por continuarem se comunicando com um público pequeno, e que feiras de livros voltadas para os mercados marginalizados como o jovem, o geek e nerd iriam surgir mais fortes, talvez esvaziando a força das grandes feiras. Ambas as previsões aconteceram. Só para dar um exemplo das feiras, uma delas, a ComicCon, ocorrida em SP no ano passado, tinha ingresso individual de R$ 120,00 e foi um enorme sucesso enquanto todos os anos se reclama do preço do ingresso de R$ 13,0 da Bienal do Livro. Na época do artigo percebi que algumas pessoas ficaram irritadas com as previsões. Mas o que fazia não era uma torcida, mas um alerta. Esse movimento de público está acontecendo e as instituições e empresas que souberem se comunicar melhor com o público terão melhores resultados.

Essa ideia de que se deve premiar e valorizar apenas a excelência literária está tão arraigada em nosso meio que muitas vezes as pessoas concordam com a ideia de dar mais abertura para outros projetos menos literários mas acabam não percebendo que esta ideia persiste em outras áreas. Veja, por exemplo, os incentivos para a publicação no Brasil e para os programas de apoio à tradução.  Estes continuam sendo destinados aos livros e gêneros essencialmente literários. E onde está o problema?  Se há poucos críticos na imprensa aptos a resenhar livros comerciais, adultos ou juvenis, e o mesmo ocorre nos casos de prêmios literários, quem dirá o que acontece na maior parte do que se escolhe para acervo das bibliotecas, na decisão do que merece apoio de tradução no exterior, etc.  Ou seja, não adianta abrir um prêmio para livro policial ou decidir que passaremos a incluir livros juvenis nas compras de bibliotecas sem saber o que jovem quer ler. Senão, por modo automático, vamos continuar a premiar apenas autores de policial consagrados nos cadernos de cultura e lidos pelos mesmos de sempre e a selecionar obras apenas de Pedro Bandeira e Ruth Rocha. E o que se queria, promover mais a leitura, se perde.

Nós desejamos tanto a ampliação da cultura, da leitura, mas batemos sempre na mesma tecla. E este é o tema principal que quis tratar aqui: queremos aumentar o acesso das pessoas à cultura de livros, mas nossos esforços: imprensa, festivais, prêmios continuam focados apenas no mercado que já existe.  Não mudamos quase nada nessa forma de olhar. Mas o mercado mudou. O livro infantil que uma criança recebia na infância 30 anos atrás era indicado pela escola ou escolhido pelos seus pais. Hoje não é mais assim.  Muitos, como eu, tiveram acesso à cultura por um esforço muito pessoal, pois não havia facilidades para nós 30 anos antes. Mas não precisa ser assim. Até porque os garotos e os adolescentes de hoje decidem o que é bom para eles, muitas vezes em grupo, sem a mesma influência do mundo adulto. O desafio agora não é força-los a ler o que queremos, mas quebrar nossos paradigmas e oferecer mais opções contemporâneas. Ou seja, somos nós que precisamos mudar a forma de conduzir este assunto.

Dia desses lia um artigo que falava da necessidade de apostar na criatividade do brasileiro para lidar com o momento de crise que estamos atravessando. Para o setor editorial, aumentar o número de leitores sempre me parece a melhor saída dentre todas as discussões que estamos fazendo recentemente.

No entanto, justamente setores não diretamente ligados à própria indústria do livro e à cadeia de educação é que reagiram rapidamente e lógico que foi por motivos de mercado, porque querem ter mais leitores. Jornais e revistas inserindo a divulgação de autores e literatura comercial em seus espaços foi uma ótima reação. Mas é só o começo, ainda não há resenhas.

Falta agora que as compras governamentais, que as compras para bibliotecas pensem nesse público e incluam mais livros que os jovens querem ler. Que os prêmios literários incluam os gêneros comerciais em sua premiação. Que os incentivos de tradução no exterior passem a incluir os autores comerciais brasileiros; que as feiras e festas literárias tenham mais debates com autores conectados com o grande público e não apenas espaços para autógrafos. Só assim daremos um bom passo para a educação, para a formação de novos leitores, e até mesmo para, como dizem, salvar o mercado e as livrarias.

O Crítico, no filme, consegue perceber que ama uma pessoa bem diferente do que imaginou para si. Ele se permite a ter um relacionamento real, sem os preconceitos do universo social que o cercava. O novo romance surge como uma grande aventura, cheira de riscos, brega, mas com novas possibilidades. Aí terá de fazer uma escolha.critic 3

Sempre podemos aprender e mudar algo em que acreditávamos. Há crenças que envelhecem com o tempo. Quantos preconceitos decidimos não herdar dos nossos pais e avós porque pertenciam à sua época? Abrir o espaço que hoje existe para outras áreas da Literatura não é dividir o bolo que já é pequeno, mas pô-lo para assar, e deixar seu fermento fazê-lo crescer.

O filme está disponível no Telecine. Quem tem acesso ao canal, pode assistir on line, gratuitamente. Para assistir na TV é pago.

http://globosatplay.globo.com/telecine/v/4060859/

Meu artigo anterior:

https://faroeditorial.wordpress.com/2012/04/25/precisa-se-de-novos-criticos-literarios-publishnews/

Se quiser comentar, escreva logo abaixo.


capaPara o tema de hoje proponho um retorno às Humanidades e vou me apoiar em dois filmes:  Dançando no Escuro, 2000, de Lars Von Trier, com a cantora Bjork e Catherine Deneuve; e Detachment (Indiferença), que foi traduzido como O (Professor) Substituto, 2011, de Tony Kaye, com Adrian Brody, James Caan, Lucy Liu entre outros ótimos atores.

Penso que de uma ou outra forma, quase todo mundo se pergunta como passamos a viver num mundo em que dados e “aparências” valem mais que a palavra. Há um conceito antigo que se perdeu e nossa sociedade: A Palavra de alguém era como honra, tinha valor, carregava o crédito de uma vida. Servia para fechar negócios, assumir dívidas e ou compromissos. Então, isso foi se perdendo pouco a pouco até que contratos com multas, índices e juros tomaram o lugar da honra, e isso foi, pelo que me lembro, o início da nossa grande decadência.

Dançando no Escuro conta a história de uma moça muito simples, com uma doendancando no escuro bjorkça hereditária que irá levá-la a cegueira, ainda jovem.  Para evitar que seu filho tenha o mesmo destino, ela junta todo o dinheiro de uma vida a fim de pagar por uma cirurgia preventiva. No entanto, muita coisa acontece e acaba acusada de assassinato. Todos percebem que ela nunca teria condições de cometer o crime, mas como estão apoiados em evidencias aceitas pelo sistema judicial (era quem estava no local com malandro morto, restava como culpada). E ficamos todos boquiabertos, irritados, Detachmenttristes ao final do filme porque reconhecemos que tudo o que acontece ali na ficção é um reflexo de um sistema falido de julgamento binário, burocrático e que se repete o tempo todo em nossas vidas.

Nas últimas décadas de grande avanço tecnológico temos substituído inescrupulosamente a razão por dados, a verdade por uma cadeia linear de provas, aceitando como efeitos colaterais todas as injustiças que se cometem para fazer o sistema de dados funcionar. E se isso acontece nas empresas fundadas sobre as áreas de Humanas, como eLRA_detachment_1ditoras, escolas, universidades, pode-se imaginar o que ocorre com as demais. O que tenho visto é que aceitamos subjugar as Ciências Humanas às Exatas cotidianamente por diversos motivos e maneiras. Vejamos:

Sobre os dados e estatísticas, já aprendemos que podem ser manipulados para tantos lados que você pode pode obter respostas opostas tendo os mesmos números em mãos. Agora mesmo leio que a escola pública, onde estudou o aluno que tirou o 1º lugar do ENEM 2014, ficou quase na posição 600 dentro do Ranking total de escolas. Poderia exaltar a escola ou puni-la, bastando nos fixar nas extremidades desses dados.  Numa análise que diriam superficial, sem fazer entrevistas, mas apoiado no conhecimento de Humanas, eu poderia supor, quase com absoluta certeza, que o mérito não foi da escola, mas do aluno.  Mas é provável que você, mesmo concordando comigo, ainda prefira que se instaure uma auditoria da Price Waterhouse ou da Deloitte para que se possa dar uma opinião ou mesmo tomar uma decisão a respeito. E onde isso acaba? Somos assolados por tanta informação todos os minutos que depois de um tempo esquecemos desse fato, de ter pedido a confirmação dos dados, da análise, da auditoria, e o tema perde a necessidade e permanece indefinido.

Confiamos tantos em dados, índices e estatísticas que nos esquecemos de que eles são utilizados o tempo todo para nos fazer consumir, desejar, tomar um partido, enfim, nunca estão imunes de alguma intervenção.

É que confundimos dados com Matemática, e esta armadilha nos faz pensar que são exatos. Mas dados, mesmo quando verdadeiros, são burros. Pode-se justificar atos de toda a espécie, mas sobretudo tirar do ser humano a capacidade de analisar, de decidir, de discutir. A ferramenta mais imoral de um discurso pode ser um dado não verificado posto numa discussão como fato, já revelava Schopenhauer numa das 38 estratégias para vencer qualquer debate.

Como o foco deste artigo é o mercado editorial, vou trazer alguns exemplos desta área, mas que qualquer pessoa poderá enxergar também em outras áreas de atuação. Este mercado, que é fundado sobre áreas de humanas: letras, história, filosofia, artes, psicologia, línguas e literaturas tem se rendido a processos burocráticos, planilhas, índices, de tal forma que a arte, a humanidade desse segmento, acaba muitas vezes desprezada em benefício de um automatismo administrativo.

Não estou me referindo aqui aos processos administrativos, sistemas de controles de toda ordem para lidar com a gestão do negócio, mas criticando quando estes sistemas são priorizados em aspectos puramente artísticos, filosóficos, editoriais, por exemplo. Exemplos: departamentos como Jurídico e Financeiro atuam em editoras, livrarias e distribuidoras muitas vezes criando empecilhos para processo quando criam contratos sem maleabilidade; sistemas de comercialização e documentação fiscal sem flexibilidade; ou a mudança de acordos no meio do caminho sobre relações de confiança, entre autor e editora: é aquela parte que não se resolve por contrato. De tanto observar a repetição dessas cenas, tive de forjar um princípio em minha cabeça, que ouvi pela primeira vez do editor Quartim de Moraes, para demonstrar aos demais setores como reestabelecer o conceito dentro de uma empresa editorial: Manter o objetivo em foco e qualquer coisa, por mínima que seja, que venha atrapalhar esta finalidade, deve ser reconduzida ao seu lugar.

Em uma editora, o objetivo maior é o livro; em uma empresa de calçados, o calçado; em um restaurante, comida e atendimento, não o sistema de gestão, de contratos, de pagamentos. Numa livraria, quem importa é o público que a procura.  O conceito não é novo, mas raramente é posto em prática.  Lembro que na Livraria Cultura, onde trabalhei décadas atrás, qualquer funcionário, não importando se fosse um gerente de operações ou assistente de marketing, ao ser interpelado por um cliente sobre um livro se tornava imediatamente um vendedor, um atendente.  No entanto, o que se formou nos dias atuais são setores, dentro de empresas, que buscam se tornar importantes em si, em detrimento de toda a finalidade da companhia. E a isso credito essa supervalorização dos sistemas, dos processos.

Esse conceito surgiu visando trazer uma organização para a gestão de empresas mas me parece que creditamos as burocracias um valor exagerado. E nesse campo, vejo que um dos motivos é que, como são subjetivas as decisões ligadas às questões artísticas, humanas, subjetivas (dão trabalho e precisa-se refletir), tomar uma decisão por aspectos esquemáticos nos livram da culpa, pois as responsabilidades podem ser diluídas. Os equívocos baseados em planilhas geram uma investigação que, na maioria das vezes, vai revelar alguma série de procedimentos errados e uma falta de autonomia, e não podendo responsabilizar o sistema burocrático, ninguém será responsabilizado ( e mantido). Essa burocracia atua, por exemplo, no ambiente universitário, de modo cruel. Quem não se recorda de ter professores, com mestrados e doutorados brilhantes mas incapazes de transmitir conhecimento? É que o MEC obriga as universidades a terem 1/3 de seus professores com Mestrado e Doutorado. Não seria mais adequado exigir que soubessem ensinar? De novo, o poder máximo da Educação pautando suas decisões por números burros. Não foi por acaso que uma pesquisa da Revista Nature revelou semana passada que nossa produção científica é das mais medíocres do mundo.

Lembro de ter ido a uma reunião com um autores que representei e iríamos fechar uma série de livros numa editora. Para a reunião foi convidado um profissional de marketing.  Cada um falou um pouco, e quando ele abriu a boca para opinar sobre o conteúdo do projeto disse apenas: “Já vejo a chamada na Folha de São Paulo:  Grupo tal agora em  2.0”.  Enfim, ele não estava nem interessado no projeto, mas em criar um entorno para o seu trabalho, que certamente demandaria muitos recursos, bem como uma cara campanha. E isso acontece o tempo todo. Acontece porque continuamos a ouvir propostas como essas e consideramos relevantes, porque certamente seria uma notícia que iria circular, porque teria muito mais gente da área de cultura interessada em falar do tal projeto 2.0, que de um projeto altamente educativo e cultural bem realizado.

Perdemos o sentido para o que é o realmente importante: Um título ou uma didática? Uma chamada de marketing ou um produto de qualidade? Índices ou aproveitamento? Vendemos nossas almas a um mundo de dados cegos e que elegemos como guia para tudo. É que fechamos os olhos para o “jogo de cena” que se faz, e depois reclamamos dele.

Penso que o mundo seria um pouco melhor se parássemos de dar tanta atenção aos números, aos dados, às tecnologias. Valorizamos tanto isso que frequentemente somos manipulados. Num livro em que trabalhei para a Editora Saraiva, uma biografia sobre Henry Ford, um jornalista equiparava Ford a Steve Jobs. O autor discordou. E demonstrou que a criação do carro trouxe aspectos muito mais revolucionários, porque com ele veio a ideia de encurtar distancias (e tudo isso tem a ver com o processo de globalização, acesso à informação, turismo e consumo). Isso revolucionou desde o acesso a alimentos de todo o mundo à ideia de que podemos comprar um casaco da China ou ter acesso rápido a medicamentos para tratar do Ebola. Algo muito superior que um aparelho que nos tirou toda a atenção do mundo real e criou em nossa sociedade uma dependência por informação, jogos, acessos e contatos por redes sociais. Comparar um com outro não tem qualquer ponto de equilíbrio, e imagino que, no futuro breve, vamos descobrir o buraco que nos enfiamos ao adotar o smartphone, que vem formando gerações cada vez mais incapazes de trânsito social.

Veja este curto link, do filme O Substituto. Uma cena que tem a ver com a reflexão que proponho aqui. O filme conta a história de um professor substituto tendo de lidar com uma classe muito difícil. Perto dele, o Mentes Perigosas estrelado por Michelle Pfeifer se torna uma bobagem. Na cena aqui, o professor aproveita o xingamento que um menino faz (e o palavrão não foi legendado) para demonstrar como nossa Cultura reafirma mentiras, que nós sabemos que são mentiras, mas aceitamos.  https://www.youtube.com/watch?v=9D2G7EWqmBQ

Que em 2015 valorizemos mais as Ciências Humanas. Que possamos reassumir a discussão todas as coisas sob um aspecto que leve em conta o que sentimos de fato, e não seguindo um roteiro. Senão estaremos nos tornando reféns dos nossos processos robóticos, escravos das máquinas, algo “profetizado” por Isaac Asimov na sua série de contos condensada no livro, Eu, robô. #maishumanasmenosexatas

Se tiver interesse em assistir ao segundo filme completo, o que recomendo, não encontrei onde comprar, mas é fácil encontrar links em todos os idiomas no youtube. Se quiser comentar, escreva logo abaixo.


No artigo de hoje proponho um paralelo das múltiplas inteligências e habilidades com o interesse pelas literaturas.  É importante observar que há um mundo de leitores e interesses que não são atendidos com a existência de um conceito de qualidade na Literatura, que contempla apenas um tópico das 9 diferentes inteligências. Quem sabe haja aí um excelente espaço para formarmos uma massa incrível de novos e perenes leitores?

Semanas atrás, enquanto ministrava um curso para formação de publishers, abrimos uma discussão a respeito de como formar de leitores. Um participante, que atua numa ONG que cria e organiza bibliotecas populares, persistiu numa questão bastante recorrente no mercado editorial: “O que garante que uma criança, jovem ou adulto que lê uma obra de puro entretenimento vá evoluir para uma literatura de melhor qualidade?”.

Nesse momento se acendeu uma luz vermelha imaginária na sala. Era para mim como se todos estivessem imóveis e eu assistindo a uma cena da inquisição. Foram segundos, mas lembrei naquela hora as repetidas vezes em que ouvi a mesma questão, sob a crença de que há um percurso necessário para se fazer com a Literatura, de que há um tipo de evolução, de que ler livros cada vez mais complexos é um ótimo caminho. Não é!  E vou mostrar porquê.

Duas situações podem exemplificar bem isso. A primeira delas recebi dias atrás, num vídeo que vale muito a pena assistir e tomou o lugar hoje do filme que costumo comentar. Acontecia um importante Congresso de Ciência nos EUA, com a presença de grandes nomes. O principal deles, Neil DeGrasse, um cientista negro, que responde a seguinte pergunta feita com cinismo: Por quê há tão poucas mulheres na ciência? Assista.

http://www.youtube.com/watch?v=azH49eq9rcg

Neil-deGrasse-Tyson-Screenshot

Agora saiba que quem fez a pergunta foi Larry Summers, ex-Presidente da Harvard University e Secretário do tesouro no Governo Clinton (e também do Obama). Me diga agora se toda a cultura, todos os livros que essa pessoa leu serviu para alguma coisa? A pergunta de Larry, que presidiu uma das mais importantes universidades do mundo, representa um argumento simplista numa defesa que apenas reforça a sua classe: a de homem, branco e de elite.  Poderia dizer que, provavelmente, seu pensamento é racista, misógino e deve acreditar na supremacia de um grupo sobre o outro, como algum tipo de seleção da natureza, sem levar em conta outros aspectos sociais. Mas tipos como esse, em que a larga cultura não cria um pensamento abrangente, há muitos.

A segunda situação foi aqui mesmo no Brasil. Recentemente, um filósofo muito conhecido, que figura nas listas de mais vendidos soltou a frase: “Sempre achei que mulheres feias deveriam ser proibidas pela saúde pública!” Quando li, fui atrás da informação para ver se não era falsa, se não era algum tipo de trolagem.  Mas não era. Foi feita de modo jocoso, e seu autor teve a coragem de defende-la. Não tenho dúvidas de que este Sr. é muito culto. Leu os grandes clássicos, mas me parece preso a um tipo de conceituação de relações sociais bem equivocada ou desigual. Sempre que ouço barbaridades assim me pergunto: De que adianta tanta cultura se não faz bom uso? Uma pessoa simples teria muito mais respeito pelos outros.

Vejam que estamos lidando com o “topo do topo” da pirâmide cultural. Imagine o meio.

Exemplos assim existem aos montes. As pessoas, todas, exercem suas opiniões com base em sua fonte de informação, interesse, experiência. E raramente se abrem para ouvir uma opinião que contradiga a sua. Sair de seu próprio meio cultural, estudar o outro lado, me parece um exercício inteligente que todos deveriam experimentar e cabe em qualquer situação.

Que evolução a literatura sofisticada promove?

Esse senso de que existe um processo evolutivo na obtenção de cultura literária não tem um valor para o mundo. Tem um valor para si próprio. Uma literatura sofisticada, por exemplo, pode servir para o leitor dialogar com suas próprias digressões pessoais, lidar com nossas questões filosóficas, deliciar-se na vivência e beleza promovida pela pena do autor, experimentar outros ares, olhares e espaços. O que isso promove diretamente para o mundo em termos de avanços? NADA! Queremos avanços ou algo que promova a evolução humana, então devemos investir em pesquisas nas Ciências: Física, Química, Biologia… E as Sociais, claro. A progressão numa literatura mais literária não vai promover nenhum mundo melhor, nenhuma pessoa melhor do que ela mesma queira ser, mesmo lendo ao pé da letra, a Bíblia, o Alcorão ou livros Agnósticos.

Formar leitores sem interferir no que irão ler

Então, quando ouço essa ideia persistente, de que só se deve investir na formação de leitores utilizando literaturas e autores que o mercado gosta de desprezar se houver uma garantia de que a pessoa, depois, partirá para literaturas mais “nobres”, fico pensando como o senso comum consolidou essa ideia autoritária amplamente difundida entre nós.

Se a evolução produz mentalidades como as desses dois senhores, melhor a ignorância. E não se trata de discordar de opinião política sobre a postura deles, mas sobre a visão segregacionista que eles mantêm, cada um a seu modo, instrumentalizados por larga cultura.

Há, claro, muita gente culturalmente ignorante, perversa e corrupta pelo mundo. A educação, a formação cultural, sem dúvidas, é o caminho das grandes civilizações. Os avanços em ciências e tecnologias acontecem concomitantemente com o desenvolvimento da língua, linguagem e seus processos. No entanto, o que precisa ser feito para promover a Literatura é dar o acesso, a experiência primária. O que vai acontecer depois disso não é controlado, dirigido e nem deve ser uma preocupação fortemente direcionada porque só irá atrair quem estiver intimamente alinhado a ela.

Como uma pessoa que já tem acesso à literatura experimenta um livro ou autor?  Recomendação! Algo que leu ou ouviu sobre tal autor e ele mesmo procura. Se ficar encantado, lê tudo. Caso contrário, vai atrás de outro. Promover a Literatura para quem já gosta é importante, mas se a pessoa já gosta de ler podemos dizer que apostar apenas nisso é como chover no molhado. E não é exatamente isso o que nossa cultura de livros faz? Falar, divulgar e valorizar livros e obras mais literárias que não atendem a um público pouco-leitor? Criar novos leitores, não apenas crianças, mas adultos que não leem, me parece ser uma tarefa mais importante. Especialmente, porque aumenta a massa de leitores, e terá certamente reflexo na educação, na profissionalização e na cidadania. Quão seria melhor que nosso processo de Educação fosse feito pela Literatura.

Motivações que tornam uma pessoa próxima dos livros

Uma pessoa começa a gostar de ler depois que é apresentada aos livros, e tem uma oferta com liberdade para escolher aquilo com o que mais se identifica. Há leitores que buscam aventura, outros, respostas para questões filosóficas da vida. Uns, conselhos, outros gostam das curiosidades. Ainda não conheço estudos que identifiquem a grande variedade de motivações que tornam alguém leitor. Há no entanto, um aspecto de nossa cultura de leitura, que identifica como relevante apenas a erudição do texto lido. Canso de ouvir gente que lê sempre, mas quando pergunto o que está lendo tenta citar um clássico (que efetivamente não o leu ou leu sem gostar, porque você percebe que fala do livro sem brilho ou sem profundidade) ou fala em tom baixo, com uma frase como que se desculpando por gostar de O pequeno príncipe ou o romance best-seller do momento.  O que esta cultura da erudição promove?  Vergonha de seu hábito de leitura e isso não é motivador. Uma importante pesquisa recente indicou que o principal motivo apontado pelos leitores como a vantagem dos e-readers era que ninguém sabia de fato o que eles estavam lendo quando o faziam em público.

Diferentes inteligências, diferentes interesses, diferentes literaturas.
É importante observar que há um mundo de leitores e interesses que não são atendidos pela simples existência de um conceito de qualidade na Literatura, a tal da erudição. O mundo já reconhece a existência de 9 diferentes tipos de inteligências. Veja a ilustração abaixo:

inteliHá séculos encaixamos as pessoas nas vocações para as mais diferentes áreas, ainda contidas nas designações humanas, exatas, biológicas e suas derivações. No entanto, na Literatura ainda mantemos um conceito de valor que abarca apenas uma das mais de 15 áreas dentro das ciências humanas. Se observarmos, esse conceito de valor literário inclui efetivamente a Linguística, acrescentando, dependendo do caso, a Filosofia e a História.

Outra classificação, esta mais recente, sofre da mesma falta de reflexão. Uma mesmo livro pode ser encaixado como obra de não ficção ou de auto ajuda, dependendo da época em que foi escrito. Vários livros de Filosofia, são considerados Não ficção, se forem clássicos, como Sócrates, Schopenhauer (como a arte de ter razão), etc. Mas se o mesmo tema de Filosofia for escrito por um autor hoje, será considerado autoajuda. É hora de começarmos a pensar diferente. Esses conceitos estão obsoletos e não fazem nenhum sentido. Pode parecer outro assunto o que estou dizendo, mas faz muita diferença para um autor, leitor e crítico lidar com um segmento ou outro. Por um certamente há respeito, por outro, nem sempre. E o motivo é ignorância, porque são a mesma coisa.

A Educação pela Literatura

Promover literatura para quem não tem o hábito cria um novo leitor que pode ser leitor para sempre.  Se ele vai continuar a ler; ampliar o interesse por textos mais literários, ninguém sabe e nem deveria ser uma preocupação central. E se você concordar que uma pessoa com pensamento mais complexo, sofisticado e culto não é mais feliz ou humana que outras, porque esse pensamento de “evoluir” na leitura? Vamos deixar as pessoas serem felizes lendo por décadas Nora Roberts e Mary Higgins Clark. E sempre haverá os que preferem a poesia parnasiana, os ensaios de Eric Hobsbawm. O que vai acontecer com estes?  Seguindo sua própria inclinação e interesses, provavelmente lerão, o que podemos chamar no bom sentido, mais do mesmo – autores semelhantes aos que já gostam em linha de pensamento, seja de entretenimento, arte ou filosofia. Se olhar desse ponto de vista, o mais do mesmo, independe se trata-se de uma obra política com orientação marxista ou o romance romântico.

Sempre que se levantam propostas sobre priorização do trabalho para criar novos leitores algumas pessoas com larga formação se sentem pessoalmente ofendidas, como se priorizar um público fosse uma crítica pessoal à formação mais culta. Não se trata disso. A formação cultural de maior envergadura e o gosto por textos de arte não precisam de grandes defensores, elas são o topo de sua arte. Fomentar o surgimento de leitores é o caminho para fazer crescer também esse topo e, para isso, vale repensar meios, formas e conteúdo. O que proponho aqui, caro leitor, é um diálogo com suas crenças. Penso que é preciso estar disposto a ver e a aprender a todo momento, sair do lugar confortável do mundo culto em que nós nos encontramos hoje e dar o direito de outros grupos, antes sem condições até de ler, a ler o que querem. Leitura é sempre boa e nossa Educação seria muito melhor se promovida por uma leitura sem controle.

Se quiser escrever algum comentário, será um prazer recebê-lo, pois aprendo sempre com visões de áreas diversas. Escreva logo abaixo.


Ganhador do Oscar de melhor filme em 2012 (o primeiro de uma produção francesa da História do prêmio), e mais dois: melhor diretor e melhor ator, o filme em PB e mudo numa época em que a sétima arte tenta se reinventar a partir de caríssimas tecnologias, O artista foi a grande surpresa da festa daquele ano.capa

 A história se passa numa versão de Hollywood dos anos de 1920 e conta o momento em que o cinema recebe o avanço da sonorização, alavancando novos astros, decretando o fim de uma era do cinema e levando à decadência os que não conseguiram se adaptar à inovação.

George Valentim, personagem interpretador por Jean Dujardin, era o grande astro da época: com seu sorriso iluminado e olhar sedutor, transformou-se num mestre da arte de comunicar sem falas, até que a indústria começa a testar a inclusão de voz nos filmes. Ele acreditava que aquele avanço tiraria toda a beleza e arte do cinema, mas também estava inseguro. No terreno do cinema mudo ele reinava, mas agora, todos os grandes produtores queriam testar o cinema falado.foto 2

Valentim tentou frear o avanço do som, mas logo foi vencido pela indústria, então decidiu passar a produzir seus próprios filmes. Para fazer uma nova película, financiou do próprio bolso, gastando toda a fortuna que acumulou no decorrer dos anos. Seu filme concorria agora com a atenção da novidade sonora e produções faladas e, mesmo protagonizadas por atores ainda desconhecidos, levaram sua tentativa ao fracasso, e então foi à bancarrota.

O filme continua, não se trata de uma história triste, mas é até aqui que eu gostaria de citar para ilustrar um momento bom de discutir literatura. Fiz sobre o filme alguns apontamentos que gostaria de compartilhar.foto 3

Porque o astro não quis incorporar o som em seus novos filmes?

Porque achava que perderia parte do acervo teatral para o qual estava mais preparado. E, para isso, decidiu até investir sozinho como ator e produtor ao mesmo tempo, ignorando o que o público queria. Estava cego, apaixonado por uma ideia e tentando prová-la a qualquer custo.

Porque os produtores queriam incluir som em seus novos filmes? 

Porque a novidade indicava um desejo do público em ouvir as histórias de modo mais natural. O cinema não era mudo por opção, era por falta de tecnologia. E os produtores viam o interesse vívido de mais público por uma história falada.

Parece irônico apresentar um filme sobre a decadência do cinema mudo com um filme vencedor de três Oscars. E mais porque o tema de hoje é a sacralização do passado e a consequente tendência dessa ideia ao fracasso- , porque ela inclui uma tentativa da não renovação. Mas é o que vou tentar.

O paradoxo de Valentim e o mercado editorial

Todo mundo ligado na área editorial deve ter lido algo a respeito da polêmica acerca das edições adaptadas de Machado de Assis nas últimas semanas, projeto criado pela escritora Patrícia Secco. Sem entrar em sua defesa, porque Patrícia não é nova no mercado e tem um trabalho social para mostrar, o melhor que aconteceu foi levantar essa discussão toda. Certa vez, quando criei uma série de marshups de obras literárias, recebi uma série de vaias de críticos, e um jornalista de Blog escreveu: Quando toda a massa de críticos se opõem violentamente contra uma proposta literária, devemos prestar atenção: alguma coisa boa pode estar surgindo. Não vou dizer se uma obra é boa ou ruim, mas sei que a discussão, essa sim, é ótima.Há muita gente que desconhece a realidade fora dos grandes centros e das escolas particulares. E que, quando gente inteligente, escolada, educada escreve de forma irracional, beirando desequilíbrio, contra uma proposta que tem mais pontos positivos que negativos, algo grande e importante pode estar surgindo e não estamos enxergando. Esperei algumas semanas passarem para tratar desse assunto por dois motivos:

  • Evitar que as paixões continuassem a interferir nas opiniões que povoam o nosso cotidiano,
  • Reunir os pontos centrais dos contrários a ideia deste projeto, para apresentar contrapontos.

O projeto angariou recursos para distribuir gratuitamente 600.000 livros em escolas de periferia por todo o país. Era para ser uma ação de grande alcance social, mas logo na primeira matéria foi tratada como escândalo. Os jornalistas usaram expressões como simplificar, macular, mastigar, reescrever, alguns sugeriram cadeia para ela, entre outras coisas piores ao criticar o seu trabalho, e quase todas mostraram um único exemplo de simplificação de palavra proposto pela equipe de Patricia: sagacidade por esperteza. Claro. Não eram a matérias isentas, mas editorialistas.

A matéria ainda duvidou da capacidade de adaptação da equipe de Patrícia. Esperava ter nomes famosos para a execução do projeto, como se isso garantisse um padrão de qualidade excelente, e num trabalho que não teve por interesse atingir os leitores de alta literatura.

O caso me pareceu em alguns aspectos como o que aconteceu com a divulgação bombástica dos dados da pesquisa do IPEA sobre o estupro: todo mundo saiu para tomar uma posição sem refletir sobre como a pesquisa fora executada e os critérios de interpretação dos dados – boa parte da polêmica apaixonada foi por terra diante da retificação feito pelo IPEA.

No caso da adaptação dos livros, a crítica contrária foi numericamente gigantesca em relação aos parcos apoios. E a causa maior da leitura, da apresentação de um autor como Machado distribuído gratuitamente para crianças, algo que poderia seria tratado com louvor, foi alvo de uma avalanche de críticas e assolou todos os meios de comunicação, de redes sociais a comentários das dezenas de matérias que circularam por todos os jornais. Houve quem assinasse um manifesto para proibir a edição adaptada – que já conta com10.000 inscritos. Duas exceções dentre os grandes veículos foram as colunas do Danilo Venticinque, da Revista Época, e uma matéria do Estadão que apresentou críticos favoráveis.

Tentei então coletar os motivos das principais críticas encontradas em jornais, revistas e redes sociais para testá-las e, em vez de me debruçar sobre cada suposição, e apresentar um contexto lógicos das principais críticas.

1 – O trabalho que ela fez não é adaptação. 

O que é uma adaptação?  É adaptar algo. Neste caso, um livro adulto para uma criança com baixa escolarização.

Muitos disseram que o que foi feito era diferente de uma adaptação e houve até quem dissesse que um texto de Machado não deveria ser adaptado. É justo respeitar uma opinião, assim como se deve respeitar a liberdade de outrem ter outra ideia e fazer algo diferente.

Outras formas de adaptação: Tradução. Qualquer livro em português de autor internacional é uma adaptação, com seus sinônimos para as palavras originais. Resumir, focar num público juvenil, infantil, de quadrinhos são versões de adaptações.

A adaptação está presente em nosso cotidiano desde a criação do mundo, porque foi do olhar de alguém, ou da tradição oral, passada por gerações, que temos tudo. Bíblia e todos os textos sagrados, documentos literários históricos e suas versões feitas pelos copistas etc.  Inclusive, o texto mais sagrado para o mundo ocidental, tem sua versão “para os dias de hoje”, porque teólogos perceberam em algum momento que fazer as pessoas lerem a Bíblia era mais importante que usar a palavra mais próxima do original de sua época, que ainda seria um sinônimo. É possível que muitos leitores desta coluna que conheçam a música “Monte Castelo”, do Legião Urbana, possivelmente encontrarão em suas Bíblias versos diferentes daqueles cantados por Renato Russo, pois a tradução de João Ferreira de Almeida possui a versão corrigida e revisada e a revista e atualizada, em que caridade, por exemplo, passou a se chamar amor. Até o início dos anos 80, as traduções no Brasil não eram alvo de muito estudo, debate crítico e, não raras vezes, o que se consumiu foram traduções medianas de grandes clássicos, e em geral, traduzidas sempre do Inglês.

Além disso, em todos os países do mundo antigo, seus autores mais clássicos têm versões de suas obras simplificadas tanto para ensinar seus idiomas a não falantes quanto a crianças – ou alguém acredita ter lido a tradução mais fidedigna da edição original dos irmãos Grimm na infância?

Com isso chego a outro ponto levantado:

2 – O risco de empobrecimento da linguagem

Durante as críticas, foi afirmado que adaptações e as versões populares poderiam prejudicar a formação cultural de nossos estudantes.

Se até os anos 80 grande parte de nossas traduções não era ótima, quase todas produzidas a partir do inglês, independente do idioma original, e isso formou os maiores intelectuais do país, porque agora iriam prejudicar leitores em formação? Quem leu clássicos internacionais nos anos 80 ficou com sequelas disso, com um vocabulário inferior? Acho que não.

Mas para quem estas obras do projeto se dirigem? Para crianças. Faça o teste sem refletir muito: qual o sinônimo de sagacidade, o termo que foi escolhido do projeto de Patricia, alvo da crítica central sobre a adaptação de Machado?

Todo mundo responderá “acuidade”, “discernimento”, “agudeza” e, especialmente, “ESPERTEZA”. Fiz esse teste com mais de 30 pessoas do meio editorial e “esperteza”  foi, varrido, o termo escolhido para a troca. Ouvi críticos dizendo que sagacidade é uma palavra que carrega outros sentidos…  Mas novamente estamos invertendo os pesos e esquecendo o objetivo da proposta. Se há um termo difícil de definir, entre nós, adultos, não vamos exigir que leitores jovens, em formação, fiquem com o dicionário ao lado. Outro mito amplamente difundido mas que não conheço um adulto que continue uma leitura por prazer, se tiver de consultar o dicionário a cada grupo de páginas.  Ah! mas se não se entende e pode usar um dicionário, não é isso o que o projeto de Patrícia propôs?  E, se seguíssemos esse princípio purista, de só permitir o melhor, deveríamos passar a nos preocupar com a formação dos professores. Num país em que muitos dão aulas a jovens em ensino médio que mal sabem ler, e od próprios mestres, com parcos recursos culturais, essa exigência toda parece uma bobagem.

3 – Uso da lei de incentivos e outras.

Sobre o projeto, houve quem reclamasse pelo uso das leis de incentivo cultural. Até hoje as leis de incentivo foram usadas para diversos livros e espetáculos voltados às classes A e B, por que a gritaria pelo uso para um projeto como esse? Esse projeto não elimina a versão oficial; nem mesmo trata-se de uma compra governamental. É um projeto social em que recursos que iriam para os bolsos governamentais voltam para a população e diferente de toda a pressão contra ele não obriga a lê-lo quem preferir o original.

Temos uma nação de leitores para que valha a pena dificultar a leitura ou é o contrário?

Foram com clássicos adultos que a maior parte das crianças e jovens aprenderam a gostar de ler ou foram com adaptações, gibis e títulos infantis e juvenis que falavam a linguagem da criança e do adolescente? E não é sedutora a ideia de que se possa fazer isso – ler com prazer, sem muitas dificuldades-, na fase infanto-juvenil por meio de obras clássicas?

Penso que falta nos colocarmos no lugar da criança, algo que raramente é feito. É por esse motivo que clássicos adultos estão obrigatórios no ensino.  Na infância de muita gente, eu incluído, ler era uma obrigação, e todos respeitávamos essa obrigação.  Hoje temos dois problemas: há um tanto de distrações para a leitura e as crianças não se sentem mais obrigadas a fazer algo que não gostam. Elas escolhem roupas, brinquedos, programas de TV, onde vão estudar, passar férias, porque não poderiam escolher o que vão ler?

E se não dermos escolhas, elas vão educadamente atender a imposições e ler os clássicos? Ou devemos impor que só podem ler se for no original?

Uma celeuma como essa me faz pensar que a ideia de ditadura e censura está em nosso sangue. Dizer o que os outros devem fazer, como devem fazer parece uma regra moral e ainda muito presente no mundo intelectual. Uma raiz forte da crítica, a meu ver, se prende a um aspecto curioso. O sentimento de sacralidade de nossa língua e nossos autores clássicos. Machado seria, nesse campo, intocável. Era o bruxo das palavras e tocar em seu texto é algo inadmissível.

Mas o que é preferível: que ele seja lido em adaptações ou nunca lido? Pergunte para pessoas que moram em periferia e tem até o ensino médio, ou uma recepcionista, uma caixa, um taxista, se leram alguma obra de Machado de Assis. E quantas gostaram.

Outro fato que me chamou a atenção é a mania de interferir no gosto do outro, como meio de submissão a um grupo de crenças. E isso acontece a cada momento, não só na literatura. Mas o que está por trás dessas escolhas? Não se busca a verdade, mas apenas afirmar uma ideologia.

Vejamos: Nas entrevistas em eleições, em vez de traçarem um perfil administrativo de um candidato a presidente, governador ou prefeito, e conhecerem seus projetos de gestão pública e de estadista, que perguntas são feitas?  Se acredita em Deus, se tem religião, se é casado, se usou drogas. Que tipo de perguntas são essas? Ou ainda, como esse tipo de informação indicaria que ele será um bom governante? Não seria mais importante medir a capacidade de administrar e a ausência de denúncias de corrupção? Porque transformar o direito individual num motivo de execração quando isso pouco interfere se comparado ao exercício anterior de cargo político?  Eu penso que são perguntas de tão mau gosto e com um sentido desviante da verdade que deveriam ser abolidas. E o pior é que a corrupção passa a ser menos relevante.

O mesmo desvio argumentativo fomentou a polêmica em questão. Precisamos nos fixar nas questões importantes. A Educação é mais importante que a vírgula.  E por isso mesmo foi triste ver os discursos das pessoas convidadas a opinar.

O projeto não é voltado para crianças de periferia? Porque é importante ouvir doutores em Literatura das maiores universidades do país que nada produzem para o acesso de novos leitores? É como perguntar a homens brancos se mulheres e negros tem de ser tratados com igualdade.

Alguém reparou que ninguém foi ouvir as crianças, jovens e adultos que são o público alvo desse projeto? E os professores das escolas de periferia que tem de lidar com o analfabetismo funcional que esses doutores parecem ignorar. Isso não é nivelar por baixo, mas um mínimo de didática. Que as pessoas possam primeiro aprender a ler, gostar de ler, antes de escolher ler um clássico.

O que me fez voltar a esse assunto foi a passionalidade com que muitos agiram na crítica. Quem puder observar os comentários em cada uma dessas matérias dos jornais na web verá que 97% das pessoas eram gravemente contra, e agressivas.

Algumas vezes, percebo que quando abordo a necessidade de uma literatura de acesso parece que estou destituindo o valor da alta literatura (e das pessoas que amam), mas não é isso. Escrevo aqui porque sinto que muitas vezes a nossa classe cultural age seguidamente de modo elitista, excludente. Muitos se tornaram leitores clássicos com muita dificuldade e defendem hoje que a dificuldade continue. Uma larga cultura nem sempre produz um grande pensador. A capacidade de raciocinar pode ser gravemente ferida pela paixão, pelo conjunto de crenças e valores que nos construíram. Percebo que é bastante difícil mudar isso em nós, mas devemos expor sempre nossas crenças à lógica, senão vira fé cega, e o erro mora ao lado.

Acredito que devem haver tantas opções quantos grupos de pessoas dispostas a ler. Machado não é uma religião xiita. Quanto mais inserirmos os textos dele suas versões no cotidiano das pessoas e colocarmos disponível em todos os lugares, meios, ou públicos, mais relevante ele se tornará. E isso não destrói sua obra, o contrário. E sua versão original continuará a ser lida e tratada como especial dentre todas as outras. E nossa Cultura ganha com isso.

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O filme

que trago hoje foi lançado em 2012, mas pouca gente assistiu. Baseia-se num livro do escritor paquistanês Moshin Hamid e foi levado para as telas pela diretora indiana Mira Nair e tem Kiefer Sutterland como um dos protagonistas. Escolhido para abrir o festival de Veneza em 2012, alguns disseram que fora por motivos políticos. Para mim ele tem várias qualidades, mas a melhor é mostrar como os fundamentalismos nascem e prosperam em todos os lados. O filme conta a história de um paquistanês que decidiu viver o sonho americano. Mudou-se para os EUA, alçou um voo muito rápido, até que alguns fatos o levaram rever seu plano. Ele acabara de se tornar sócio de uma firma de reestruturação de empresas, então a empresa é contratada por um companhia de comunicação que precisava enxugar custos. A ele caberia cortar cargos e salários de uma tradicional, advinhem… EDITORA. Rsrsrs Ele, que estava tentando se manter firme naquele propósito de vencer na vida, vê ali os fundamentos de sua vontade de inicial postos à prova com relação à sua origem. Numa outra ponta, de volta ao Paquistão, começa a lecionar numa universidade. Suas ideias políticas atraem os estudantes e acaba por se tornar uma liderança natural entre os jovens. Logo, líderes do movimento islâmico fundamentalista tentam cooptá-lo para suas linhas de comando, mas ele gentilmente recusa. Vê-se então diante de um impasse: dois movimentos contrários entre si, ambos fazendo seu proselitismo para angariar simpatia e, sob o menor sinal de recusa, nosso protagonista é tratado como adversário de ambos. O título ficaria mais claro se chamasse O relutante ao fundamentalismo, mas perderia a poesia.

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No artigo anterior do Publishnews tratei do tema: Por que gêneros menos literários e seus autores ficam de fora dos grandes eventos de literatura? Hoje vou sair da pergunta para propor uma forma de como pode ser feito. E é importante abrir aspas aqui porque ainda há certa confusão. Literatura são escritos em prosa ou verso, de qualquer área. Por isso chamamos ora de literatura acadêmica, inglesa, médica, botânica, de auto ajuda. Literário é quando a arte de escrever, o domínio da forma é tão ou mais relevante que o conteúdo. Em geral é onde se encontram quase todas as obras poéticas e muitos romances, mas pode ser utilizada em qualquer área. Hilda Hilst escreveu um livro erótico literário; alguns biógrafos foram mais literários em suas narrativas, como Capote. Enfim, não dá para separar uma coisa da outra, pois o aspecto literário pode estar presente em qualquer livro, em qualquer parte, de modo que fazer uma divisão sempre se cai num aspecto subjetivo. E não acho que o grande público leitor escolha obras por serem mais ou menos literárias. Pelos números de vendas, buscam o contrário.

Há algum tempo tenho escrito sobre como o Mercado editorial pode aprender com os leitores. Venho comentando sobre os direcionamentos que todos os veículos de cultura dão como indicação sobre o que é bom e merece ser valorizado, tornando excluídos gêneros e autores que, hoje, mais do que nunca, são os grandes financiadores das editoras, livrarias, gráficas e eventos culturais. Sendo o cerne dos questionamentos que propus no artigo anterior, sempre faço antes de cada novo artigo, saio conversando com amigos, colegas e profissionais diversos do mercado editorial para ouvir outras opiniões. Assim, o que publico, são também frutos de generosas conversas com gente de todas as áreas deste mercado. Comecei a fazer perguntas, e colhi respostas de algumas pessoas que tem atuado na organização de eventos e discutido alternativas para incluir novos talentos nos grandes eventos culturais.

Mariana Teixeira, Agente Literária, que atua no mercado editorial há mais de uma década e bagagem de mais 15 anos de TV Globo e Futura, fez uma boa pergunta em sua página no Facebook e gerou interessantes comentários. Porque sempre levam os mesmos nomes para os eventos? Ela trabalha com diversos autores, alguns de textos mais literários, outros mais comerciais, ficção e não ficção, então percebe como a entrada de novos talentos em eventos culturais é sempre muito difícil. Cristiane Costa, Jornalista e Editora, com larga experiência em curadoria em eventos apontou o problema. “Porque os patrocinadores dos eventos reclamam quando há nomes que eles não conhecem e logo perguntam: mas e o Gullar, não vai chamar?” E completou. “E o pior, é que o coitado do crítico literário não saberia falar de outro autor se fosse convidado a falar em público.” E com Marisa Moura, agente literária e que idealizou e está à frente da coordenação literária da FLAQ, em Aquiraz, cidade que fica a 30 KM de Fortaleza, é uma das pessoas que tenta levar temas e autores diferentes ao evento. E sei que todos os que buscam diversificar nessa linha encontram as mesmas barreiras. E com diversificar não é apenas incluir eventos que hoje não existem, mas trazer novos nomes, resgatar outros esquecidos, enfim, que todas as feiras que ocorram num ano não fiquem desfilando apenas os mesmos nomes.

A situação não é simples. Muitos organizadores não conseguem conceber um evento que não tenha apenas os grandes e esperados nomes. Temos uma indústria, divulgadores, imprensa e público que cresceu lendo apenas autores de dois séculos atrás até os modernistas e não conhecem nada além deles; e com uma crença de que boa literatura é ficção, poesia, ou as obras em que o exercício do idioma se transforma em arte. Isso é um tipo de fundamentalismo. E, ao fazer isso excluímos todos os gêneros onde a arte está na história, no conteúdo, na imaginação, na entrega do que é proposto, seja entretenimento, diversão, fantasia, interatividade, não importa. E se encontra abundantemente em todos os gêneros. Mas esse fundamentalismo não acontece com os “outros”. Somos todos nós, eu, você, o amigo, o professor, o editor, o jornalista, o bibliotecário, o reitor, o designer de moda… Todos nós crescemos e mantemos essa ideia de há mais qualidade quando algo é exclusivo, para um grupo restrito e isso pode fazer até sentido para algumas formas de arte quando são peças únicas, como quadro, esculturas; mas em se tratando de promoção dos livros e literatura, que precisa multiplicar um obra em milhares para torná-la viável, esse conceito é um atraso.

Acredito que a qualidade só possa ser medida por quem consome. E, isto também ouvi há 10 anos de um reconhecido editor, que fundou a mais importante revista de Cultura que já tivemos, e me fez virar crente da premissa: um livro que vende muito não pode ser ruim, porque cumpriu o seu dever, de se comunicar com muitos outros. A exceção, eu faria, são aqueles em que as pessoas não compram porque gostam, mas apenas por motivos partidários ou de fé, onde a escolha está de algum modo subtraída.

Mas vamos a parte prática: quando proponho que eventos culturais como Bienais e feiras do livro possam atender a outros públicos, que não reprisem sempre os mesmos nomes e temas, o que pode ser feito? Primeiro penso que temos de dar opções: a cadeia de divulgação cultural precisa ser apoiada. Ela sozinha não consegue mudar o rumo desse barco.

Pesquisando sobre os eventos oficiais das bienais, vi logo de cara uma chamada que dá bem a medida deste problema: No Salão de Idéias estarão… “Zuenir Ventura, Ana Maria Machado, Edney Silvestre, Lya Luft e muita gente bacana.” Chamada do jornal O Globo sobre a Bienal do RJ 2013. Fico pensando como o mesmo editor do caderno chamaria um evento popular no meio da festa do livro: se fosse na linha do que andou escrevendo Vargas Llosa diria: “A Barbárie invade a Bienal.” Ou “Festa literária se rende à indústria.” Como se os jornais e as revistas, para continuarem sendo lidos não tivessem se aproximado mais do público nos últimos dez anos.

Que tal, por exemplo, uma bienal ter uma mesa sobre os desafios da educação financeira? Ou A busca da espiritualidade segundo jung ou numa versão ecumênica? Ou sobre Literatura fantástica em que autores nacionais mostrem como tropicalizaram temas universais? Quais as vantagens, processos de criação, inspiração e transposição desses trabalhos? Ou ainda com uma mesa em que autoras de livros para meninas falem do que as motivou escrever. Ou porque decidiram escrever livros que tiram a carga fantasiosa dos Contos de Fadas? ou ainda, que reúna autores educadores, psicólogos ou terapeutas não para teorizar, ou para discursar sobre temas acadêmicos, mas para falar por temas: como se livrar da culpa; como se preparar para uma terapia; como enxergar os seus defeitos e aceitar os dos outros. É claro, para identificar esses novos caminhos, tem de estar por dentro dos fenômenos da literatura e sem um olhar desrespeitoso, como ocorreu quando a onda de eróticos surgiu: para mim, uma consequência de centenas de movimentos em que a mulher se deu ao direito de ver o sexo mais próximo do que sempre foi o direito do homem.

Já prevejo alguns risos nervosos de gente que pode achar os temas ridículos, sendo que são apenas caminhos para se trabalhar de modo diferente. Mas porque proponho isso? Porque o que se faz hoje exclui muita gente, e penso que estamos errados há muito tempo. O que penso que muitos gostariam de ver é criatividade em temas e autores nesses eventos de feiras do livros e Bienais. Há muitos temas que parecem teses de mestrado em eventos que deveriam ser populares. Há tempos sabemos que quem frequenta Bienais são as pessoas comuns. Grande parcela dos intelectuais frequentam saraus, lançamentos, rodas culturais de circuitos das grandes cidades.

Querem ver exemplos de como boa parte desses eventos ignoram a presença do grande público? Dois links que encontrei na net. Um da Bienal de SP e outra do RJ. Nesse recorte, em geral, eventos mais voltados para um leitor mais clássico, no RJ. Algumas propostas de comunicação com o grande público em SP, mas ambos, tem muito a melhorar. E volto a dizer para não parecer um apontar de dedos. Não é culpa de uma pessoa. Somos todos nós que alimentamos as mesmas expectativas e só queremos mais do mesmo. http://www.bienaldolivro.com.br/canal/?programacao-cultural/2278/cafe-literario/ E os temas das mesas encontrados aqui: A sabedoria entre mundos; A poesia do século XXI; Sabedoria, Riso, Sociedade; O traço e a escrita na produção do narrar; Obra de ficção como trabalho; Contato entre culturas: do choque ao afeto; …. E todo os restante continua na mesma pegada.

Na de São Paulo de 2012, com poucas tentativas populares, e algumas novidades boas, mas apenas voltadas para públicos específicos ligados a literatura, como atuantes e aspirantes a funções no mercado editorial. http://g1.globo.com/bienal-do-livro/sp/2012/noticia/2012/08/bienal-do-livro-de-sp-comeca-com-homenagem-jorge-amado.html

O que peço para observarem em ambos os eventos? Para quem não sabe, há dois tipos de eventos nas principais feiras do Livro: aqueles promovidos pela organização do evento, e para os quais são produzidas peças de comunicação diversas. São os eventos oficiais, que contam com toda a força de publicidade e são realizados nos espaços culturais de prestígio e acesso a todos os participantes. Os outros são de produção, custo, organização exclusivos das editoras. Livros vistos apenas como produtos Vamos dar exemplo de dois fenômenos das bienais: Livros de padres e literatura fantástica. Pergunto: porque os eventos oficiais não convidam os autores que mais vendem livros neste país para estes eventos? Porque os relegam a simples tardes de autógrafos, financiadas por suas editoras, mas em que não há espaço para exposição de idéias? Penso que associam que se um livro é popular não possui um tema a ser discutido. Assim, os grande levadores de gente para as Bienais ficam restritos rubricar livros, onde não há nenhuma oportunidade de interação intelectual com o público. Basicamente, acreditam que este é o lugar que lhes cabe. E, na verdade, as Bienais (e isso se estende a várias feiras importantes do livro pelo país) apenas segue com esses autores a repetição do que se realiza nas livrarias: filas de autógrafos intermináveis mas numa posição em que os autores não passam de celebridades, quase sem abrir a boca.

Porque há algo de errado nisso? Porque estamos tratando o público desses livros com desprezo. Porque quando não propomos uma integração entre a as pessoas e os livros, estamos dizendo várias coisas: que os livros não são bons o suficiente para promover uma conversa com os leitores; e que estes leitores não são um público de que devamos nos orgulhar da presença e participação. Para mim, estamos oferecendo apenas circo para estas pessoas que buscam ler. E impedindo que essa tentativa de começo, essa literatura que pode servir de acesso a outras, produza uma experiência que sobreviva a toda a sorte de distração que o mundo oferece.

Sugiro aos autores que gostariam de ser incluídos nesses eventos que se organizem com outros autores com propostas afins, proponham eventos para as Bienais e feiras, porque uma parte do problema é que muitos curadores são especializados numa área mais clássica e não conseguem sozinhos elaborar essas novidades. E façam o mesmo com as redes de livrarias. Estas, já estão à frente com belas iniciativas, e já produzem eventos populares com frequência atendendo a demanda deste enorme público. Vejo o futuro com otimismo. As iniciativas acontecem de ambos os lados, mas quanto mais cedo apoiarmos as iniciativas populares, mais forte nosso mercado cultural fica.

O mercado sempre dita as regras. Uma hora, se isso demorar a acontecer, esses levadores de gente começam a migrar das bienais para eventos exclusivos, e são os grandes eventos que vão perder uma boa injeção de público que hoje alimenta essas feiras. O que cada um pode fazer? Um começo é parar de perguntar: Não vai ter o Gullar?

Se quiser escrever algum comentário, será um prazer recebe-lo, pois aprendo sempre com visões de áreas diversas. Basta postar logo abaixo.


Este artigo foi publicado em inicialmente em 15/01/2014 mas hoje, 19/03/2015, com a repetição da participação brasileira repetitiva na homenagem a nossa Literatura em Paris, o artigo se torna ainda muito atual. E é preciso fazer algo para tornar os eventos literários mais diversificados.

 

O assunto que mais repercutiu sobre a participação do Brasil como país convidado feira de Frankfurt de 2013 certamente foi o discurso de Luiz Ruffato. Pegou todos de surpresa, pois esperávamos que falasse de literatura, mas apresentou uma interminável lista de problemas sociais – situações em que o Brasil, no cenário mundial, corre pela liderança em questões de desigualdade, violência e outras mazelas.
Eu estava lá na abertura e posso dizer o sentimento que tive. Tão imediato que postei algo minutos depois na rede social. Vi então armar-se um batalhão de prós e contras ao tom do discurso, muito mais prós. E prós por vários motivos, que é o que convido os leitores a refletir. Trago aqui o que compreendi estar por trás desse posicionamento favorável ouvindo muita gente do mercado, e o que descobri me pareceu ter pouco a ver com o fato de que aquele evento tinha outro objetivo, ligado à divulgação do nosso idioma, da nossa cultura, do nosso país. E Cultura = Educação é o que pode trazer benefícios mais consistentes para lidar com todas desigualdades citadas lá e que ocorrem em nosso país.
Imediatamente após o discurso, Ziraldo pediu que não o aplaudissem, e depois declarou ao Estado de S. Paulo: “esse era um discurso para se fazer numa rodada de negociações de Doha”, referindo-se ao fato de que tratava-se do evento de abertura da maior feira do livro, com visibilidade do país homenageado para a grande imprensa mundial, e para os maiores editores e agentes de todo o mundo. Ele viu imediatamente uma enorme oportunidade desperdiçada de falar das especificidades de nossa literatura.
Ana Maria Machado, momentos depois, deu o recado. Não foi um texto de prêmio Nobel, mas foi muito competente, correto e oportuno. Foi de alguém que refletiu sobre o seu papel para nos representar e indicou caminhos para se pesquisar a Literatura produzida aqui, de modo que estrangeiros possam aprender a apreciá-la, sem se prender a modelos já consagrados em outros países.
Depois de ambos os discursos, vi uma parte mais ativista da comissão de autores brasileiros presentes no evento, aplaudindo de pé o discurso do Rufatto e ignorando o discurso de Ana Maria Machado. O que me pareceu? Uma repetição do que assisti nesses 20 anos trabalhando no mercado editorial em todo o tipo de editoras: que existe uma turma, absolutamente corporativista, que aplaude os seus e ignora os demais usando critérios de afinidade pessoal, sem qualquer vínculo com a obra. Depois percebi, ao comentar com amigos, autores e editores, uma defesa do discurso do escritor por muitos motivos: por todas as suas características de sua obra, de seu passado, de sua representatividade. Mas não era o ponto em discussão. Ali não era momento, a meu ver, para pensar unicamente em nas ideias pessoais, mas para representar a literatura brasileira. E falar da lista interminável de mazelas que existem por aqui não me pareceu tocante. Assisti à Nova Zelândia, Índia, China, Turquia como países homenageados pela Feira de Frankfurt em anos anteriores se portarem bem mais positivos em relação ao potencial da literatura de seu país. Ali era momento de falar para fora, mas falamos para dentro.
Um amigo rapidamente me apontou para um fato interessante: diante de uma lista enorme e triste de desgraças sentiu falta da palavra corrupção naquele discurso, o que nos parece ser motivo de tanta desigualdade social. Fui conferir… realmente não havia. Talvez porque essa era uma palavra-chave em 2013 e nos meses seguintes com a prisão de corruptos e aquele evento estava sendo viabilizado exatamente pelo atual governo e, dois deles, presentes no momento: Marta Suplicy(PT) e Michel Temer (PMDB). Não pareceu, portanto, algum esquecimento.
Acompanhei a repercussão do discurso nos jornais brasileiros e nas redes sociais, e a quase unanimidade dos leitores afirmaram que dizer aquilo, naquele evento, era a coisa certa. Mas é preciso ponderar. Para qualquer brasileiro, no nível de insatisfação e revolta com que estamos (e naquela época estávamos numa cotidiana onda de protestos), jogar merda no ventilador podia parecer a coisa certa. Muitos disseram que era uma oportunidade de usar o palco mundial para fazer repercutir aqui no Brasil os nossos problemas. Ledo engano. A lista de mazelas propalada pelo escritor não é desconhecida de ninguém no Brasil. Porque acham que falar dessa lista, num evento literário, iria ter uma ótima repercussão a ponto de promover reforma na estrutura corrupta deste país, onde políticos que ocupam os mais variados cargos mentem publicamente sem nenhum remorso e raramente algo lhes acontece? E onde achamos muito normal pessoas ou grupo político por quem simpatizamos não seja punido, apesar de crimes confirmados, apenas porque outros corruptos ainda não o foram, quando o ideal é que todos fossem em cana? Ah. Isso também é um outro tipo de corporativismo.
Vi ainda, nos apoiadores daquele discurso, pessoas que apoiam uníssono a pessoa do autor, sem refletir sobre a fala. Algo que aconteceu em todas as últimas décadas no Brasil com nossa crítica literária e que somente agora começa a mudar.
Mas tive ainda a oportunidade de verificar outra coisa. O efeito desse discurso não passou despercebido pela imprensa mundial: No domingo, último dia da feira, o jornal alemão, Die Zeit, estampou uma matéria de capa com a seguinte chamada:
 
“Os belos livros de aventura do outono e os vitais e melancólicos autores do Brasil, país convidado deste ano.” (traduzido por Regina Drumond a meu pedido)
O tom da chamada me chamou a atenção. Não somos mais um país alegre? Como nos tornamos um país do pessimismo? A nossa participação na feira do livro tinha conseguido produzir isso? Depois, alguns amigos que estiveram na coletiva encerramento do evento contaram-me que este foi o tom geral das perguntas da imprensa internacional. E não falavam só da literatura, mas também da música, e também do estande do Brasil, absolutamente minimalista, todo branco, algo que parecia mais caber numa exposição de bienal da arte de SP que para representar um pais tão colorido quanto o Brasil. Se não quiseram levar o Axé porque não levaram o frevo? Só Bossa nova não dá e remete a uma escolha de gosto, ou estou exagerando?
Agora vejam o Stand da Nova Zelândia, 2012, que mostrou sua natureza, seu Céu (porque era sempre noite quando na Alemanha era dia) e muito mais.
A Literatura que nos representa
Acho ótimo o Brasil quebrar preconceitos, surpreender os estrangeiros, mas não tirando uma marca de alegria e colocando nada ou tristeza no lugar. E se vamos falar de diferenças e questões sociais, que tal observar a nossa Literatura?
Antes de criticar, temos de fazer uma autocrítica sobre o próprio mercado editorial. Nossas escolhas sejam para a Flip, para nos representar em Frankfurt, para Bienais raramente escapam de duas vertentes conjugadas: alta literatura produzida no eixo RJ-SP e publicada por grandes casas. A diversidade de nossa literatura é bem maior. Apenas começamos a descobrir gêneros de entretenimento como policial, suspense, thriller, literatura feminina, culinária, fantasia etc. Não se trata de uma acusação a ninguém. Assim como as mazelas do discurso de abertura, quem atua no mercado editorial é também contribuinte, de alguma forma, do que acontece com a educação, com a leitura, com a divulgação do que é lançado, com os rumos de nossa literatura. Muitos dos que tiveram passado sofrido, que precisaram superar grandes dificuldades para ter acesso à educação e cultura, ao atingir um posto que poderiam promover mudanças, acha que é a hora de usufruir do posto. Nós, adultos, temos imensa vergonha de uma Literatura de Acesso, e de uma literatura de entretenimento. É como se, ao passar para outro nível de literatura, decidíssemos desprezar e criticar o popular, pois assim nos distanciamos publicamente dele. Esse é um comportamento humano que se repete continuamente, seja na sexualidade ou na esfera social. Quem critica ferozmente, esconde, pratica bullying, quer passar uma mensagem de distanciamento.
Outra coisa que vale a pena observar: se pegássemos a lista dos 70 autores que representaram o Brasil em Frankfurt quanto da população que consome livros no Brasil estaria representada? Não consigo pensar em mais de 25%, isso porque tinha Ziraldo lá.
Ano novo, vamos olhar adiante. Vamos acertar e errar muito, mas em erros novos. Temos pela frente nosso país como convidado de várias outras feiras: dentre elas Bologna e Londres. Há tempo para rever a nossa participação internacional de modo a promover a literatura brasileira e não apenas os autores que irão nos representar. E também surpreender o mundo com características de nossa literatura que, decididamente, não é tristeza nem melancolia.
Se quiser comentar, escreva logo abaixo.

Publicado no publishnews em 02/12/2013

 

Na sexta feira, o PublishNews repercutiu uma matéria de uma jornalista americana sobre os livros de autoajuda, com a proposta de entender o interesse das pessoas sobre o assunto, desde os primeiros livros de conselhos do Egito Antigo até os dias de hoje. Depois de ler o artigo, fiquei decepcionado. O texto manteve todos os clichês comuns que estou cansado de ler e ver repetidos a todo momento. Basta ver uma de suas quase conclusões:  “Estatísticas do mercado editorial sugerem que 80% dos que compram livros de autoajuda já compraram títulos do gênero antes, o que poderia indicar que eles não ajudam.”
 
Esta é para mim ou uma conclusão superficial e/ou orientada academicamente, pois o fato de consumirmos mais de alguma coisa quer dizer que gostamos dela, caso contrário, a repudiaríamos.
 

Um resumo abaixo da coluna:

Uma pequena história do Autoajuda, o gênero que mais vende no mundo

Publishing Perspectives – 29/11/2013 – Por Jessica Lamb-Shapiro

Os livros de autoajuda existem há milhares de anos, e são amados e odiados desde sempre. O antepassado mais antigo desse gênero foi um livro do Egito Antigo chamado “Sebayt”, uma literatura instrucional sobre a vida (“Sebayt” significa “ensinamento”). Uma carta com conselhos de um pai para seu filho, As Máximas de Ptahotep, escrito em 2800 B.C., advogava comportamento moral e autocontrole. Textos gregos antigos ofereciam meditações, aforismos e máximas sobre as melhores maneiras de se viver. […] Apesar de sua ubiquidade, é difícil dizer se livros de autoajuda de fato ajudam alguém. Há muita pouca pesquisa sobre o assunto. Estatísticas do mercado editorial sugerem que 80% dos que compram livros de autoajuda já compraram títulos do gênero antes, o que poderia indicar que eles não ajudam. Alguns sugerem que apenas o fato de se abrir um livro de autoajuda faz a pessoa se sentir melhor.”

O que é uma obra de auto ajuda?

Particularmente, classifico como autoajuda qualquer livro que o seu leitor reconheça, ao final da leitura, um ganho pessoal. Pode ser um conhecimento ou informação que considere útil e estratégico para sua vida, para entender mais sobre si mesmo, ampliar o senso crítico, lidar com os outros e com Deus, ampliar suas habilidades e competências, concorrer a uma vaga de emprego, participar de um processo seletivo e, por fim, buscar prazer, alegria, diversão, entretenimento.

 
Muitos livros que assumem a chancela de autoajuda são o que passei a chamar de Literatura de Acesso, pois dão ao iniciante naquele tema algo mais palatável para que ele possa se interessar e ao mesmo tempo compreender o assunto, passo essencial para criar um interesse verdadeiro em continuar sua pesquisa.
 
Acredito que o termo autoajuda englobe todos os livros, porque Cultura ajuda, não importa o tipo de conteúdo. No entanto, vivemos repetindo o mantra de que livros de autoajuda são aqueles escritos por pessoas que são “fraudes”, porque não fazem o que escrevem, não são capazes de usar seus próprios conhecimentos. Esquecemos que existem picaretas em todas as profissões do mundo, sejam em livros de uso prático ou intelectual. Cópias baratas de qualquer livro, assunto e autor existem em todos os gêneros, e simples repetidores do conhecimento dos outros existem tanto no ambiente acadêmico quanto nas mais diversas áreas profissionais. Difícil mesmo é enxergar alguma originalidade.
 
Sugestões, comentários, escreva logo abaixo

Uma carta de amor, anônima, é encontrada pela dona de uma livraria… e, ao terminar de ler, ela fica hipnotizada, como se aquela carta tivesse revolvido sentimentos que há muito estavam adormecidos…

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“Meu amor,

Você sabe o quanto sou apaixonado por você? Estou sonhando? Será que posso acordar? Perder o equilíbrio, pisar em falso … despedaçar meu coração?

Eu sei que estou apaixonado a cada vez que te vejo. E também quanto estou distante. Nenhum músculo se move. As folhas das árvores caem por qualquer brisa. O ar apenas existe. Eu fiq

uei totalmente apaixonado sem ter dado nenhum passo…

Você representa tudo o que seria errado, algo que eu deveria tentar esquecer, mas eu não ligo para esses pensamentos… pois só consigo pensar em estar contigo.

Quando estou perto de ti, sinto o roçar dos seus cabelos acariciando o meu rosto mesmo quando isso não acontece. Algumas vezes olho para você à distância, então corro para estar perto

 novamente. E quando eu calço os sapatos, descasco uma laranja, dirijo meu carro, ou a deitar a cada noite … eu sempre permaneço, seu”

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Em uma cidade na Nova Inglaterra, Helen (Kate Capshaw), a dona de uma livraria, encontra uma carta de amor anônima entre as almofadas do sofá. Helen acredita que a carta é destinada a ela e tenta descobrir seu autor, pensando em vários homens da cidade. Então inicia um affair com Johnny (Tom Everett Scott), um jovem empregado da livraria, mas acontece que Johnny leu a carta por acaso e pensa que foi Helen quem a escreveu para ele. Então essa carta passa de mãos em mãos e outras pessoas da cidade lêem, cada um achando que aquela carta foi escrita para si.

O filme, “the love letter”( a carta anônima, 1999), baseado no livro de Catlheen Schine, 1995 é o raro filme que agrada mais as pessoas que o livro. Tratado como uma comédia romântica, e contando com um casting especial ( Ellen De Generes; Tom Selleck), aquela bela carta de amor movimentou os solteiros, os que haviam desistido do amor e os que estavam em relacionamentos mornos da cidade. A carta sem destinatário, reacendeu a libido, as fantasias e deu coragem a homens e mulheres para seguir seus sentimentos.

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É com este filme que quero tratar o tema de hoje, cuja mensagem fala da maior força que um texto deve possuir: de fazer seu leitor sentir como se o texto fosse escrito para ele, cada um, individualmente.

Agora imagine a cena:

Uma mulher se muda para uma pequena cidade. Abre uma livraria, trazendo muitos dos seus livros preferidos, mas ninguém quer aqueles livros. Passam a destratá-la publicamente, e alguns moralistas promovem um boicote.  Então ela decide criar edições especiais de seus livros. Tão especiais que eram feitos quase que individualmente para cada pessoa. A mágica então acontece. Todos começam a comprá-los compulsivamente … cada um por seu próprio motivo.

Agora troque livro e livraria por chocolate, e temos aí o segundo filme que queria mostrar. Nele, a personagem vivida por Juliette Binoche, sendo culinarista atua como uma editora.  Ela chega na cidade e percebe que será difícil conseguir que a deixem seguir com sua vida e sua loja de doces.  Então começa a oferecer chocolates para cada um, descobrindo seus gostos, interesses, desejos. E como é bo

Imagema em reconhecer o que os outros querem, acerta. E a notícia corre, como num ato de mágica…

Esse é outro filme que vale a pena ser visto ou assistido novamente com esse olhar, de que a confeiteira está ali numa posição de editora, que é a de qualquer empresário que desenvolve, escolhe o produto que vai produzir, vender, pensando no universo de questões de seu possível público consumidor.  Então chegamos no tema da coluna.

O “dom” de escrever para os leitores

Uma coisa que tento visualizar nos livros que analiso é separar entre aqueles escritos para si, para os pares/críticos ou para os leitores.  O primeiro tem pouco público, geralmente a família; o segundo, um nicho; o terceiro, tem um número imenso de possíveis leitores. A diferença é sutil, muitas vezes difícil de ser identificada ou distinguida por um conjunto de características, mas depois de algum treino é possível entender aspectos comuns entre um tipo de texto dos outros.

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Creio que a origem desse problema – a direção do foco da leitura – , reside em nossa  formação cultural. Na infância, somos treinados desde pequenos a escrever para nosso avaliador, o professor/os pais. Quem não se lembra de ter escrito ou ouvido a declamação de redações premiadas, ainda que escritas na “voz” de criança falasse sobre conceitos de responsabilidade, paz mundial, fome na África, guerras, sustentabilidade, etc.  Temas que não faziam parte do universo cotidiano infantil, mas agradavam os professores e aos pais, pois falavam de temas de interesse que eles queriam que as crianças estivessem a par. Eu vivi um número enorme dessas redações, e nem me lembro se naquela fase achei que valia a pena escrever sobre temas de interesse mais pessoal, mas havia uma certeza: não era um caminho apreciado pelos adultos.  Uns 20 anos depois reencontrei algumas dessas redações. Eu as relia e sentia uma vergonha imensa, tanto que fui perdendo uma a uma com o passar dos anos. Eram coisas que não valiam guardar.

Textos campeões de cartas

Mas desde que comecei a trabalhar em editoras passei a prestar atenção naqueles autores que se tornavam os campeões de cartas. Venho colecionando esses cases há vários anos porque algumas coisas são de chamar a atenção, especialmente o fato de que aconteciam tanto em literatura quanto em não ficção, em autoajuda ou livros técnicos, sem distinção.  Ficava intrig

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ado sobre qual era o ponto.  O que fazia o leitor gostar tanto daquele texto, a ponto de tocá-lo tão pessoalmente, provocando uma escrita, uma carta de agradecimento à editora, o envio de um relato pessoal, um comentário feliz?

E outro aspecto ainda mais interessante para mim foi ver que alguns daqueles livros nem mesmo eram escritos exclusivamente pelo próprio autor.  Alguns tinham um redator profissional balizando a escrita, quase um ghost writer.

Ainda vi nesses campeões de feedbacks textos de escrita bastante simples, quase plana. Então percebi que a questão era ainda mais complexa, pois alguns dependiam da forma, outros do conteúdo, mas em geral, uma combinação incertamente equilibrada entre um aspecto e outro. Passei a chamar privadamente esses aspectos de alma.  Eram textos que possuíam uma, certamente.

Então parti para outra proposta da discussão, ainda mais complexa: o que produzia aquela qualidade tão rara e tão buscada nos textos?  Seria um dom? Um aprendizado especial? O formato do pensamento, do mundo interior, traduzido em palavras?  Um misto de tudo?

Eu não me sinto seguro em dizer, só sei quando enxergo. Nem todo livro em que vi esse “dom” se tornou sucesso, alguns foram sim, bem gigantescos, mas os que passaram despercebidos nas livrarias, porque para fazer grande sucesso não basta ser ótimo, pelo menos se tornaram long sellers. Suas vendas foram seguindo num boca a boca…  e isso levou a obra para algumas edições.

Quando penso em cada um deles e vejo a parte em comum só consigo enxergar uma falta de padrões, então não adianta por exemplo uma entrega total à produção do texto sem a entrega da alma.  E entregar a alma não requer técnica, uma análise metódica da própria escrita, mas do sentido que se quer com ela.  Do desejo e, sobretudo, da capacidade de oferecer ao outro uma experiência tão própria e vívida com foi consigo mesmo. É um processo como terapia. Não basta querer mudar a partir da compreensão do que se quer fazer, chegar. Tem de estar preparado! Tornar um texto pertencente ao outro é se colocar numa posição universal, sair do próprio lugar, tentar se afastar da posição central e oferecer tudo aquilo que gostaria que tivessem lhe oferecido, sem concessões. O que faz com que um livro assim não possa ser escrito numa tarde, num prazo curto, pois aí não se consegue essa reverberação toda, a compreensão global de todos  os elementos. A distância e maturação do pensamento se tornam necessárias. A posição de advogado do diabo, tentando extrair as vaidades, a autopromoção, a arrogância, coisas que não podem estar presentes de forma subliminar num texto que deve pertencer ao outro. E isso não significa que ele tenha de estar asséptico… não. Pode ser opinativo, forte, vigoroso sem ser autoritário.

Em minha experiência descobri que uma ideia ótima, realizada com muita simplicidade (textualmente) pode ser “consertada”, mas o oposto,  uma ideia elaborada com o mais perfeita combinação de recursos estilísticos, se for fraca, torna-se tediosa e impossível de recuperação.

Tendo mesmo acreditar que a escrita é um dom. Há formas de se burilar um dom, mas não de criá-lo. Cursos de leitura e escrita podem ajudar a melhorar a qualidade de quem sabe pintar bem as palavras, mas nunca de transformar radicalmente a qualidade dos textos de seus frequentadores. A sólida formação cultural oferece bagagem, conteúdo, informação, que pode ser utilizada de forma acumulativa num texto sem qualquer brilho e alguém com uma formação incrivelmente simples pode conseguir criar textos e histórias capazes de fixar nossa atenção, ainda que possam conter erros gramaticais e sua construção não possuir qualquer sofisticação. O aspecto democrático disso, prefiro ver assim, é que não há qualquer distinção de classe ou grau de instrução. Todo mundo já assistiu iletrados que são exímios contadores de histórias, não seria diferente na literatura. Felizmente há espaço para todos os tipos de escritores e o que cada um precisa é encontrar a sua voz, o gênero onde seu “dom” possa se manifestar.  Esse me parece o grande segredo.  Quando mais cedo uma pessoa encontra a sua voz literária, o seu tipo de escrita, seu tema, seu público, mais cedo ele vai sendo burilado.  São assim com os contadores de histórias, de piadas, os romancistas, os grandes repórteres, os memorialistas, blogueiros, cronistas…

Descobrindo seu próprio “gênero”, com esforço, cada um pode figurar entre os ótimos, os bons e os editores; estes últimos, diabos que privados do “dom”, tentam infernizar a vida dos seus autores, e muitas vezes, acabam ajudando-os.

Até a próxima coluna. Se quiserem fazer comentários, comente logo abaixo.


Intocáveis 1Um novo mercado, um novo olhar.
Com as inúmeras mudanças ocorridas no mercado editorial, especialmente no que se refere a gêneros e linhas editoriais que se tornaram mais relevantes, podemos observar x indicativos de que ainda há espaço para o mercado crescer antes que a leitura se torne artigo raro, ou muito fragmentado. Há muitos públicos ainda não atendidos pelos eventos literários, pelas premiações, pelos investimentos de toda a sorte que se oferece para o universo do livro no Brasil. E para comentar este tema, o preconceito, que embora todo mundo reconheça a existência, as iniciativas para combatê-lo ainda são bastante raras, trago um filme francês de 2012.
Intocáveis
Esse filme foi, para mim, uma grata surpresa. Pelo título não podia imaginar nada parecido. Em 1987, um filme com o mesmo nome, estrelado por Kevin Costner no auge da carreira, trazia a história do agente-lenda Eliott Ness, que formou um quarteto para combater o reinado de terror promovida na Chicago dos anos 30 pelo mafioso Al Capone( Robert de Niro). Esse filme, que teve Sean Connery e Andy Garcia como dois dos agentes, dirigido por Brian de Palma e trilha de Enio Moriconi se tornou um clássico do cinema e havia deixado na memória aquele título para todos os filmes que se seguiriam depois. De modo que quando ouvi o nome, Intocáveis, só pensava num outro filme de ação. Nunca poderia imaginar uma história de dois personagens situados entre duas pontas opostas: um milionário francês, tetraplégico e um ex-detento, de origem africana, oriundo dos subúrbios de Paris. Agora sim o título parecia fazer sentido… Intocáveis.
O milionário estava entrevistando um novo cuidador, aquele que teria de acompanhá-lo dia e noite, dar banho e auxiliá-lo em todas as necessidades. O ex-detento estava seguindo o protocolo de entrevistas de emprego, apenas para garantir a presença num número de tentativas, mas fazendo todo o esforço para não ser selecionado, de modo que continuasse a receber o auxílio-desemprego sem ter de trabalhar.
No entanto, diante de um cenário tão adverso e uma entrevista non sense, o milionário decide contratá-lo, para surpresa de sua assistente, da família e até mesmo do ex-detento. E o motivo do milionário, que é também a mensagem do filme é revelado quando o amigo e advogado da família, preocupado com sua segurança, pergunta o porquê de sua escolha:  E a resposta vem numa frase direta: “Porque ele não tem compaixão”. O ex-detento era o único que não confundia a incapacidade física daquele homem com incapacidade mental e emocional. Ele o tratava sem subestimá-lo e há muitas cenas que mostram como ele lida com o milionário esquecendo-se que ele não conseguia nem mesmo segurar um telefone; e o filme mostra como essa falta de compaixão permitiu que o homem se sentisse vivo, ainda que só tivesse vida do pescoço para cima.
O filme é baseado numa história real, de uma relação patrão-empregado que virou uma amizade dessas que transformam radicalmente a vida de ambos, e perdura até os dias de hoje. E também me trouxe uma reflexão sobre como nossas opiniões podem estar completamente erradas mesmo baseada em fatos e valores bem concretos.
Passados alguns dias desde que o assisti pela primeira vez algumas cenas e mensagens continuavam fortes. Uma delas me fazia lembrar de uma passagem no Novo Testamento de que gosto muito, Corinthios, I vs 27 a 29: Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele.

Esta é uma passagem que fala sobre humildade – se olharmos sob um prisma Bíblico-, mas também podemos entendê-la como um alerta sobre nossa visão sempre microscópica do todo, seja do mundo, dos fatos, da verdade. Vivemos sob tantas certezas, sob paradigmas tão corretos, sob o aval de uma ciência, uma ideologia, um grupo majoritário que tenta comprovar o que é certo e errado ainda que já tenhamos presenciado inúmeras revisões desses valores em todos os nossos anos de história registrada. No entanto, mantemos o mesmo ímpeto afirmativo sobre certo e errado, sobre o que é bom ou mal, ignorando que mais erramos que acertamos, sabendo com alguma reflexão que a verdade hoje não é a de amanhã.
O que isso tem a ver com o livro?
Como veículo de comunicação, o livro perde para os jornais diários pelo timming, porque não foi pensado para ser de consumo rápido, mas ganha em respeitabilidade, pois traz algo muito mais elaborado e em profundidade. Penso que as opiniões sobre o mercado, muitas tratadas como regras ou verdades são frutos de opiniões obsoletas, sensações, frutos do senso comum. Já escrevi aqui algumas vezes sobre nossa tradição de tratar a literatura como algo sagrado, complexo, o que a tornou elitista e distante, e que fez estabelecermos valores tão arraigados sobre o que é bom e ruim, o que deve ou não ser publicado, e muitos outros equívocos continuam se perpetuando. Fiz então uma pequena coleção do que considero equívocos, alguns que consigo enxergar de senso comum e são perpetuados continuamente:
·         Livros que são mais vendidos muitas vezes não são um sucesso. Algumas vezes não pagam o investimento. Pelo menos 1/3 das vezes são um fracasso, seja porque algumas vezes editoras investem o dobro do que ele pode render  ou vendem parte considerável da edição por um preço inferior ao custo.
·         Uma série de autores/artistas hoje tratados como cult, no passado, ou mesmo em sua época eram tratados como beberrões, filósofos de esquina ou equivalentes. De modo que ou a inteligência de sua época estava toda errada, ou os valores mudaram ou nosso gosto piorou bastante. E há o contrário, outros que incensados pelo público e crítica em sua época, por conta de algum aspecto, entraram para o limbo, como Oscar Wilde( que foi banido por quase um século dos grandes circuitos), artistas como Clara Nunes que chegou a ser considerada a melhor cantora de sua época mas depois sofreu preconceito pela ligação com a Umbanda, ou Wilson Simonal, acusado de colaborar com os militares. Ou seja, tiveram a obra criticada por fatores externos, nada que afetasse a qualidade de sua arte. Donde podemos concluir que a literatura que você aprova hoje, se não for por afinidade muito pessoal, talvez você sinta vergonha dela da mesma forma que ri dos penteados e moda dos anos 80. Comentário:  não seja tão crítico com o gosto dos outros.
·         A iminente chegada dos ebooks pareceu uma chance de ouro para todos os autores que não eram publicados, distribuídos, lidos e uma oportunidade para pequenos empresários de abrir sua livraria. Hoje o mercado internacional já dá mostras de que se o mercado de ebooks  decolar, ele será dominado pelas grandes empresas, com as mesmas regras, “monopólios” e forças atuantes no mercado de livros impressos.
·         “Valor cultural dos livros”. Ainda é uma expressão que circula livremente. Cresci ouvindo que ler sempre é bom. Com o tempo elegi meus autores sempre pautado por dois aspectos: conhecendo autores/obras e escolhendo aqueles que me diziam algo. Quando a oferta do número de livros e autores aumentaram no mercado começou-se um discurso sobre o que era bom ou ruim. Foi o momento em que surgiu Paulo Coelho e outros em seguida. Penso que falta ainda respeito pelo gosto dos outros, é como se vivêssemos numa ditadura literária. Há pessoas para as quais livros não tem valor e elas tem o direito de achar isso.  Para muitas,  nosso autor preferido não significa muito e preferem outro. Livro é como musica, roupa, sapato, comida. Tem gente que gosta de massa, outros de carne, outros de salada. Cada um tem uma dialética para defender seu gosto e contar suas vantagens. Para uns é instrução, para outros, prazer, autoconhecimento, evolução pessoal.  Mas o que vejo é que quem se levanta nessa crítica de valor parece um coro, pertence ao mesmo clube, frequenta os mesmos lugares( ou gostaria de frequentar). Então a crítica acaba sempre se referindo a um tipo de leitor, como se fosse uma defesa dos valores de um grupo. Um erro. Estamos tratando livros como se fosse uma torcida por time de futebol, fingindo ser mais civilizados que as torcidas, quando na verdade somos irônicos, sarcásticos, mais perversos que torcedores, e por isso podemos provocar danos mais profundos, porque são elaborados. Me pergunto sempre: Porque tanto preconceito? Porque quando falamos dos livros e autores de quem gostamos queremos mais impressionar o outro e quando falamos das comidas que preferimos somos mais verdadeiros?
·         O poder de um país está na comunicação. Divulgar internacionalmente uma língua é tarefa dos governos, não das editoras. O idioma é o meio de um país se comunicar com o mundo, é o que permite fazer negócios, desde vender aviões e navios a atrair turistas, exportar arte. A principal forma de divulgar um idioma é por meio dos livros, dos seus autores, de sua produção cultural escrita. O Brasil não tem um programa eficiente de promoção de nosso idioma e está muitos anos atrás dentre os Bric; da Índia, da China, talvez apenas à frente da xenófoba Russia, mas por motivos óbvios. Esta não quer promover sua cultura, mas sua ditadura.  No mercado editorial internacional o português tem o nível de familiaridade de uma língua morta. A Alemanha há décadas financia traduções, e não apenas de alta literatura, mas livros infantis e juvenis best sellers lá, porque deve ter entendido que a expansão da língua deve ser feita para todos os públicos e não apenas os mais literários. A Turquia, por exemplo, tem programas 10 vezes mais eficientes de divulgação de sua literatura que o Brasil, patrocinado por seu governo, algo fácil de ver em todas as feiras internacionais, nos eventos em que convidam editores estrangeiros de várias partes do mundo, algo que certamente dá muito orgulho àquele país, talvez tanto quanto nós quando investimos em estádios de futebol com dinheiro público.
·        Porque quando se pensa em exportar nossa produção editorial só pensamos em autores de alta literatura? Isso está evidente nos gêneros incluídos nas premiações editoriais, por exemplo, mas é o mesmo conceito que permeia os eventos literários de norte a sul do país. Se há uma crise no mercado editorial, como todos os índices indicam, com a queda na venda de livros, aproximar outros públicos dos eventos literários e das livrarias pode ser um meio de reverter esse quadro.

E para esta lista não ficar extensa demais, o que proponho é o conceito.  Porque, por exemplo, um programa de apoio a traduções no Brasil contempla apenas autores consagrados pela crítica? Porque esse conceito, que representa apenas um grupo de leitores, sobre o que é bom ou ruim continua guiando desde premiações, estilos, escolas literárias, oficinas, palestras em bienais.  Porque não termos uma visão mais democrática e pensarmos mais nos leitores, no público, no incentivo para que o bolo (número de leitores) cresça e não continue pautado pelas mesmas visões de sempre.
Com tantos paradigmas quebrados recentemente, que mudaram desde os gêneros de livros mais lidos por aqui, aumento do numero de leitores, produção nacional de ficção comercial, novos temas que se tornaram mais urgentes, o que podemos ver é que a verdade hoje, o valor de hoje, pode não ser, e provavelmente não será, o de amanhã.
Vamos voltar ao filme, para quem viu ou vai assistir, reflita nisso: Foi a opinião dissonante que permitiu surgir uma vida nova para cada uma daquelas duas pessoas. No filme, esse olhar diferente sobre como cada situação seria conduzida esteve nas mãos das pessoas que geralmente não são ouvidas: em outra situação, o cadeirante seria o oprimido, o alijado, mas não nesta história e a opção de não contratar aqueles que pareciam tecnicamente mais bem preparados foi dele, que seria o usuário dos serviços; e quem ditou as ordens, o modus operandi de como aquela relação patrão-empregado se desenrolaria? Neste caso, foi o empregado.  Talvez mudar, ouvir quem não é ouvido, abrir-se um pouco para novas questões não seja uma má ideia. Fazer isso não é fácil. Críticas de que podemos popularizar demais as coisas, destruir a cultura, baixar o nível cultural dos eventos e premiações vão surgir. Para justificar não mudar a forma como fazemos as mesmas coisas há dezenas de razões, mas mesmo se houvesse algum risco real, alijar qualquer público do mercado editorial, não faz nenhum sentido.
Até a próxima coluna. Se quiserem fazer comentários basta escrever logo abaixo.

Translations

Cauvy Marie-christine ·  Top Commenter · Montpellier

Francais –
Publishnews : Ne soyez pas tant critique du gout des autres.

Dans Publishnews, le portail de reference du marche editoriel bresilien, un excellent article sur le marche editoriel, ecrit par Pedro Almeida, journaliste et professeur de Litterature.

La semaine derniere, la ‘Folha de Sao Paulo’ a publie un grand article sur le changement du marche editoriel.
Apparemment , les voix sensees commencent a etre regle et n’ont pas exception (excecao?).
Qui gagnent sont les auteurs et les lecteurs.

A suivre, extraits de l’article ‘Um novo mercado, um novo olhar’ (Un nouveau marche, un nouveau regard.)

Je pense que les opinions sur le marche, la plupart, traitees comme etant regles ou verites sont les fruits d’opinions obsoletes, sensations, fruits du sens commun. Deja j’ai ecrit ici de nombreuses fois sur notre maniere de traiter la Litterature comme quelque chose de sacre, complexe, ou qui est devenu elitiste et distant et qui nous fait etablir des valeurs tant profondement ancre sur ce qui est bon et mal ou qui doit etre publie.

Une serie d’auteurs/artistes aujourd’hui, traites comme culte , passe ou meme dans leur epoque sont traites comme des sources de sante, philosophes du coin ou equivalent. Si bien que ou l’intelligence de son epoque etait comme fausse , ou les valeurs ont change ou nos gouts ont empire.

‘Valeur culturelle des livres” – Encore une expression qui circule librement. J’ai grandi en entendant que lire est toujours bon. Avec le temps, j’ai choisi mes auteurs preferes, toujours guide par deux aspects : connaitre les auteurs / oeuvres et en choisissant ceux qui me parlaient. Quand l’offre du nombre de livres et des auteurs augmentent sur le marche , comecou-se un discours sur ce qui est bon ou mal.
Je pensais qu’il manquait encore le respect pour le gout des autres, et comme si nous vivions dans une dictature litteraire : Le livre est comme la musique, les vetements, les souliers, la nourriture. Chacun a une dialectique pour defendre son gout et raconter ses avantages. Pour certain, c’est une instruction, pour d’autre du plaisir, du developpement personnel, evolution personnelle.

Cette critique de valeur ressemble a un choeur de personnes qui appartiennent au meme club, font les memes choses et frequentent les memes lieux (ou qui aimeraient les frequenter). Alors la critiue finit toujours en se referrant a un type de lecteur comme si c’etait une defense des valeurs d’un groupe. Une erreur. Nous traitons les livres comme si nous etions les supporters d’une equipe de football, pretendant etre plus civilises que les supporters, quand, en verite, nous sommes ironiques, sarcastiques, plus pervers que les supporters. et pour cela nous pouvons causer des dommages plus profonds, parce qu’ils sont elabores.

Pourquoi, par exemple, un programme de soutien des traductions au Bresil , contemple a peine les auteurs consacres pour la critique? Pourquoi cette critique, qui represente seulement un groupe de lecteurs , continue , guidant depuis le debut, les styles et ecoles litteraires aux ateliers et discours a biennales. (bienais). Nous devons chercher une vision plus democratique , penser plus aux lecteurs, le public, l’incentif , pour que le gateau (nombre de lecteurs) croissent et ne continuent pas a porter les memes visions de toujours.

La Litterature que vous approuvez aujourdh’ui, n’est pas for affinite tres personnelle. peut etre la honte dans l’avenir. De la meme facon qu’aujourd’hui nous rions des coiffures et modes des annees 80. Commentaire : Ne soyez pas tant critique du gout des autres.

English –

Publishnews : Don’t be so critical about other people’s tastes.

In Publishnews, the portail of reference on Brazilian editorial marketing, an excellent material on editorial marketing , written by Pedro Almeida, journalist and professor of Litterature.

Last week ‘ Folha de Sao Paulo’ has published an article on the changes of editorial marketing.
Apparently, the talk sense voices are starting to be the rule and not the exception. Who wins are the authors and the readers.

To be continued , excerpts from the article ‘Um novo mercado, um novo olhar’ (A new market, a new look.)
I think that the opinions on the market , that have been treated as rules or truths are the fruit of obsolete opinions, common sense fruit. Already I have mentioned numerous times on our way of handling Litterature as something sacred, complex or that has become elitist and distant and that forces us to establish values deeply rooted about what is good or bad or what must be published or not.

A numbers of authors/artists to day worshipped as cult, past, or even in their time, are treated like health sources, corner philosophers, or their equivalent. So much so that where the intelligence of its time was totally wrong or the values have changed or our tastes are worsening.

‘Cultural value of books’.
Once again, it is an expression that is going around freely. I grew up hearing that reading is always good. WIth the time, I chose the authors I like best, always guided by two aspects : knowing the authors/works and choosing the one that spoke to my heart. When the market’s offer of books and authors raise comecou-se (I started ) to address what is good or bad. I thought that what was missing was respect for the taste of others and like if we were living in a Litterary ‘s dictature. The book is like music, clothes, shoes, eating. Each one has a dialectic to defend its taste and tell about its advantages. For some it is an instruction, for others some pleasure, some personal development, or personal evolution.

This critic about value is comparable to a people’s choir that belong to the same club, do the same things and frequent the same places. (or would like to frequent them). Then the critic always ends up by referring to a type of reader , as if it was a value defence of the group. A mistake. We treat books like if we were supporters of a football team, pretending to be more civilised than the supporters, when in fact, we are ironic, sarcastic, more pervert than the supporters. This can caused profound injuries , because they are elaborated.

Why, for example, a translation ‘support program in Brazil, hardly contemplates the established authors for the critics. Why this critics that represents only a group of readers continue guiding from the beginning, styles and Litterary schools in workshops and speeches in biennales. We must look for a more democratic vision , thinking more about the readers, the public, the incentive , so that the cake (the number of readers) grow and do not continue with carrying the same visions of always.

The Litterature you approve of to day is not affinity very personal, maybe it will be put to shame in the future, the same way as to day we are laughing at the hairdos and fashions from the 80s. Commentary: Don’t be so critical about others’ taste.


 

Em 1976, um acontecimento influenciou uma das artes mais valorizadas do mundo, deslocando o eixo histórico e geográfico da tradição associada a um produto cujo início da produção remonta a cerca de 2 mil anos antes do aparecimento do primeiro livro: o vinho.
O dito evento ocorreu há 36 anos e afetou profundamente paradigmas que haviam se estabelecido ao longo de 9 mil anos. Se diante de tantas informações de que dispomos ainda agimos de forma equivocada, esse é um tema que merece constante reflexão. Sempre há um interesse pessoal, humano, por trás de toda a informação que é veiculada e, quando a verdade põe em risco o status de algo bem consolidado, mais difícil se torna a barreira a ser vencida.
Para abordar o tema, decidi utilizar um filme que discorre exatamente sobre uma quebra de paradigma. Em O julgamento de Paris, um sommelier francês fica sabendo que estão produzindo vinho de boa qualidade na Califórnia. Ele viaja até lá e volta para a França com dezenas de garrafas. Então, em Paris, em maio de 1976, ele realiza um teste cego com a participação de críticos e enólogos muito respeitados na França, para degustar renomados vinhos franceses e alguns vinhos californianos. O resultado assombrou a comunidade internacional, fazendo cair uma tradição cristalizada há décadas, senão séculos: o primeiro lugar foi para um vinho californiano. O vinho francês não era mais o melhor vinho do mundo.
Estrelado por Alan Rickman no papel do sommelier e Bill Pulman no do fazendeiro californiano, o filme tem um roteiro bem engendrado, que retrata em detalhes as dificuldades de uma região vinícola que tentava se firmar há anos sem sucesso. Uma árdua busca por reconhecimento, enfrentando as críticas pelo simples fato dos vinhos não pertencerem a uma escola tradicional ou não serem levados em conta pela elite europeia.
Este foi um momento divisor de águas na descentralização da produção internacional de vinhos – um dogma de valor e superioridade que não fazia mais sentido. Quebrou barreiras, viabilizou a produção em outras regiões do mundo e demonstrou que aquilo que era tratado como rara preciosidade, o vinho francês, não era artigo único. Além disso, revelou que povos sem tradição em vinícolas eram capazes de produzir vinhos melhores e que os consagrados vinhos franceses não iriam mais gozar de um privilégio imerecido. No fundo, a questão da superioridade do vinho francês era como um burgo estúpido, que defendia dinastias e tentava se manter no poder tratando todos os outros como cópias baratas.
Recomendo o filme (ao final coloco um link para quem tiver curiosidade de ver detalhes do julgamento). Divertido e interessante, é uma excelente introdução à história do vinho, e possui elementos que podem nos fazer refletir sobre o momento atual da literatura.
Nas últimas semanas li duas matérias que abordaram a questão da literatura trazendo cada uma dados incontestes, quais sejam:
1) Gêneros literários mais refinados, como a poesia, promovem a atividade cerebral (como se o ato de ler não tivesse nenhuma relação com o prazer do leitor, que escolhe um gênero, e não outro), e
2) Um escritor latino-americano, vencedor do prêmio Nobel, descendo a ripa na literatura de entretenimento, chamando de bárbaro o mundo no qual ela emerge.
Lembro de um filme, “A história de nós dois”, com Michelle Pfeiffer e Bruce Willis, casal maduro na casa dos 40 anos que vive uma crise matrimonial, até que um deles consegue se colocar na posição do outro e ver o problema sob novo ponto de vista.
A imagem dessa revelação é um assombro. O tema pode parecer comezinho, mas o filme apresenta essa história com muita beleza. Raramente conseguimos fazer isso em nossas vidas… Todo mundo tem um olhar crítico sobre o outro e seus gostos, e isso não é diferente na literatura.
Quando Vargas Llosa critica a literatura sem refinamento e afirma que graças à alta literatura nos tornamos mais civilizados, menos animalescos, acredito que ele esteja se limitando a um único ponto de vista. E me pergunto: será que seu incômodo não reside no fato de que o tipo de literatura que faz começa a perder espaço nas gôndolas? Será que este pensamento, que não é apenas dele, não se atenta para o fato de que há muito mais gente com acesso à literatura hoje que 20 anos atrás? Qual é o efeito social de uma maior presença da literatura comercial? Eu penso primeiramente em democratização da leitura, acesso à cultura por uma grande parte da população que sempre esteve apartada deste processo.
Voltemos ao passado. Cem anos atrás, havia duas minorias que estavam alijadas do processo eleitoral: mulheres e negros. Hoje, basta um candidato atender aos anseios de apenas um desses grupos de eleitores para ganhar uma eleição. Podemos dizer que estamos representados de forma pior? Que o nível dos políticos caiu? Que esta escolha mais popular denegriu a classe política e tornou o processo eletivo ruim? Ruim para quem?
Para muitas pessoas, a inclusão nos projetos de quem deseja se eleger foi excelente. Se comparássemos a popularização da literatura comercial que Vargas Llosa critica ao acesso ao voto, poderíamos pensar que ele prefere que as decisões de uma nação voltem para as mãos das elites. Duvido que ele pense assim. O que me leva a outra questão. Declarações desse tipo são feitas sem muita reflexão sobre o olhar do outro, daquele que não podia votar ou ler, e este é o mais importante neste novo momento, se nossa proposta é inclusão.
Quando grande parte da população começa a ter acesso à cultura, é matemático que a cultura se alinhe com a média da população, e é o que estamos assistindo em todo o mundo nas listas de livros mais vendidos, onde desapareceram os livros mais literários. Mas, criticar isso não me parece uma ideia humanista, pois seria desejar a volta ao nível de elitismo cultural do passado.
Meu propósito aqui foi de retomar a discussão a respeito dessa mania de valorizar aquilo que é valorizado por uma certa minoria influente e desprezar o restante das pessoas, atitude que sempre esteve presente na cena literária nacional e que foi responsável por inúmeros atrasos, tanto na produção quanto no consumo de literatura. Trata-se de uma tentativa de barrar a mudança, embora acredite que ela está fadada ao insucesso. Não funcionou para a música, nem para o vinho, e tampouco vai funcionar para a literatura. Parece-me a forma mais estúpida e desesperada de, a pretexto de valorizar a cultura, defender o espaço daqueles que estavam confortáveis com a situação.
Mais impressionante ainda é que muitos tratam desse acesso popular como se fosse o fim do mundo. Como se a cultura de massa fosse exterminar as demais culturas clássicas. Isso não vai acontecer. Tal atitude me lembra os discursos de alguns lideres cristãos, que fomentam na cabeça dos seguidores a ideia de que, se a população permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a raça humana será exterminada, ou seja, num passe de mágica, todos os seres humanos abandonariam a heterossexualidade.
Da mesma forma que a música popular não acabou com a música clássica, a literatura de entretenimento não acabou e não vai acabar com a produção de obras de alto valor literário em nenhuma parte do mundo. O que está mudando é o horizonte do grande escritor de alta literatura, que atualmente está ciente, terá de batalhar mais para ser lido, terá que disputar espaço em feiras e eventos literários com escritores de fantasy, romances comerciais e livros de autoajuda.
É claro que há também uma perda de status e uma divisão de prestígio. A ideia de que devemos proteger e conservar alguma coisa parece ser útil em relação aos recursos naturais, mas não acerca de opiniões que interferem nos hábitos culturais e escolhas de um grupo.
Quanto antes se entender isso poderemos reagir, não com críticas de gosto, mas recuperando o atraso cultural que, por muito tempo, bloqueou o acesso das pessoas a artes mais antigas e refinadas. Em vez de reclamar de uma onda, que se comece a produzir opções ou meios para dar acesso ao que é tratado como obra de melhor qualidade. Ainda que ame literatura e artes, não consegui uma prova de que a literatura (ou a melhor instrução) tivesse o poder de tornar as pessoas melhores que outras de uma forma geral. Se a literatura faz algum bem é para quem procura isto nela, e que outros podem buscar esse bem na ciência, na religião, no ateísmo, na filosofia ou numa atividade qualquer.
Link do site Jornal do vinho sobre o Julgamento de Paris: http://jornaldovinho.com.br/alguns-detalhes-do-julgamento-de-paris/
Comente.

Nesta entrevista ao publishnews tive a grata surpresa de encontrar a melhor produção que já vi para um programa sobre o mercado editorial. E Carrenho sabe conduzir como ninguém uma entrevista. Media sem tomar a frente. Fiquei tão a vontade que não sobrou mais nada para contar sobre minha experiência

editorial. 20 anos que completarei neste ano.


Uma conversa recorrente, que ouço desde que comecei a trabalhar com livros, é de que uma vez dentro do mercado editorial, você não sai mais. Uns dizem que se trata de um vírus, outros não conseguem explicar, mas tocam este destino numa linha Chicó: só sei que é assim. Talvez a noção de “trabalho” assuma um sentido superior quando se trabalha com livros. Penso que há formas de dignificar o trabalho, qualquer que o seja, mas não duvido que livros carregam um símbolo milenar em nossas vidas.
No entanto, na outra ponta deste desejo, encontro muita gente que sente dificuldade para entrar, e ouço a expressão “ah! é muito fechado”, aos montes. E semanalmente alguém me pede orientações, caminhos, então tento indicar um início compatível com as habilidadesde de quem me procura, mas sei que cada pessoa pode criar o seu caminho, e é disto que falo aqui.
Como não se trata de uma especialidade, cuja formação universitária prepare para o exercício das variadas funções, a educação formal nas áreas de humanas é mais que desejável, mas não é nem metade deste começo, diferentemente do que acontecia cerca de 15, 20, 30 anos atrás, quando entrar na área editorial era como iniciar uma carreira para autodidatas. Não havia cursos práticos, nem experiência internacional compatível. Era inicialmente um trabalho com textos, uma derivação das atividades de exímios leitores críticos, de selecionar autores e textos e dar a eles o melhor tratamento gráfico e editorial. E qual o melhor tratamento? Cada um tinha de se virar.
Foi pensando nessas questões que convidei um grupo de editores muito competentes, que iniciaram este caminho pelo menos há mais de 10 anos, para mostrar a variedade de experiências, de inícios, de estabelecimentos. Cada um poderia descrever uma carreira vertiginosa, vibrante, que ocupariam algumas dezenas de páginas, mas trouxe aqui uma pequena súmula da experiência e desenvolvimento de cada um, de modo que aqueles que pretendem entrar, ou mesmo os que já começaram e querem entender o desenvolvimento da profissão, irão ver que mesmo nas mais diversas áreas, algumas virtudes se repetem.
Pensei em muitos filmes que retratam este começo e o tanto de coisas que aprendemos pelo caminho – na verdade, as mais valiosas, que não dependem da formação na melhor faculdade, mas do que fazemos com o tempo dedicado ao aprendizado. Aprender é algo que nunca falha, independe de idade e permite que erremos quase sempre em erros novos, mas o ensinamento em si é impossível de resumir. Lembrei de filmes e livros que versam sobre Robinson Crusoe e a tese do self made man, o empreendedor – aquele que transforma o mundo ao seu redor, que explora, que cria, que faz produzir; O filme O segredo do meu sucesso, com Michael J. Fox – uma comédia romântica sobre um jovem que começa trabalhando numa empresa bem lá embaixo e cria um personagem para, em paralelo, colocar em prática planos de voos maiores mais rapidamente; Comer, rezar, amar, que não diz nada sobre o início da carreira, mas fala sobre uma jornada de recomeços; e ainda, À procura da felicidade, com Will Smith, que fala de determinação (pode soar piegas, por ser uma história de muita força de vontade, resignação e virar um libelo do modelo capitalista). Cada filme pode trazer algo para alguma pessoa. Há jovens que querem entrar, pessoas de outras áreas que pensam na área editorial como uma forma de unir trabalho e prazer, e outras que estão desencantadas com a área de sua formação ou de trabalho e querem mudar.
Aqui estão as histórias que podem servir de inspiração.
Currículo por baixo da porta
“Quando estava no último ano de Administração, usei o horário do almoço para levar meu currículo para o livro dos formandos do ano. Chegando lá, vi um anúncio sobre uma vaga de “editor-trainee”. Fiquei magnetizada com aquela ideia, imaginando como esse tipo de trabalho deveria ser incrível. O prazo já havia vencido, mas dei novo destino ao envelope e joguei-o por debaixo da porta, que estava fechada.
Cresci com livros em casa, vendo meu pai revisá-los. Desde criança, admirava o trabalho dele de reconstruir textos (ele canetava sem dó), de explicar ao autor a razão das mudanças. Aquela vaga seria um pouco de tudo isso. Juntar o curso que tinha feito em Administração com o sonho de trabalhar com educação. Uma palavra mais inspiradora que a outra.
Fui chamada para a entrevista. O processo foi rápido e fui contratada, e logo meu trabalho se tornou o assunto nas festas com meus colegas de faculdade, que tentavam entender o que eu fazia ou o novo curso da minha carreira. Logo na primeira semana, peguei um livro que já passava da décima prova de revisão. A tradução havia sido um desastre, mas a mim caberia resolver. Quando fechei aquele primeiro livro, perguntei ao meu chefe se estava na direção certa. A resposta soou algo como: Você terá de descobrir. Foi uma escola. A cara de criança, que por muitos anos me acompanhou, atrapalhava muito no trato com os professores e autores. A primeira barreira era passar seriedade e segurança, mesmo sendo tão jovem. Depois do primeiro contato, quando eles viam meu esforço, conhecimento e o resultado do trabalho, as barreiras caíam.
De assistente editorial, passei para editora, para gerente editorial e depois para diretora. Ao longo de mais de 15 anos, busquei fortalecer dois lados do meu trabalho: o técnico e o editorial. Fiz mestrado, doutorado, também passei a dar aulas, comecei o curso de Letras/Inglês, fui a muitas palestras (CBL, Unesp) e eventos. Fiz um curso na universidade de Stanford, e neste ano participei do Fellowship da Feira de Frankfurt. Penso que temos sempre de aprender novos conhecimentos, no dia a dia e enquanto tentamos ensinar aos mais jovens”.
Flávia Alves Bravin, diretora editorial de Negócios e Universitários da Saraiva
Aprendizado empírico
Para Fernando Alves, o diploma da graduação no curso de Letras chegou antes da celebração dos 21 anos. Quando li seu relato um filme passou pela minha cabeça: do tempo em que varava dezenas e dezenas de madrugadas (depois de ter trabalhado durante o dia) revisando textos para fechar artigos e revistas que passavam por diversas pessoas e fases de edição e revisão. Sem ter em mente uma ideia clara do que fazer depois da faculdade, ele ouvira de um colega revisor que o salário era razoável para meio período. “Por que não?”, se perguntou…
“Fiz alguns testes em fevereiro e março, mas nada aconteceu. A opção ‘Trabalhar no comércio junto com o meu pai’ era pouco atraente. Pesquisei então os mestrados disponíveis e viajei para Assis, para me candidatar a uma vaga na pós sob a tutela de Antonio Candido. Não cheguei, porém, a fazer a prova – a Editora Atlas me chamou e mudou o meu curso. Egresso da faculdade, eu sabia tudo de língua portuguesa e linguística… mas as funções de Jakobson (teórico e linguista russo) tiveram pouca utilidade diante de tantas órfãs e viúvas* ferozes que tive de enfrentar na sala de revisão (havia uma!). Por 18 anos permaneci lá! Aprendi tudo o que sei deste ofício naquela casa e me especializei na área técnica. Mais tarde, claro, Jakobson me ajudou bastante, inclusive a escrever artigos e livros. Cerca de 25 anos distante dos meus primórdios no mundo editorial, consigo enxergar o quão fundamental foi cada etapa e o tempo de amadurecimento para desenvolver bem todo esse aprendizado empírico”.
Fernando Alves – Editor de desenvolvimento na Editora Blucher
*Nomes para marcas de revisão.
O início da profissionalização
Jiro Takahashi é o nosso decano deste grupo aqui. Sempre estive em sua ‘cola’, entrando em empresas onde ele havia atuado antes ou compartilhando colegas de profissão. Posso resumir duas impressões que tive sobre seu trabalho: primeiro, a capacidade de criar uma linha específica para cada editora, que unia o clássico ao comercial e que sustentou empresas de grande porte por muitos anos depois de sua saída; e segundo, o brilho que deixa nas pessoas com quem trabalha. Trago abaixo um breve resumo que ele me enviou.
“Entrei no meio editorial em uma época em que editores profissionais eram raríssimos. O ano era 1966, e comecei na Ática como datilógrafo de estênceis – um trabalho que era praticamente um “bico” para aproveitar meio período livre.
Naquela época chegava a São Paulo após ter passado no concurso do Banco do Brasil. Trabalhava de manhã no banco e estudava Direito no Largo de São Francisco, à noite. Como desde criança vivi cercado de livros, logo descobri, próximo à faculdade, a Editora Ática e foi muito prático aproveitar as tardes livres para trabalhar como datilógrafo. Como a editora tinha apenas alguns meses de existência, fazíamos de tudo: revisão, emendas, divulgação, o que foi ótimo para minha formação profissional.
Três anos depois saí do banco e comecei a dar aulas na Escola Senai e em cursinhos. Resolvi fazer uma segunda faculdade, agora de Letras, e comecei a fazer pareceres de livros didáticos para a Ática. O passo seguinte, sem nunca abandonar o magistério, foi ser editor da área de línguas, na época da criação das séries Bom Livro, Vaga-lume, Autores Brasileiros, Para Gostar de Ler e de várias outras de saudosa memória. Desde então, com o surgimento da ECA-USP e outros cursos de editoração e com o desenvolvimento dos negócios editoriais, eu me vejo cercado de muitos editores profissionais com os quais posso continuar me aprimorando sempre”.
Jiro Takahashi, Mestre em Letras, Tradutor, Publisher da Editora Prumo.
A construção de uma marca
Na aventura de Marcos Marcionilo, o momento-chave da transformação de um editor é quando, de replicador de ideias, assume a posição de visionário, aquele que também cria, propõe, arrisca, erra e acerta.
“Minha experiência como editor começou no chão da gráfica da Paulus, em 1979, aos 15 anos. Quando os editores das então Edições Paulinas se deram conta de uma possível vocação minha para editar textos, me elevaram para o poleirinho dos revisores. Aí começou a aventura que dura até hoje. Fui revisor e editor de textos durante muitos anos, até que, já nas Edições Loyola, publiquei em 1999 o livro que considero meu doutorado em edição: Preconceito linguístico, de Marcos Bagno, um long-seller que alimenta um grande público de estudantes de Letras, ano após ano. Depois de ter publicado o livro que provocou toda a área de humanas naquela época, comecei a definir o público para o qual trabalharia desde então, e Pe. Gabriel Galache, meu mestre editor, me chamou e disse: “Rapaz, você está pronto. Pode publicar tudo o que quiser sem tentar me convencer de nada”. Desde então, é para esse público que trabalho: professores, pesquisadores e estudantes na área de Letras/Linguística/Filosofia, já em minha própria editora, em sociedade com Andréia Custódio. Saí de uma grande editora para criar minha aventura de produzir cultura segmentada, em um nicho de poucos recursos, mas de necessidades imensas. Foram alguns anos trabalhando sem tirar um centavo da empresa, apenas para criar um catálogo expressivo e hoje ter reconhecimento de toda a classe. Ter uma editora ‘caixa de ressonância de ideias’ é o projeto que me move. Como filosofia é minha área de formação, é ela que alimenta a teimosia de lidar com ideias que façam os leitores se moverem de um ponto para outro, mesmo que esse outro ponto seja o lugar onde eles se sintam desconfortáveis, às voltas com zilhões de graus de vermelho, longe da placidez das variações do cinza.”
Marcos Marcionilo – Socio-proprietário da Editora Parabola
Um novo passo a cada momento
O caminho de Soraia Reis, Jornalista de formação, a entrada na área editorial foi pela comunicação. “Ainda estudante, comecei como assistente de publicidade na Editora Ática e, após me formar, assumi o cargo de Coordenadora de comunicação. Pouco a pouco passei a acrescentar as funções de relações públicas, assessora de imprensa e responsável pela divulgação infantojuvenil.
Antes de me tornar editora, conheci um pouco de cada departamento. Gerenciei áreas como – divulgação escolar, imprensa, marketing, editorial, criação e até a área comercial. Essa vivência em divulgar livros e autores foi me aproximando da área editorial, passando da gerência até chegar ao cargo de direção. Atuei como editora em empresas como Larousse, Ediouro, Rocco, o que me preparou para enfrentar (e aceitar) um novo desafio quando surgiu: o convite para criar uma nova editora para o grupo Rocco em SP. Na Editora Prumo, onde estive até 2010, minha experiência foi de participar da construção de uma empresa em quase todos os setores.”
Soraia hoje é diretora editorial da Planeta, fala com tranquilidade sobre esses 25 anos, mas credita todo o seu trabalho a duas habilidades: a de estar disposta a aprender e a de ensinar.
A versatilidadede um editor
“Entrei no mercado editorial em 1997, recém-formada em filosofia e já com interesse em trabalhar em editora. Não conhecia ninguém na área, então peguei alguns endereços nos livros que tinha em casa e mandei currículos. Fui chamada para um teste na Editora Siciliano, que naquela época contava com uma grande equipe interna de diagramadores, revisores e designers, e logo em seguida fui contratada como revisora de textos. Aprendi muito revisando literatura, de autores nacionais e estrangeiros, e também livros infantis. Com o tempo, assumi novas funções e responsabilidades, tornando-me, sucessivamente, preparadora de texto, coordenadora, editora e gerente editorial ao longo de quase 10 anos. Isso foi fundamental para enxergar todo o processo de produção editorial. Nesse período, houve uma transformação profunda nas atribuições de um editor em grandes empresas, hoje muito mais um gerente de produto, que precisa se preocupar também com vendas e marketing, do que alguém que ficaria dedicado unicamente ao texto. Por sorte, aprendi a transitar em todas essas frentes, o que me permitiu conhecer limites do que um editor pode fazer por um livro e, sobretudo, ensinar aos novos. Minha experiência inicial com revisão foi de forte importância para que pudesse aprender a editar, a escolher textos, a descobrir que pontos numa história eram mais favoráveis que outros. Busquei aprimorar meus conhecimentos em outros idiomas, principalmente inglês, para leitura e avaliação de originais, participação em feiras de livros internacionais e contatos com agentes e editores estrangeiros. Quando a Siciliano foi comprada pela Saraiva, tive a oportunidade de abrir novas frentes: com livros sobre musica pelo selo ARX e os infantis, com a Ed. Caramelo.A vida de um editor é qualquer coisa menos monótona, mas exige esforço. É necessário estar sempre antenado no que acontece no mundo para antecipar tendências ou saber que assuntos podem se tornar um bom livro”.
Carla Fortino – Editora na Globo livros
Numa área profissional tão nova, onde as funções eram transmitidas até pouco tempo via oral, o início nunca é pelo topo. Eu comecei em editora comercial como assessor de imprensa; depois criei departamentos de marketing e comecei a apresentar projetos para o editorial. Não foi rápido, foi passo a passo. Lembro que o meu diretor, Wagner Veneziani, da Editora Madras, certa vez me propos ir para Frankfurt com ele. Eu declinei agradecido. Meu inglês era sofrível e preferi adiar, e me preparar para receber outra proposta. Minha primeira feira internacional ocorreu vários anos depois, quando vinha investindo em cursos de inglês que me deram mais segurança para lidar com obras internacionais.
Hoje há cursos que dão uma dimensão do trabalho, do campo de atuação, do olhar, de modo que alguém possa ter uma noção mais clara de cada função dentro de uma editora antes de se candidatar a um cargo. Para quem tem interesse em trabalhar com textos, ter nossa Gramática na ponta da língua é indispensável para começar a fazer trabalhos de revisão, depois de preparação de textos, e edição. Com o desenrolar da relação com o trabalho e com as editoras, basta ir propondo projetos… quanto mais conseguir unir o que falta no mercado com a área de uma editora, maiores as chances desse investimento funcionar. Mas você precisa se destacar em cada fase, então, não pode pular etapas. Hoje quando me falam que o mercado é fechado eu digo, não, não é fechado, é compacto. Todo mundo se conhece para o bem e para o mal. Displicência ou má conduta profissional é logo viralizada. Um revisor, tradutor, designer sempre presta serviços para 5 a 10 editoras e quando alguém sai de uma empresa suas chances depende de tudo o que realizou antes. Um trabalho mal feito repercute, mas o bom e o ótimo também. Mais da metade das indicações de trabalho, de autores para publicar e de projetos para analisar que recebi foi de gente da área comercial, das livrarias, de outros autores e editores.
Mas o mercado editorial está se abrindo mais. No início do século passado as editoras eram como um burgo, tocadas apenas pelas famílias por sucessivas gerações. O négócio era movido a paixão, tradições e não figuravam como o tipo de empresas que poderia se dizer altamente rentáveis. Assim, havia poucos espaços para compor além das pessoas da família. Hoje é comum ver diretores, superintendentes, gerentes comerciais, financeiros e editores oriundos de áreas diversas como financeira, de supermercados, e até de indústrias multinacionais, como tabaco e refrigerantes, gerenciando equipes nas editoras e livrarias. Isso ocorre porque o mercado editorial ficou atrativo para outros profissionais. Duas das maiores redes de livrarias do país, Saraiva e Cultura, têm investidores fortes como bancos e isso é fato recente. Sinal de que este mercado está menos fechado, não?
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À beira do prazo limite de 4 anos( que se encerra em 31 de dezembro de 2012), para a implantação final do acordo ortográfico, quando a grafia anterior não será mais considerada correta em textos de jornais, revistas, concursos, livros, etc me faço esta pergunta. De forma prática, ele retirou acentos diferenciais de palavras na escrita( sem que tenha mudado a fonética delas), mexeu na regra dos hifens e excluiu o trema. Nada tão transformador.

Fiz uma pesquisa na internet para tentar entender o que se disse a respeito na sua implantação e o que as pessoas entendem como o motivo desse acordo.

Em geral, o que encontrei como informação é de que ele foi pensado para melhorar a comunicação escrita entre os falantes de língua portuguesa, e isso incluiria também o trânsito de livros, revistas, jornais e documentos entre os países, que não necessitariam mais de tradução. Mas isso teve efeito na prática?

Nos últimos dois anos trabalhei numa editora cuja matriz é portuguesa e, por conta disso, fui duas vezes a Portugal e falava semanalmente com portugueses.  As conversas, ora formais, ora informais tinham sempre um ponto em comum: não houve uma única vez em que não tive de pedir para repetirem algo ou explicar uma palavra ou expressão, e nada desses problemas de comunicação teve a ver com acentos ou hifens.

Daí, comecei a enxergar que o acordo ortográfico não passava de ato de perfumaria, algo que não promovia mudança real, profunda e que tivesse por fim um efeito consistente. Se era para melhorar a comunicação teriam de tentar unificar o vocabulário, reduzir a velocidade de fala dos portugueses ou acelerar a nossa, ou então não justificar o acordo com a melhoria da comunicação, pois quanto a isso, ele mexeu de forma insignificante.

No trabalho editorial, muitas vezes tive de traduzir livros de autores portugueses ou, ao adquirir a tradução portuguesa de um livro escrito em inglês, traduzir esta versão para o português brasileiro.  Novamente, hifens e acentos não representavam nem 10% das diferenças.  Vocabulário, ordem e encadeamento das frases, expressões, essas sim, eram importantes para a compreensão do texto.

Separei um trecho de um livro em Português de Portugal para verem na prática o que estou falando. Marquei em amarelo o que considero, deveria ser alterado numa versão brasileira. E logo abaixo, a minha versão nacional do mesmo trecho.

Peço que observem os trechos marcados. Obviamente, um leitor com razoável capacidade de compreensão conseguiria entender a versão original, mas dentro do conceito de que uma obra bem traduzida é aquela que parece ter sido escrita originalmente em nosso idioma, verifiquem se as alterações que fiz não torna a leitura mais fluida.

Homens há muitos, de Francisco Salgueiro

– Confesso-te que gemi. Quando senti que ele estava quase a vir-se, disse «Ohh… que bom». Fingi que tínhamos um orgasmo simultâneo. Inspirei-me no canal dezoito. Foi um belíssimo «Ohh…que bom». Se algum produtor de cinema tivesse ouvido, de certeza que me convidaria para fazer dobragens de filmes pornográficos.

Estar ali, com ele em cima de mim, foi tão excitante como descascar amendoins. E sabes o que fiz no final? Dei-lhe uma festinha na cara e um beijinho na testa!

– Vocês já namoram há quanto tempo? Cinco anos não é?

– Estamos quase com seis anos de namoro. Fazemos seis no dia um de Junho. É incrível como já passou tanto tempo! Enfim… mais uma noite de sexo, em que o meu prazer ficou fechado por detrás de uma porta blindada.

– Mas diz-me lá: por que finges que tens prazer quando estás com ele? Por que gastas os teus sons e gemidos com uma pessoa que te dá bocejos na cama? Por que não acabas com ele de uma vez por todas? Para teu bem, e para meu também.

– Não consigo. Ele é muito meu amigo e acha que sou a mulher da vida dele. Não posso decepcioná-lo. Os meus pais adoram-no.

Nós somos quase como irmãos.

By Português brasileiro

– Confesso que gemi. Quando senti que ele estava para gozar, disse «Ohh… que bom!». Fingi um orgasmo simultâneo. Aquilo foi inspirado no canal erótico. Foi um sonoro «Ohh… que bom». Se algum produtor de cinema tivesse ouvido, com certeza me convidaria para fazer dublagens de filmes pornográficos.

Estar ali, com ele por cima, foi tão excitante quanto descascar cebolas. E sabe o que fiz ainda, antes de sair? Fiz uma cara de satisfação dei um beijinho na testa!

– Há quanto tempo vocês namoram? Cinco anos não?

– Quase seis. Faremos seis anos em 1º de Junho. É incrível como já passou tanto tempo! Enfim…mais uma noite de sexo, e meu prazer trancafiado por uma porta blindada.

– Mas então por que finge o gozo com ele? Por que faz esses sons e gemidos com uma pessoa que não te dá prazer? Por que não termina esse relacionamento? Para teu bem, e para meu.

– Não consigo. Ele é meu grande amigo e acha que sou a mulher da vida dele. Não quero decepcioná-lo. Os meus pais também o adoram. Somos como irmãos.

Fora dos livros, a conversa certamente não foi afetada pelo acordo. Conversas informais entre falantes dos dois continentes continuarão a ser entrecortadas com perguntas, What?

As diferenças não param nisso. Querem ver como fica um título de livro lá e cá? Vejam este título de filme:

A Rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo

Conseguem imaginar qual é o filme?

Então, vamos falar sério. Isso não é reforma para melhorar nada, isso é burocracia.  Isso me lembrou muito da forma como aceitamos ser enganados pelas propostas de políticas nas eleições e que depois não são realizadas e tudo fica por isso mesmo. Ou ainda, das guerras que são geradas para aquecer economias, como a mais recente, envolvendo EUA e Iraque, também baseada em premissas equivocadas, tal como esse acordo.

Por fim, recomendo este vídeo, dentre tantos que podem ser encontrados na internet, onde há uma entrevista em que linguistas importantes em Portugal criticaram todas as ideias desse acordo na época do seu anúncio.

http://www.youtube.com/watch?v=E-VWXRyEIYA&feature=related

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Vi uma brincadeira recentemente no Facebook em que se mostrava 6 versões da mesma profissão, a partir de uma pergunta central: quando digo que sou _ _ _ _ _ _ _ (nome da profissão): o que meus pais pensam? Como meus amigos me veem? Como um autor recusado me vê? Como eu me vejo? O que realmente faço? etc.
Vi posts bastante criativos das mais variadas profissões, e foi divertido observar que, no mundo real, todas as áreas têm um lado glamoroso, mas que, na maioria das vezes e para a maioria das pessoas, não corresponde à realidade.
Até hoje, quando me perguntam o que faço e digo: sou editor de livros, as pessoas perguntam afirmando: “ah, então você escreve!” Não! “Ah, você faz a revisão ortográfica dos livros!” Novamente, não. Então explico. E elas fingem entender, e eu fico torcendo para que pesquisem no Google.
A motivação desse artigo é a percepção de que os editores são, para muita gente, seres invisíveis. Hoje há uma supervalorização dos livros autopublicados, e uma tendência a tratar os editores como um tipo de censor; de pessoa que impede um autor de chegar ao sucesso; enfim, uma pedra no caminho entre autores e leitores. Acho isso um tanto injusto, mas se acontece é porque há uma falta de informação generalizada, uma crença de que editores são dispensáveis dentro do processo, talvez porque seu trabalho, boa parte das vezes, só aparece quando ocorre algum problema, nas dezenas de fases que ficam sob sua responsabilidade, inclusive a de corrigir algo produzido pelo autor.
Nossa cultura valoriza tanto a figura do autor que, se ele revelar que teve um direcionamento do editor, parece que perdeu a autoria. Esquece que, mesmo com alguém já consagrado, foi um editor que pescou seu texto numa pilha de obras ruins, ou convidou determinado autor para determinado tema, deu direcionamento específico, fez críticas, contribuições, retirou personalismos, temas desfocados do propósito central, visão unilateral ou frágil, refletiu sobre o título, escolheu capa, projeto, textos de quarta-capa e orelhas, convidou um prefaciador, intermediou marketing, imprensa, brifou o comercial sobre o diferencial daquela obra no mercado. É um trabalho amplo, que exige experiência, visão estratégica, inúmeras habilidades e um conhecimento básico sobre uma infinidade de temas, mas que raramente é percebido num livro.
Uma história que já me foi relatada duas vezes por colegas de profissão conta que o livro de maior sucesso de Humberto Eco, O Nome da Rosa, foi reescrito por editores de Hollywood ao ser comprado para o cinema. E a versão que lemos hoje passou por dois grupos de editores: o italiano e depois os americanos, ou seja, foi mexido duas vezes até ficar ótimo aos nossos olhos. No mercado internacional isso é bastante comum. Já adquiri livros que foram posteriormente comprados para televisão ou cinema, e os agentes pediram para esperar a nova versão, que, nesses casos, melhorou o final, ampliou o público ou deu mais ritmo à trama. Há demérito nisso? Não vejo. Penso que há um excesso de idealização em desejar que um autor tire tudo de sua cabeça, que não reflita com mais alguém, que não tenha lido nada que possa influenciá-lo. Bobagem.
Há um belo filme recente do Woody Allen, Meia noite em Paris. Allen tem realizado filmes mais comerciais nos últimos anos, o que andou ampliando seu público. Neste filme, um casal de noivos passa férias em Paris, e os sogros da moça os acompanham. Ele é um escritor em crise. Ela é uma burguesa, que nutre uma paixão pelo ex, que, por acaso, também está em Paris em férias com a atual mulher. Os dois casais combinam de sair juntos e o ex faz o estereótipo “sabe-tudo”, tem uma história para contar sobre qualquer coisa, ficando sempre numa posição hierárquica em relação aos demais. A noiva e a ex gostam desse tipo de relação, mas nosso escritor não, pois mais parecem duas frangas seguindo um pavão super exibido, de museu em museu.
Numa dessas noites ele decide não acompanhá-la num jantar. Então ocorre a mágica do filme. Um carro cheio de gente animada para à sua frente e o chama para entrar. Descobre depois que cada vez que isso acontece ele é levado ao passado. Conhece Gertrude Stein, Ernest Hemingway, O casal Fitzgerald, Pablo Picasso, Salvador Dalí, Cole Porter e muitos outros. Ele fica alucinado. Encontrou pessoalmente alguns dos seus grandes heróis, bebeu, fumou com eles, trocou confidências. Num desses eventos recebe a indicação de Hemingway para mostrar seus textos à Gertrude, que era a sua primeira leitora crítica sempre, uma função de editora pessoal. Ele o faz, e recebe dela as indicações sobre como conduzir seu romance. Um filme que vale a pena sob vários aspectos: reconstituição de época, cenários em Paris, crítica aos clichês diversos, e a inusitada escolha do Owen Wilson para estrelar um filme de Allen, o que traz também muito significado.
Mas o que me fez falar desse filme aqui é que ele mostra como o editor é a interlocução crítica de primeira instância, e que as maiores obras literárias foram eternizadas graças à ela.
Conversei rapidamente com alguns editores durante a feira de Frankfurt sobre este assunto, para colher histórias a fim de mostrar como essa mágica acontece, tanto com livros nacionais como internacionais.
Mariana Rolier – Publsher da Novo Conceito
“Quando avaliei o manuscrito Florence and Giles, de John Harding, sabia que o livro tinha bastante potencial, mas o projeto inglês não era adequado para o Brasil. Muito centrado em uma estrutura gótica, com um corvo na capa e um título que não dizia nada sobre o livro. Comprei a obra já pensando no processo de edição. A primeira coisa que me veio à cabeça foi mudar o título. A personagem principal, uma menina muito inteligente para sua idade, que aprendeu a ler sozinha porque seu tio não permitia que uma mulher tivesse instrução em uma Inglaterra vitoriana, era corajosa, forte e determinada. Assim, quando a menina descobre uma biblioteca esquecida na mansão onde vive, se deslumbra tanto que traz para sua realidade as histórias dos livros que lê escondida. O título A menina que não sabia ler fez todo o sentido para mim. Durante todo o livro nenhum personagem sabia que ela aprendera a ler e era ali que estava seu grande trunfo.
“Também precisava resolver uma questão importante no miolo. John Harding baseou a obra no livro de Henry James, A volta do parafuso. Havia muitas referências dessa obra que levavam o leitor a descobrir um importante mistério do livro. Enviei um email ao autor preocupada, pois se na Inglaterra Henry James era bastante conhecido pelos adolescentes, aqui era bem diferente. John Harding entendeu a situação e juntos chegamos à uma proposta, com algumas frases no meio do livro que não deixavam o leitor brasileiro se perder nas referências.
“E, finalmente a capa. Ainda apaixonada pela personagem principal, conversei com o capista sobre a obra. O estúdio não poderia ter sido mais feliz – e depois desta capa nos tornamos parceiros de muitas outras obras. O livro foi um sucesso, com cerca de 80.000 cópias vendidas no Brasil. A editora inglesa não chegou a alcançar 10% dessas vendas em seu país.”
Alessandra Ruiz, editora da  Editora Gente me relatou durante o voo para a Alemanha como revelou o livro Desperte o milionário que existe em você, que já havia sido lançado numa versão independente. Ela o pescou numa pilha de uma centena de livros. Bateu os olhos no nome do autor, Carlos Wizard, que havia conhecido num seminário e de matérias de jornal. Viu o conteúdo, ligou para o autor e juntos reestruturaram algumas partes. Resultado: a obra está presente nas listas de mais vendidos da Veja há mais de 19 semanas.
Durante a feira de Frankfurt, ouvi da Sandra Espilotro, Diretora Editorial da Ediouro, outro lado interessante da questão e que reproduzo, sem fidelidade, com minhas anotações: “O livro de self-publishing que vende bem geralmente o faz por alguns motivos, como o preço muito baixo. Isso indica certamente que ali há algo bom, que a ideia é boa e que há demanda pelo assunto. Esse movimento certamente chama a atenção das grandes casas editoriais, mas quando a obra é adquirida por uma empresa, elas passam por ampla reforma: cuidam do texto e até mesmo da apresentação do autor; fortalecem os pontos bons e, sobretudo, corrigem os frágeis. Boas vendas não significam boa edição. E se um livro pode vender bem pelo assunto, pode vender ainda mais se tiver uma edição competente, que é o que faz um editor.”
De Marcelo Del’Anhol, editor de literatura da Positivo, ouvi um relato que acrescenta mais uma faceta à função: o de resgatar pérolas do passado. Folheando material antigo, Marcelo encontrou uma resenha de Laura Sandroni, “num tempo em que havia algum espaço para a crítica de livros infantojuvenis na imprensa brasileira, no qual elogiava o livro A viagem de retalhos, da Sonia Robatto, chamando-o de pequena obra-prima. Sonia foi a editora da Revista Recreio e abriu espaço para muitos dos grandes autores infantojuvenis mais respeitados de hoje, como Ruth Rocha, Ana Maria Machado, entre tantos outros, mas ela mesma havia desaparecido das prateleiras. Graças a essa resenha, conseguimos chegar até Sonia, uma grande escritora que andava esquecida, sem o reconhecimento e fora de catálogo. Foi uma experiência tão gratificante que já publicamos outro livro dela.” Ouvi a experiência e fiquei pensando que esse trabalho de resgatar obras  relevantes é tão ou mais importante do que tentar revelar novos talentos. E cabe aos editores.
Recordo ainda como foi assistir, à distância, no início dos anos 2000, o lançamento pela Sextante da versão Brasileira de The Blue Day Book. Não sabem que livro é esse? É o que passou a ser chamado no Brasil de Um Dia Daqueles. Trocaram o sapo azul e o título estranho para os brasileiros por um simpático leão e uma mensagem de conforto. Um toque genial que transformou o gift book num produto altamente comercial.
Poderia dar mais exemplos, pois melhorar a qualidade dos livros, ou alterar o detalhe que faz a diferença entre o livro que vende bem e o que fica esquecido no fundo da loja, é a tarefa principal dos editores, mas iria me repetir. Fui testemunha de tradutores que fizeram um trabalho fenomenal na criação de versões adaptadas, como se o original tivesse sido escrito para os brasileiros; editores de áreas técnicas que criam projetos e coleções que fazem da série algo mais importante que os nomes que publicam (sem demérito ao texto ou aos autores); e, por outro lado, editoras que cortam os investimentos na área editorial, justamente onde reside toda a sorte futura, onde o negócio começa a existir, acreditando que podem vender qualquer produto pelo nome, força comercial ou relacionamento, ignorando os efeitos disso no longo prazo.
Que a tecnologia está mudando o mercado, não há duvidas. Fenômenos de literatura acontecem o tempo todo, mas grande parte está nas mãos dos profissionais. No entanto, a exceção muitas vezes é tratada como regra, e o profissional que tem por objetivo fazer a triagem se torna obstáculo. A autopublicação não é um fenômeno recente. Paulo Coelho e Plinio Marcos já tiveram que vender pessoalmente seus livros, num esquema parecido. Um virou um sucesso de vendas, o outro cult. Mas isso não ocorre com todos. O próprio Coelho gostaria de tirar do mercado seus dois primeiros livros, se pudesse. Provavelmente não sentiria vergonha desses livros se tivesse contado com um editor.
Acho que o centro da questão está desfocado, não tem a ver com o fim do papel do editor. O que a tecnologia fez foi abrir mais uma possibilidade para o autor chegar ao público consumidor sem que uma grande empresa invista junto. E sem que precise das grandes redes de livrarias, da imprensa ou do marketing profissional. Isso não invalida o trabalho de todas essas empresas. Antes o autor teria de pagar uma edição impressa, agora, uma versão virtual, que é mais barata. No entanto, nos raros casos em que isto dá certo, uma empresa acaba contratando a obra que fez sucesso no mercado independente. No fundo, quando um autor faz todo o trabalho para se lançar, o que ele busca, de fato, é um editor que o descubra para lançá-lo em grande estilo, para que ele possa se ocupar apenas das funções que lhe cabem como autor. Fosse o contrário, os autores autopublicados teriam declinado os convites das editoras.
Até a próxima coluna.

Para quem não conhece, de forma simplíssima, temas transversais são temáticas sobre valores sociais, que devem permear livros educativos, para uso dos professores em sala de aula. Praticamente todos os livros adotados pelos programas de governo devem estar alinhados com estes temas.  Os valores são ética, orientação sexual; pluralidade entre outros.  A ideia é que todos os professores apliquem esses conceitos durante suas aulas, seja de História, Matemática ou Geografia.  Mas e na prática isso é eficiente? O que pude observar na minha experiência em salas de aulas e com colegas professores é que os valores transmitidos são, muitas vezes, derivados de crenças pessoais, sem relação com um conceito mestre, em especial, de aplicação.

Nos livros, assim como nos filmes em que se destacam componentes educativos, esses temas transversais aparecem, como o próprio nome indica, de forma indireta, não como tema central.  Mas duas perguntas que me faço há alguns anos são: será que a criança entende a segunda mensagem? E, mais importante: Será que sabe porquê está recebendo aquela orientação?

Como meu tema são os filmes, trago aqui três exemplos em que temas transversais aparecem, e que nas comunicações que se fazem sobre eles são amplamente destacados na imprensa:

V de Vingança – Uma história sobre um homem que se revolta contra o sistema que, por conta de uma experiência perversa, o deixou desfigurado. Ele se recupera e cria um plano para se vingar. Como? Abrindo os olhos das pessoas contra a manipulação dos poderosos. Na história há vários fatos relevantes, sobre a indústria que cria a doença, o doente e a cura, a preços excessivos;  que na busca da liberdade e segurança, acabamos por oferecer parte de nosso direito de escolher, de nossa liberdade; e até sobre como observar a mentira por trás das notícias, ensinando os expectadores a analisar linguagens diversas, além da mensagem falada etc.   Em foruns de discussão não especializados vi gente comentando que a principal proposta era sobre anarquia e ou apenas se divertindo com a transgressão apresentada no filme a inspirar juventudes, no entanto esse é um filme baseado num livro que pode ser considerado arte. Há nele tanto de politica, cultura geral, história, psicologia do poder espalhado em sua trama, mais ou menos direto.  Referencias à 2ª guerra, ao nazismo, ao capitalismo, ao diário de Anne Frank, enfim, mas raramente vejo isso observado pelo publico em geral.

Happy Feet – Um lugar na Antártica, pinguins vivem numa sociedade em que são valorizados pelo canto. No entanto, um nasce sem ter essa habilidade, mas que sabia sapatear como nenhum outro. Ele é rejeitado, tornado motivo de vergonha e excluído, até que decide partir.  No caminho, acaba por ser apanhado por um navio que o leva até o continente para colocá-lo num aquário e, os humanos ao descobrirem suas habilidades, percebem que ele quer mostrar algo. Colocam nele um rastreador para responder a algumas perguntar: que estaria acontecendo com seu habitat para ele ter ficado a deriva?  Que trauma ocorreu para que ele aprendesse a sapatear?  Bem, os humanos então decidem seguir o pinguim, até serem levados na baia da sujeira e destruição que, produzida nos continentes, chegou aos polos frios e começou reduzir o alimento da espécie.  O pinguim dançarino volta como heroi, todos os outros aprendem a dançar. Temas inseridos, lidar com a diferença, ecologia, mas tudo termina apenas como um grande musical.

X-men – Descobre-se que na Terra algumas pessoas passam a nascer com poderes especiais, dos mais variados tipos. Logo, parte da população inicia uma caçada, com receio de não ter meios para controlar essa população diferente. Acuados, os mutantes  começam a se organizar, a fim de lutar pela própria vida e liberdade.  Instaura-se então a guerra. Tratado como entretenimento, mensagens sobre respeito, política, direitos humanos são  o que não faltam, mas quem observa isso?

Trouxe esses três filmes para discutir aqui um assunto que me inquieta há um bom tempo: a mensagem transversal é realmente compreendida?  Nosso índice de compreensão cai cada vez mais, em termos percentuais. Aí estão os indices assustadorres de analfabetos funcionais, que leem mas não entendem, 38% entre universitários, e calcula-se 75% entre a população em geral.  Pergunto:  isso seria diferente nos filmes?  Ok, claro, vamos deixar esses filmes de lado, eles não foram criados para educar, mas então, seria diferente nos livros?  Algo colocado de forma indireta é suficiente para educar?

Acho que não.  E temo que essa idéia da transversalidade tenha surgido em algum momento como uma forma de incluir fragmentos de vida social na educação escolar de forma mais sutil  – não sei se para evitar que fosse um tema chato;  se foi para evitar que os pais reclamassem de que o Estado estava se interferindo na educação de seus filhos com valores diferentes dos seus ou para driblar alguns entraves de legislação -, mas acredito que vale a pena estudar se, diante de tantos sinais de que a capacidade de cognição geral não é boa, se há indicação de que não alcançamos bons resultados, talvez tenhamos de ser mais diretos.  Penso que num mundo ideal, ao invés de criar matérias sobre Pluralidade; Desenvolvimento Sustentátel, etc, bastaria uma máteria chamada A Arte de Observar. Ensinar às crianças a ler subtextos, a entender tramas tantos dos poemas quanto da vida, da politica, do julgamento dos 40 ladrões, da filosofia por trás da criação de uma política afirmativa, enfim, questões cujo sentido não revelados na superfície dariam conta de atender ao desenvolvimento geral e preparar as crianças ainda mais para a vida, além das matérias escolares. Mas aprendi que nessas questões, devemos dar um passo de vez. Seria uma utopia agora.

Penso que esses temas transversais, que hoje a maioria compreende como importantes e pertencem a esfera da Educação para uma sociedade que busca evoluir deveriam ser matéria mesmo, não tema paralelo, onde não se sabe se foi, na sala de aula, efetivamente discutido ou se por gente preparada igualmente de forma indireta.

Não atuo diretamente no campo da educação escolar( e talvez por isso perceba tanto essa dificuldade na compreensão do tema), mas penso que é válido discutir se os efeitos da transversalidade são sentidos, se algo realmente sólido fica na formação do caráter das crianças, pois o que lemos a cada dia é sobre capacidade de absorçao dos leitores adultos é que os temas comuns chegam a ficar complexos para boa parte da população adulta. E porque seria diferente com as crianças?

Minha questão é que se há uma crença de que esse método é eficiente, mas ele possa não ser, nada mais será feito.  Enquanto pais e professores entregam às crianças livros e filmes e esperam que eles entendam esses temas, podem incorrer no risco de que o problema, a Educação, está resolvida. Mas e se não estiver? Basta ver pesquisas ligadas à qualquer pluralidade para perceber que nada mudou e, na maioria dos casos,  pais e professores aplicam os seus conceitos pessoais nestes temas.  Quando tudo fica transversal o compromisso também o é.

Comente, reflita, dê sua opinião se achar adequado.


Economia e Poder – Como bilionários produziram guerras e recessões econômicas – Grupo Bildeberg

Neste 20 de março, morreu, aos 101 anos, o bilionário americano David Rockefeller, ex-presidente do Chase Manhattan Corp e patriarca de uma das mais famosas e influentes dinastias americanas.

davidNo livro, Política, Ideologia e Conspirações – de Gary Allen e Larry Abraham( Faro Editorial), os autores denunciam diversos crimes mundiais, como crises financeiras e guerras, patrocinadas pelas famílias mais influentes do mundo, em especial Os Rockfeller, citando diretamente tanto David quanto seu irmão, Nelson. Este, impopular para ser Presidente, fez algo melhor, passou a controlar Nixon.

Os irmãos participaram ativamente do grupo Bildeberg, que visava construir ( e comandar) uma nova ordem social no mundo.Tal grupo uniu esforços das elites de poder da Europa e Estados Unidos. David era o seu principal representante nos EUA.

A obra explica, em detalhes, porque todo banqueiro se diz socialista e como intervêm em questões críticas e criam disputas entre diferentes grupos políticos, mas ganhando sempre, independente de quem vença cada jogo.

política ideologia e manipulação paginas rockfeller_Página_1

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Abaixo, trecho do livro (páginas 133 e 134):

A base da propaganda comunista é, desde a década de 1920, a promessa de destruir os Rockefeller e outros super‑ricos. Contudo, descobrimos que desde os anos 1920 os Rockefeller estão empenhados na construção da força dos soviéticos. Faz sentido? Se um criminoso vaga pelas ruas gritando a plenos pulmões que matará o João Silva assim que

tiver uma arma e você descobrir que o João Silva está às escondidas dando armas ao criminoso, só há duas possibilidades. Ou o João Silva é um idiota ou toda a gritaria é mera encenação, e secretamente o criminoso trabalha para Silva. Os Rockefeller não são idiotas.

Enquanto David controla a ponta financeira da dinastia, Nelson controla a política. Nelson gostaria de ser presidente dos Estados Unidos, mas, infelizmente para ele, seu nome é inaceitável para a vasta maioria da base do seu próprio partido. Depois de ser presidente, a melhor coisa do mundo é controlar o presidente. Supõe‑se que Nelson Rockefeller e Richard Nixon são ferrenhos adversários políticos. Em certo sentido, eles de fato são, mas

isso não impede que Rockefeller imponha seu domínio sobre Nixon. Na competição entre os dois pela nomeação do Partido Republicano em 1968, Rockefeller naturalmente teria preferido ganhar o prêmio, mas a despeito de quem vencesse, ele controlaria o mais alto posto oficial do país.

Convém lembrar que no meio da elaboração da plataforma republicana em 1960, Nixon saiu de repente de Chicago e foi a Nova York para encontrar‑se com Nelson Rockefeller no que Barry Goldwater classificou de “a Munique do Partido Republicano”. Não havia nenhuma razão política para que Nixon rastejasse para Rockefeller. A convenção estava costurada a seu favor. Qual o sentido, então?

Em The Making of the President, 1960, Theodore White observa que Nixon aceitou todas as condições que Rockefeller impôs para o encontro, inclusive as provisões de que “Nixon em pessoa telefonasse a Rockefeller pedindo uma reunião; que eles se encontrassem no apartamento de Rockefeller… que a reunião fosse secreta e noticiada posteriormente à imprensa por meio de comunicado do governador, não de Nixon; que se anunciasse claramente que ela ocorrera a pedido do vice‑presidente; que o relato das políticas resultantes da reunião fosse longo, detalhado e inclusivo, não uma nota sumária”.

A reunião produziu o infame Acordo da Quinta Avenida, no qual a plataforma republicana foi jogada no lixo e substituída pelos planos socialistas de Rockefeller. Em sua edição de 25 de julho de 1960, o Wall Street Journal comentou: “… um pequeno grupo de conservadores dentro do partido… é empurrado para as margens… Os 14 pontos são de fato totalmente

de esquerda; eles compreendem uma plataforma de muitas maneiras semelhante à do Partido Democrata e estão muito distantes daquilo que os conservadores acreditam que o Partido Republicano deve defender…”

Como coloca Theodore White: “Jamais a guinada esquerdista quadrienal dos moderados do Partido havia sido tão abertamente dramatizada quanto foi pelo Acordo da Quinta Avenida. Qualquer honra que tivessem conseguido obter pelos serviços prestados à comissão da plataforma do partido fora arrasada. Uma reunião de uma única noite entre os dois homens em um milionário tríplex… estava prestes a indeferi‑los; eles foram desmascarados como palhaços para o mundo inteiro ver.”

Sem dúvida, a história completa por trás do que aconteceu no apartamento de Rockefeller jamais será conhecida. Podemos apenas fazer uma suposição razoável à luz dos eventos subsequentes. Mas o óbvio é que desde aquele momento Nixon passou a estar na órbita de Rockefeller.

Depois de perder para Kennedy por um fio de cabelo, Nixon, contra sua vontade, e a pedido (ou ordem) de Rockefeller, entrou na disputa para governador da Califórnia e perdeu. (Para mais detalhes, veja o livro Richard Nixon: The Man Behind The Mask, de Gary Allen.) Depois de perder para Pat Brown na corrida pelo governo da Califórnia em 1962, Nixon foi universalmente consignado à lata de lixo da política.

Ele deixou de exercer a advocacia na Califórnia e foi para Nova York, onde se tornou vizinho de Nelson Rockefeller, seu suposto arqui-inimigo, em um apartamento cujo aluguel era de 100 mil dólares por ano, em um prédio de propriedade de Rockefeller. Depois, Nixon foi trabalhar no escritório de advocacia do advogado pessoal de Rockefeller,

John Mitchell, e nos seis anos seguintes passou a maior parte do tempo viajando pelo mundo, primeiro reconstruindo sua reputação política e depois fazendo campanha pela nomeação republicana de 1968. Ao mesmo tempo, de acordo com a sua própria declaração de bens, seu patrimônio líquido foi multiplicado muitas vezes, e ele se tornou bastante rico. Nelson Rockefeller (e seus colegas do establishment esquerdista do Leste), que ajudou a tornar Nixon aceitável para os conservadores ao aparentar se opor a ele, resgatou Nixon do ostracismo político e o fez presidente dos Estados Unidos. Não faz sentido que Nixon, o homem de ambição voraz cuja carreira havia chegado ao fundo do poço, tenha precisado fazer alguns acordos para alcançar sua meta? E ele não terá contraído enormes dívidas políticas em troca de ser feito presidente pelo establishment esquerdista do Leste?

 

Compre:

Livraria Saraiva: http://migre.me/wl9Kj

Livraria da Folha: http://migre.me/wl9J5



Curso:

 

writers dreamPúblico alvo: Autores, editores, pareceristas e tradutores de livros.

Este é o curso que sobre a vida prática do trabalho de edição. Ele se divide em dois caminhos:  uma parte teórica voltada para a edição e seus processos e uma parte sobre a experiência prática, com orientações sobre redação, criação e edição de textos.

Trata-se de um check list de fases de edição de um texto. Para o autor é algo que ele precisa atentar antes de submeter à apreciação de editoras.  Para o editor de texto e tradutor, será uma ferramenta de análise e verificação da qualidade, uma reflexão dos limites da intervenção num texto, bem como do que precisa ser trabalhado.

O curso também será útil para quem realiza análises críticas de textos, abordando aspectos e opções sobre o que pode e deve ser revisto pelo editor de textos ou pelo próprio escritor. Trata-se de algo tão importante para melhora do oficio do escritor, ampliação do olhar crítico sobre seu próprio texto, o que consequentemente aumenta suas reais possibilidades de contratação e de leitores.

Qual é a proposta?

Para um autor ele pode indicar como um livro será lido, que erros são mais observados que outros;  para um editor, tradutor, revisor ou preparador de textos ele orienta o olhar sobre as questões mais importantes, aquelas que podem e precisam ser resolvidas.

Inclui exercícios práticos em aula, para demonstrar algumas técnicas acerca da edição de um livro, sempre sob o olhar de um editor.

 

Alguns tópicos

As 5 fases de edição de um texto – Check list

Os Erros mais comuns na ficção

Parte prática e parte teórica – Estudo de cases – textos publicados e não publicados

Divididos em grupos, serão distribuídos textos para os participantes identificarem os problemas mais graves. E resolução em conjunto.

 

Enquanto a Escrita deve priorizar          

Criação – Incluir texto, informações, ideias – Apresentar algo – Registrar – Revisar – Sentir-se intimamente envolvido – Ser um produto imediato, ingênuo, intuitivo – Fazer uma bagunça.

A Edição deve priorizar

Crítica – Adicionar e remover textos – Melhorar – Registrar – Revisar – Colocar-se razoavelmente objetivo – Burilar, refinar – Arrumar, organizar

 

 

Professor

pedroPedro Almeida

Editor – Publisher da Faro Editorial – Curador do Prêmio Jabuti

Jornalista e Professor de Literatura, com curso de extensão em Marketing pela Universidade de Berkeley. Experiência profissional de 24 anos atuando na gestão de editoras de pequeno e médio porte e de Publisher em editoras de grande porte, nas áreas de ficção, não-ficção e desenvolvimento pessoal, tendo realizado diversos projetos nacionais e internacionais.

Atuou como editor para as seguintes editoras: Madras; Landmark; W11 editores; Editora Francis, Ediouro, Novo Conceito, Leya, Lafonte e Saraiva. E como editor associado para Arx; Caramelo e Planeta. Escreve regularmente para o Publishnews, coluna: Leia antes de ver, sobre o mercado editorial, é um dos curadores do Prêmio Jabuti e Publisher e sócio da Faro Editorial.

 

Serviço:

Edição em Brasilia

Data:  5 de maio, sexta, das 09 às 18hs. Valor do Investimento: 350,00

Inclui: coffee breaks

Local: Auditório do Colégio Inei Sigma (SHIS QI 7 CJ 17, Lago Sul, Brasília / DF)

Mais informações: Elaine Cambraia. Email: elainecambraia17@gmail.com

Realização: Casa de Autores de Brasilia

Apoio: Publishnews e Câmara Brasileira do Livro

 


imagem artigoArticulistas sempre estão em busca de algum tema, e às vezes, procurando por um, acabam se deparando com outro. Repetidamente, até as descobertas cientificas, acontecem deste jeito. Este aqui nasceu assim: pensava em escrever sobre um tema e o desenrolar dele me levou a fazer novas perguntas, e acabei descobrindo outras coisas que estavam fora do escopo original. E, a despeito de atuar no mercado editorial por tanto tempo, elas ainda me pegaram de surpresa. Talvez façam o mesmo com você.

O tema que abordo hoje é a falta de uma cultura da leitura. Para isso, escolho para a reflexão a forma como tem-se criado “campanhas para a promoção da leitura”.

As poucas vezes que surgem essas campanhas de incentivo à leitura, seja no rádio, revistas ou na TV, quase sempre acontece uma variação sobre o mesmo tema. Primeiramente escolhem um influenciador. São chamados para capitaneá-la alguém do meio artístico num destes grupos:

  • a)Um artista consagrado de TV ou de teatro;
  • b)Um autor de livros que circula nos principais cadernos de cultura;
  • c)Um apresentador de TV de programa cultural/jornalístico.

Pense você em três personagens que pode ter visto encampando estas campanhas nos itens a, b e c.

1, 2, 3…

Antes de pedir uma reflexão, deixe-me lembrar sobre qual era a proposta: promover o hábito de leitura para quem não o tem. E daí, pergunto: estes personagens podem ser um exemplo a ser seguido pelo público-alvo? Será que são o melhor elo de comunicação com o público que NÃO lê. (Porque é uma campanha de incentivo à leitura, não para reafirmar o valor da literatura para quem já lê, certo?)

Provavelmente você chegará a conclusão de que, por mais credibilidade que tal personalidade tenha, ela não se comunica com, por exemplo, crianças de escola pública de periferia.

Quem seria então um bom influenciador?

Quando é preciso fazer uma escolha de representante para estrelar uma grande campanha de um produto são feitos estudos meticulosos, caríssimas pesquisas de opinião com o público-alvo. Isso não o teremos, afinal, trata-se de livro, veículo continuamente desprestigiado neste país e que não vai trazer retorno financeiro direto a empresas e raros foram os governos a tentar tratar a educação com alguma seriedade. Então, vou arriscar um palpite que me parece óbvio: o caminho seria partir para os heróis desse público hoje: cantores populares, jogadores de futebol, jovens ídolos.

Pedro Almeida defende que heróis do povo deveriam encabeçar campanhas de incentivo à leitura

Vimos tentando por décadas usar um ator consagrado de teatro e levá-lo para convencer as pessoas que não leem e nem vão ao teatro de que a leitura é um caminho de ascensão social, de dignidade, respeito. É uma tentativa cheia de boas intenções, mas carregada equívocos e talvez muito idealizado. Ora, se buscamos incentivar quem não lê por que se oferece o modelo clássico? Porque não oferecer o novo?

Imagine trocar um Paulo Autran ou Serginho Groisman por Neymar? Ou Cid Moreira por Anitta ou McGuinê? Vejo daqui uma torcida de nariz, mas continue.

Se estamos tentando “pescar” quem não lê, quem traria melhor repercussão? Não se aborreça ainda. Se você está lendo este artigo é porque não precisa de incentivo novo para ler.

Temos um problema sério no país. Os atuais grandes heróis não leem, não leram e não são relacionados no imaginário popular com uma sólida formação cultural. Os ídolos do futebol parecem, aos olhos de todos nós, que nunca precisaram estudar; os cantores mais populares ou sertanejos de sucesso parecem que abandonaram a escola cedo e esta foi a melhor escolha das suas vidas. Tivemos um presidente que não se envergonhava em dizer que não gostava de ler e não houve indignação suficiente da sociedade que o fizesse se retratar. Não à toa a cultura da ostentação se alastra e sustenta ideia de que não é preciso saber/estudar para alcançar sucesso, riqueza, realização material. Diante disso, a estratégia precisa mudar. Precisamos trazer estes heróis para o nosso lado.

Quantos garotos e garotas acham hoje que ler traz algo de útil para as suas vidas? Que a leitura é fundamental para que ele possa sair da perpétua situação de miséria? Sério. Não falo aqui de idealização ou discurso pronto que se você ligar uma câmera numa escola pública ou assistir a um episódio do canal Futura e fizer a pergunta, qualquer criança vai tentar dizer que sim, que ler é importante. Mas não é disso que estamos falando, de dialéticas, mas de prática, e todos os dados de leitura e educação desmontam essa farsa.

Nossa sociedade vive com a crença de que mais vale investir em jogos de azar, como a Mega-Sena ou num possível talento para futebol ou música que em qualquer outro que dependa de escola, estudo e leitura.

Imagine a continuidade dessa crença muito multiplicada pela juventude: primeiro a mais pobre e depois seguindo nas classes C e B. O resultado é um quadro desolador hoje e para as próximas décadas: jovens, sejam de qualquer classe, culturalmente pobres, perdidos, sem muita perspectiva, com ideias que não reúnem causa e consequência e, por isso, acreditando numa ideia de anarquia geral.

Ah. De onde você tirou essa ideia toda?

Foi de muita observação, mas vou contar dois casos, um deles, bem recente, que ilustram essa ideia.

No ano 2000, uma novela da Globo de Manoel Carlos, Laços de família, transmitida em horário nobre, o personagem central Tony Ramos era o dono de uma livraria e apresentava frequentemente livros durante as cenas. Quem trabalhava no mercado editorial naquela época sabe que cada livro que aparecia na tela acabava por vender muito, alguns foram parar nas listas de mais vendidos sem nunca a ter frequentado antes. E foi observado outro fenômeno: as livrarias passaram a entrar na vida das pessoas. Muitas, que nunca tinham pisado numa livraria antes, mesmo as de shopping, passaram a fazer. As pessoas consideravam que aquele era um chão que não pertencia a gente mais simples e a novela quebrou esse paradigma.

Outro, mais recente.

Em 2014, na época da Copa do Mundo no Brasil — apesar de todos os problemas na finalização das obras e no fato de que uma boa parte da população desacreditava na força do evento –, o Brasil entrou em festa logo que a Copa começou. Muita gente que estava indiferente sentiu que perdeu a oportunidade de festejar como sempre fez, e até lamentou não ter entrado no clima e comprado ingressos. Nossa Seleção estampava desde campanhas de marcas internacionais de cuecas a celulares. Ainda havia confiança na seleção Brasileira, então Neymar estava em alta e o casal Bruna Marquezine e Neymar estavam entre as maiores celebridades da época.

E nesse clima de festa, uma postagem publicada no Twitter sobre um livro é tido como o disparador do sucesso do livro de Isabela Freitas, Não se apega, não. Isso aconteceu no dia 01/07/2014, postado por Bruna Marquezine.

Recordem a cronologia: o tweet ocorreu logo depois de uma das vitórias brasileiras mais sofridas, contra o Chile, nos pênaltis por 3×2, nas oitavas de final. Na semana seguinte, o livro passa a dobrar as suas vendas. Pela lista do PublishNews, na semana anterior ao post, o livro vendeu pouco mais de 2,2 mil exemplares (http://www.publishnews.com.br/ranking/semanal/5/2014/7/4/0/0). Na semana seguinte, esse número saltou para quase 4,5 mil (http://www.publishnews.com.br/ranking/semanal/5/2014/7/11/0/0). E depois disso, entrou num círculo positivo de vendas que se seguiu por meses e tornou a autora uma das revelações do ano. Afirmar que o sucesso aconteceu principalmente por conta do Twitter ninguém pode, mas no mínimo fez uma blogueira teen emergir para as páginas de portais de notícias nacionais e ser citada nas reportagens da época.

Pergunto então: um personagem popular, identificado com o público menos leitor não seria mais eficiente numa campanha para a promoção de NOVOS leitores?

Se um tweet ou uma simples aparição de um livro numa novela teve esse poder, imagine uma campanha em que um ídolo sertanejo revele seu interesse por leitura ou lamente a falta de incentivo na infância, as dificuldades que teve por conta da falta de leitura, etc. Não tenho dúvidas que, se convidados, muitos topariam participar de algo assim.

E esse não é um fenômeno restrito à cultura brasileira: Oprah Winfrey, apresentadora de TV mais bem paga dos EUA por muitos anos, que tem uma história e imagem pessoal relacionada com ascensão social – teve uma infância muito pobre, foi vitima contínua de abusos e conseguiu através da dedicação aos estudos dar uma guinada em seu trágico destino – tornou-se capaz de transformar qualquer livro que indicasse num grande sucesso. Mark Zuckerberg, criador do Facebook, a ferramenta social que tem revolucionado nosso mundo, sobretudo entre as pessoas mais jovens, também tem feito indicações de livros. Ele é um ídolo para uma parcela enorme de pessoas entre 20 e 30 anos. E cada vez que apresenta uma obra, milhões de seus seguidores acabam por levar o livro a vender números impensáveis. Em todo o mundo.

Esse é um convite para que paremos de chover no molhado e realmente invistamos numa cultura de leitura. O hábito de ler é como aprender a andar de bicicleta, quem é “contaminado” por ele mantêm a leitura como um valor perene. E reconhece tudo o que ela lhe pode trazer para a vida pessoal e profissional.

Vale, contudo, um alerta, para o qual utilizo o dístico da bandeira paulista: “Non ducor, duco”. Não serei conduzido, conduzo. Algumas pessoas, com as melhores intenções, confundem muitas vezes o processo, o fazem de modo invertido e acabam por achar que levar a cultura de livro à população que não lê é produzir material sobre as culturas de periferia.

Veja como é comum encontrar propostas como uma biografia de uma moradora de rua, de um projeto social, um dicionário da periferia e nossa sociedade achar que se está criando uma cultura de livro, que está democratizando a literatura, que estamos incluindo estas pessoas. Eu acredito que não (ou muito pouco). Estes projetos servem para lembrar a classe média de que a miséria existe, de que a periferia existe, mas produz muito pouco por sua formação cultural. São alertas para a sociedade culta, leitora, sobre determinada exclusão, como o fez Ferrez em Capão redondo ou Gilberto Dimenstein em Esmeralda – Porque não dancei, que traz o duro retrato da vida de uma menina de rua.

O que seria realmente novo e precisa ser feito é voltarmos a valorizar a leitura, o caráter formador da cultura, oferecer bibliotecas de qualidade com livros novos, que as pessoas queiram ler, que estejam presentes nas livrarias. Isso tudo parece muito distante, não? Talvez seja algo incendiário: basta uma boa iniciativa de bom alcance para mostrar o seu poder, e a reação em cadeia possa começar. Essa ideia toda, de trazer o popular para convencer do valor da leitura, não parece óbvia?

Critique, comente, divulgue e execute. Não deve haver limites para promover a leitura.