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Archive for the ‘Textos Publicados na Imprensa – Publishnews’ Category


Kate Winslet, David Kross

Kate Winslet, David Kross, no filme O Leitor – 2008.

Passados 1 mês da divulgação do relatório Retratos da Leitura 2015, decidi escrever também uma análise do quadro da leitura, pensando na premissa: Sim, agora temos os dados. Mas o que fazer com eles? Preferi olhar para os não leitores para discutir o que se pode fazer para incluí-los. Como formar gente que gosta de literatura?

Antes de tratar do tema preciso fazer uma correção. Contrariando o muito do que se disse em artigos, não houve  crescimento algum do número total de leitores. Na mesma pesquisa, Retratos da Leitura, realizada em 2007, 55% eram o número de brasileiros leitores; em 2015 esse número foi para 57%, o que significa zero, numa uma margem de erro de dois pontos percentuais. Os dados que alguns utilizaram para indicar crescimento foi na comparação com 2011. Vejamos:  eram 55% de leitores em 2007; 50% em 2011 e 57% em 2015.  Então, não, não houve crescimento por mais que se tente colar essa imagem de que as políticas foram acertadas. Sem que isso fique bastante claro vamos patinar nas políticas públicas para os próximos anos.

Eu me prendi em “ler” algumas telas focadas mais em quem não lê, e por quais motivos, para que cada grupo: pais, professores, editores, editoras e até gestores públicos possam pensar também em como criar políticas de inclusão dessas pessoas, porque não temos políticas realmente competentes do poder público e não devemos depender apenas dele. Não por nossos descendentes, por nosso mercado e mesmo para deixar algum legado.

Um resumo rápido desse recorte pode ser dito assim: 67% de todos os entrevistados disseram que ninguém os influenciou a gostar de literatura. 72% afirmaram que entendem que a leitura traz conhecimento e crescimento pessoal e profissional, e quase 60% de todas as pessoas tem como principal motivação para pegar num livro o prazer, entretenimento.

Tenho uma premissa comigo apreendida nos primeiros anos atuando como jornalista: se uma sentença está clara, mas muita gente não percebe a mensagem logo de cara quer dizer que não está clara o suficiente. Não para a compreensão dos fatos na velocidade da leitura é realizada hoje.

Se 2/3 das pessoas dizem que ninguém os influenciou pode indicar que:

1º. Os adultos não são bons influenciadores. Isto porque seguramente é na infância e adolescência que se adquire o gosto/hábito de ler. Esse tópico rende um bom debate de ideias e propostas.  Desde que a atividade de leitura possa ser mais bem trabalhada em atividades de grupo e por aí vai. Conversei sobre este tópico com Mariana Rolier, Editora do grupo Rocco e ela citou o seguinte: Os adultos não são bons influenciadores porque, 1o ou indicam livros adultos para jovens, principalmente na escola e/ou 2º possuem síndrome de “tio do gibi”: se apropriam do conhecimento e não permitem novas audiências, interpretações e visões, pois a superioridade lhe traz satisfação. Cabem aí os pseudo intelectuais, escritores decadentes, editores arrogantes. Em geral associados à frase: “Este público não é o meu”.

2º que pais, professores, figuras públicas não transmitem com seus exemplos e vida a mensagem de que chegaram lá por causa do estudo e dos livros. Por mais que acreditemos, não há uma mensagem forte em nossa sociedade do valor da literatura, que fixe tanto nas pessoas de forma a provocar uma revolução cultural. As campanhas para a leitura precisam dessa direção. Falar não adianta, como veremos a seguir.

72% dos entrevistados afirmaram que entendem que a leitura traz conhecimento e crescimento pessoal e profissional. Podemos extrair dessas respostas que temos um caráter utilitário associado à Literatura. Todos parecem entender a sua importância e utilidade. Mas o que essa premissa indica?  A falta prazer!

Como levar a ideia de prazer à atividade de leitura? Não. Não será transformando-a num big brother ou levando-a um show de Hip Hop. Construir a ideia de prazer, prazer real, associado ao interesse da infância, não da leitura que orgulham adultos (pais e professores), pode ser um bom caminho.

Sabem aqueles programas reality shows que ajudam pais a educar crianças? E outros, a donos a educar cachorros?  No fundo, a origem do problema sempre está no comportamento dos adultos.  E o princípio vale aqui. Se as crianças não leem é por causa de alguma estratégia errada promovida pelos adultos. Não vamos culpar as crianças. Estamos fazendo algo muito errado.

Prazer pela leitura 2Vejam como uma coisa está relacionada à outra. Todos reconhecem o valor da leitura para uma vida melhor, mas isto não é suficiente para que elas consigam tempo e interesse para ler. Quantas vezes vemos um adulto que tem plena consciência de onde começa o erro que o leva a repetir equívocos e mesmo com essa ciência não o faz mudar o próximo passo? Pense:  gente que não pode com bebida, com gordura ou cigarro. A ideia da saúde não é suficiente. Se adultos não conseguem mudar, diante de uma mensagem clara do que faz bem para eles no presente, porque devemos esperar que crianças passem a ler ao saber que isto será bom para o seu futuro?

Então, precisamos trocar a mensagem. Não, não devemos dizer que a leitura não é boa, mas, se preciso, vamos mentir, enganar, fazer o que for necessário* para convencer as crianças que o valor não está no que elas podem alcançar socialmente com a leitura. Vamos dizer que vai ser divertido, que vão rir, que vão se emocionar como se estivessem numa novela de época de Jane Austen (ou das 6h), ou que vão chorar com o drama de um personagem na vida real, ou que vão ter o desafio de desvendar o assassino antes do capítulo 6, ou que vão descobrir como as pessoas públicas mentem nos pequenos sinais entendendo um pouco de filosofia ou da linguagem do corpo. Enfim, os caminhos podem ser diversos, mas temos de priorizar o prazer.

*aqui é uma piada.

E por fim, casando com a resposta anterior, se quase 60% de todas as pessoas tem como principal motivação para pegar num livro o prazer, entretenimento, então vamos prestar a atenção nele. O prazer tem de ser o foco para formar leitores.

 

Mas para isso há um impedimento:

Cerca de 90% dos não leitores indicam uma dificuldade em ler: acham complexo, ler cansa, preferem outras atividades ou não encontram tempo. Há duas questões centrais, a meu ver, nestas respostas:

1º – O objetivo – O que se diz comumente para as pessoas que se pode alcançar com a leitura é mais uma frase de efeito que uma imagem concreta do que ela pode promover. As pessoas sabem repetir numa pesquisa sobre o valor dela, mas não acreditam de fato. Pelo menos não o suficiente para investir na atividade, insistir, achar que vale mesmo perder noites, dormir menos, largar a TV ou a ida ao cinema para ver o último lançamento que todo mundo está comentando para ler um livro que poucas pessoas estão falando.

E quem está comentando alguma coisa na imprensa sobre um livro? Quantos fóruns nas redes sociais, nos Jornais, nas TVs, portais de notícias e rádios estão discutindo o destino, a escolha feita por um personagem?  É preciso encher de literatura a vida das pessoas.  Se por um lado precisamos trabalhar na mensagem do prazer (e aqui refiro-me a todas as campanhas das entidades do livro e Minc, MEC, etc.) por outro precisamos que os meios de difusão da literatura pautem esses temas e incluam em seus canais espaço que estimulem esses caracteres da Literatura.

2º – e, o prazer da leitura para muita gente talvez esteja relacionado não apenas por falta de oferta de gêneros e tipos de livros oferecidos, mas também pela imensa dificuldade cognitiva. Assim, a atividade não está associada a um prazer. Essa é uma tarefa especialmente da Educação. Há algumas décadas a Educação deixou de investir no uso da Literatura como ferramenta na formação dos estudantes. Estivemos focados mais no estudo da língua. Conversei sobre o assunto com a Mestre em Literatura pela Unicamp, Emília Amaral, que tem mais de uma dezena de livros voltados à formação de novos leitores e que é  uma das maiores especialistas no assunto, porque tem um trabalho focado na ferramente prática. Ele me contou o que aconteceu com o ensino de Literatura e eu resumi: “A partir dos anos de 1970 desenvolveu-se um processo sócio-histórico-cultural por muitos denominado “pós-modernismo”. Sua principal marca consistiu na busca de anulação das diferenças, no sentido de democratizar a sociedade, abrindo espaço para os excluídos. Estes, os excluídos, chegaram ao centro do debate, trazendo suas linguagens, hábitos, culturas. A instituição escolar, por exemplo, relativizou a norma-padrão da linguagem. ”

Se para a inclusão de pessoas esse mecanismo trouxe algo positivo, para o estudo da Literatura, não.  Esse relativismo fez com que o estudo da Literatura passasse a acontecer sob forma de citações, extratos, fragmentos, pois o foco principal do estudo era agora a Linguagem.  E, por consequência, ela, a Literatura como obra, como estudo do texto completo, pouco a pouco foi perdendo a importância no ensino até quase desaparecer.

Como podemos formar leitores que praticamente leem apenas trechos de obras?

Aqui eliminou-se o prazer pela história. Focamos os alunos na análise de palavras, contextos culturais a partir de extratos. Donde pode-se imaginar que o problema está na base.  Salvo raríssimos professores, por iniciativa própria, por esforço pessoal, os demais seguem essa premissa que excluiu o prazer pela Literatura das salas de aula. Basta ver nas  questões dos vestibulares, na parte de Literatura, que está tudo ligado à linguagem ou à crítica social. Ninguém fala de beleza, das paisagens, das emoções ou do prazer.  Se queremos mais leitores, esta é uma discussão que precisa ser feita.

Hoje vou pedir aos leitores algo mais.  Claro, as críticas e comentários são muito bem-vindos, pois com eles posso saber o que pensam outras pessoas e corrigir meus equívocos. Mas gostaria que os leitores pudessem aproveitar esse espaço de comentários para citar cases, histórias de sucesso na formação dos leitores e dar sugestões. Assim, todos aprendemos uns com os outros.

Ps:  Quem quiser ver as telas em que me baseei e as somatórias para os números aqui apresentados elas seguem abaixo.
1ª  tela.

pessoas que influenciaram

67% de todos os entrevistados disseram que ninguém os influenciou a gostar de literatura.

Tenho uma premissa comigo apreendida nos primeiros anos atuando como jornalista: se uma sentença está clara, mas muita gente não percebe a mensagem logo de cara quer dizer que não está clara o suficiente. Não para a compreensão dos fatos na velocidade da leitura é realizada hoje.

Se 67% das pessoas dizem que ninguém os influenciou pode indicar que:

1º Os adultos não são bons influenciadores. Isto porque seguramente é na infância e adolescência que se adquire o hábito de ler. Esse tópico rende um bom debate de ideias e propostas.  Desde que a atividade de leitura possa ser mais bem trabalhada em grupo e por aí vai.

2º Que pais, professores, figuras públicas não transmitem com seus exemplos e vida a mensagem de que chegaram lá por causa do estudo e dos livros. Por mais que acreditemos, não há uma mensagem forte em nossa sociedade do valor da literatura, que fixe tanto nas pessoas de forma a provocar uma revolução cultural. As campanhas para a leitura precisam dessa direção. Falar não adianta, como veremos a seguir.

 

o que a leitura significa

Aqui, todos podiam dar duas algumas respostas. Totalizei 173%, então considerei que 17,3% aqui equivale a 10% dos respostas. Então entre 72% e 76%  das respostas afirmam  que entendem que a Leitura traz conhecimento e crescimento pessoal e profissional. Podemos extrair dessas respostas que temos um caráter utilitário associado à Literatura. Todos parecem entender a sua importância e utilidade. Mas o que essa premissa indica é?  A falta prazer.
3ª tela

principal motivação

Esta parte confirma a afirmativa anterior. Quase 60% de todas as pessoas tem como principal motivação para pegar num livro o prazer, entretenimento ( três primeiros tópicos somados). Os outros 24% citam exigência escolar, profissional, atualização. Então, vamos prestar a atenção nele. Novamente o prazer é o foco da nossa questão para tentar atrair leitores.
4ª Tela

razao para não ter lido

Cerca de 90% dos não leitores indicam uma dificuldade em ler: acham complexo, ler cansa, preferem outras atividades ou não encontram tempo.

 

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imagem artigoArticulistas sempre estão em busca de algum tema, e às vezes, procurando por um, acabam se deparando com outro. Repetidamente, até as descobertas cientificas, acontecem deste jeito. Este aqui nasceu assim: pensava em escrever sobre um tema e o desenrolar dele me levou a fazer novas perguntas, e acabei descobrindo outras coisas que estavam fora do escopo original. E, a despeito de atuar no mercado editorial por tanto tempo, elas ainda me pegaram de surpresa. Talvez façam o mesmo com você.

O tema que abordo hoje é a falta de uma cultura da leitura. Para isso, escolho para a reflexão a forma como tem-se criado “campanhas para a promoção da leitura”.

As poucas vezes que surgem essas campanhas de incentivo à leitura, seja no rádio, revistas ou na TV, quase sempre acontece uma variação sobre o mesmo tema. Primeiramente escolhem um influenciador. São chamados para capitaneá-la alguém do meio artístico num destes grupos:

  • a)Um artista consagrado de TV ou de teatro;
  • b)Um autor de livros que circula nos principais cadernos de cultura;
  • c)Um apresentador de TV de programa cultural/jornalístico.

Pense você em três personagens que pode ter visto encampando estas campanhas nos itens a, b e c.

1, 2, 3…

Antes de pedir uma reflexão, deixe-me lembrar sobre qual era a proposta: promover o hábito de leitura para quem não o tem. E daí, pergunto: estes personagens podem ser um exemplo a ser seguido pelo público-alvo? Será que são o melhor elo de comunicação com o público que NÃO lê. (Porque é uma campanha de incentivo à leitura, não para reafirmar o valor da literatura para quem já lê, certo?)

Provavelmente você chegará a conclusão de que, por mais credibilidade que tal personalidade tenha, ela não se comunica com, por exemplo, crianças de escola pública de periferia.

Quem seria então um bom influenciador?

Quando é preciso fazer uma escolha de representante para estrelar uma grande campanha de um produto são feitos estudos meticulosos, caríssimas pesquisas de opinião com o público-alvo. Isso não o teremos, afinal, trata-se de livro, veículo continuamente desprestigiado neste país e que não vai trazer retorno financeiro direto a empresas e raros foram os governos a tentar tratar a educação com alguma seriedade. Então, vou arriscar um palpite que me parece óbvio: o caminho seria partir para os heróis desse público hoje: cantores populares, jogadores de futebol, jovens ídolos.

Pedro Almeida defende que heróis do povo deveriam encabeçar campanhas de incentivo à leitura

Vimos tentando por décadas usar um ator consagrado de teatro e levá-lo para convencer as pessoas que não leem e nem vão ao teatro de que a leitura é um caminho de ascensão social, de dignidade, respeito. É uma tentativa cheia de boas intenções, mas carregada equívocos e talvez muito idealizado. Ora, se buscamos incentivar quem não lê por que se oferece o modelo clássico? Porque não oferecer o novo?

Imagine trocar um Paulo Autran ou Serginho Groisman por Neymar? Ou Cid Moreira por Anitta ou McGuinê? Vejo daqui uma torcida de nariz, mas continue.

Se estamos tentando “pescar” quem não lê, quem traria melhor repercussão? Não se aborreça ainda. Se você está lendo este artigo é porque não precisa de incentivo novo para ler.

Temos um problema sério no país. Os atuais grandes heróis não leem, não leram e não são relacionados no imaginário popular com uma sólida formação cultural. Os ídolos do futebol parecem, aos olhos de todos nós, que nunca precisaram estudar; os cantores mais populares ou sertanejos de sucesso parecem que abandonaram a escola cedo e esta foi a melhor escolha das suas vidas. Tivemos um presidente que não se envergonhava em dizer que não gostava de ler e não houve indignação suficiente da sociedade que o fizesse se retratar. Não à toa a cultura da ostentação se alastra e sustenta ideia de que não é preciso saber/estudar para alcançar sucesso, riqueza, realização material. Diante disso, a estratégia precisa mudar. Precisamos trazer estes heróis para o nosso lado.

Quantos garotos e garotas acham hoje que ler traz algo de útil para as suas vidas? Que a leitura é fundamental para que ele possa sair da perpétua situação de miséria? Sério. Não falo aqui de idealização ou discurso pronto que se você ligar uma câmera numa escola pública ou assistir a um episódio do canal Futura e fizer a pergunta, qualquer criança vai tentar dizer que sim, que ler é importante. Mas não é disso que estamos falando, de dialéticas, mas de prática, e todos os dados de leitura e educação desmontam essa farsa.

Nossa sociedade vive com a crença de que mais vale investir em jogos de azar, como a Mega-Sena ou num possível talento para futebol ou música que em qualquer outro que dependa de escola, estudo e leitura.

Imagine a continuidade dessa crença muito multiplicada pela juventude: primeiro a mais pobre e depois seguindo nas classes C e B. O resultado é um quadro desolador hoje e para as próximas décadas: jovens, sejam de qualquer classe, culturalmente pobres, perdidos, sem muita perspectiva, com ideias que não reúnem causa e consequência e, por isso, acreditando numa ideia de anarquia geral.

Ah. De onde você tirou essa ideia toda?

Foi de muita observação, mas vou contar dois casos, um deles, bem recente, que ilustram essa ideia.

No ano 2000, uma novela da Globo de Manoel Carlos, Laços de família, transmitida em horário nobre, o personagem central Tony Ramos era o dono de uma livraria e apresentava frequentemente livros durante as cenas. Quem trabalhava no mercado editorial naquela época sabe que cada livro que aparecia na tela acabava por vender muito, alguns foram parar nas listas de mais vendidos sem nunca a ter frequentado antes. E foi observado outro fenômeno: as livrarias passaram a entrar na vida das pessoas. Muitas, que nunca tinham pisado numa livraria antes, mesmo as de shopping, passaram a fazer. As pessoas consideravam que aquele era um chão que não pertencia a gente mais simples e a novela quebrou esse paradigma.

Outro, mais recente.

Em 2014, na época da Copa do Mundo no Brasil — apesar de todos os problemas na finalização das obras e no fato de que uma boa parte da população desacreditava na força do evento –, o Brasil entrou em festa logo que a Copa começou. Muita gente que estava indiferente sentiu que perdeu a oportunidade de festejar como sempre fez, e até lamentou não ter entrado no clima e comprado ingressos. Nossa Seleção estampava desde campanhas de marcas internacionais de cuecas a celulares. Ainda havia confiança na seleção Brasileira, então Neymar estava em alta e o casal Bruna Marquezine e Neymar estavam entre as maiores celebridades da época.

E nesse clima de festa, uma postagem publicada no Twitter sobre um livro é tido como o disparador do sucesso do livro de Isabela Freitas, Não se apega, não. Isso aconteceu no dia 01/07/2014, postado por Bruna Marquezine.

Recordem a cronologia: o tweet ocorreu logo depois de uma das vitórias brasileiras mais sofridas, contra o Chile, nos pênaltis por 3×2, nas oitavas de final. Na semana seguinte, o livro passa a dobrar as suas vendas. Pela lista do PublishNews, na semana anterior ao post, o livro vendeu pouco mais de 2,2 mil exemplares (http://www.publishnews.com.br/ranking/semanal/5/2014/7/4/0/0). Na semana seguinte, esse número saltou para quase 4,5 mil (http://www.publishnews.com.br/ranking/semanal/5/2014/7/11/0/0). E depois disso, entrou num círculo positivo de vendas que se seguiu por meses e tornou a autora uma das revelações do ano. Afirmar que o sucesso aconteceu principalmente por conta do Twitter ninguém pode, mas no mínimo fez uma blogueira teen emergir para as páginas de portais de notícias nacionais e ser citada nas reportagens da época.

Pergunto então: um personagem popular, identificado com o público menos leitor não seria mais eficiente numa campanha para a promoção de NOVOS leitores?

Se um tweet ou uma simples aparição de um livro numa novela teve esse poder, imagine uma campanha em que um ídolo sertanejo revele seu interesse por leitura ou lamente a falta de incentivo na infância, as dificuldades que teve por conta da falta de leitura, etc. Não tenho dúvidas que, se convidados, muitos topariam participar de algo assim.

E esse não é um fenômeno restrito à cultura brasileira: Oprah Winfrey, apresentadora de TV mais bem paga dos EUA por muitos anos, que tem uma história e imagem pessoal relacionada com ascensão social – teve uma infância muito pobre, foi vitima contínua de abusos e conseguiu através da dedicação aos estudos dar uma guinada em seu trágico destino – tornou-se capaz de transformar qualquer livro que indicasse num grande sucesso. Mark Zuckerberg, criador do Facebook, a ferramenta social que tem revolucionado nosso mundo, sobretudo entre as pessoas mais jovens, também tem feito indicações de livros. Ele é um ídolo para uma parcela enorme de pessoas entre 20 e 30 anos. E cada vez que apresenta uma obra, milhões de seus seguidores acabam por levar o livro a vender números impensáveis. Em todo o mundo.

Esse é um convite para que paremos de chover no molhado e realmente invistamos numa cultura de leitura. O hábito de ler é como aprender a andar de bicicleta, quem é “contaminado” por ele mantêm a leitura como um valor perene. E reconhece tudo o que ela lhe pode trazer para a vida pessoal e profissional.

Vale, contudo, um alerta, para o qual utilizo o dístico da bandeira paulista: “Non ducor, duco”. Não serei conduzido, conduzo. Algumas pessoas, com as melhores intenções, confundem muitas vezes o processo, o fazem de modo invertido e acabam por achar que levar a cultura de livro à população que não lê é produzir material sobre as culturas de periferia.

Veja como é comum encontrar propostas como uma biografia de uma moradora de rua, de um projeto social, um dicionário da periferia e nossa sociedade achar que se está criando uma cultura de livro, que está democratizando a literatura, que estamos incluindo estas pessoas. Eu acredito que não (ou muito pouco). Estes projetos servem para lembrar a classe média de que a miséria existe, de que a periferia existe, mas produz muito pouco por sua formação cultural. São alertas para a sociedade culta, leitora, sobre determinada exclusão, como o fez Ferrez em Capão redondo ou Gilberto Dimenstein em Esmeralda – Porque não dancei, que traz o duro retrato da vida de uma menina de rua.

O que seria realmente novo e precisa ser feito é voltarmos a valorizar a leitura, o caráter formador da cultura, oferecer bibliotecas de qualidade com livros novos, que as pessoas queiram ler, que estejam presentes nas livrarias. Isso tudo parece muito distante, não? Talvez seja algo incendiário: basta uma boa iniciativa de bom alcance para mostrar o seu poder, e a reação em cadeia possa começar. Essa ideia toda, de trazer o popular para convencer do valor da leitura, não parece óbvia?

Critique, comente, divulgue e execute. Não deve haver limites para promover a leitura.

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Como salvar o mercado editorial – Sobre os fomentos para a formação de mais leitores.

Diálogo de um filme:

“A receita de um romance comercial?  Uma fórmula fixa:  Um casal com química. Encontros casuais, forçados, ridículos. Desses que acontecem como por mágica. Nós assistimos a cena e não entendemos o critico 4nada. Na vida real eles jamais se olhariam. Mas é o gênero (do romanção) que manda e tudo deixa de ter sentido, o mundo e o romance. Acrescente personagens pitorescos, violinos nas cenas românticas e um desencontro causado por um mal-entendido. Não se esquecer da chuva, muita chuva. No fim, uma corrida. Não sabemos por que nem para quê. E claro, um monólogo de uma declaração, perfeito para o óbvio happy end. Tudo para alcançar o final, com um beijo longo e melado. ”

Assim, o personagem central de O Crítico explica para uma jovem que o que ela gosta é um ruim.  Trata-se de um delicioso filme argentino que consegue juntar um personagem de nicho numa película comercial.  E nem precisou ter Ricardo Darín no elenco.

O filme conta a história de um crítico de cinema típico, focado em aspectos estilísticos da sétima arte, ver sua vida se transformar no seu pior pesadelo: um romance típico dos filmes que mais odeia. Carregado de clichês.

o-criticoHá várias cenas para destacar, diálogos cínicos, cortantes, inteligentes, e separo uma, quando ele recebe um

ultimato de seu editor, no jornal em que publica suas críticas: “Há três semanas você vem surrando esta distribuidora de filmes. Este aqui é um filme para assistir comendo pipocas. Que mal pode fazer?  Ele responde: Faz mal ao bom gosto deste país!  O Editor responde: Você é um terrorista do gosto! A última vez que você deu cinco estrelas foi há 20 anos. E nós festejamos como se fosse feriado nacional. ”

Enfim, eu me diverti muito e não pude parar de pensar em quando vamos ter filmes brasileiros com temas universais (fora do trio violência/palavrão/miséria). Quem não assistiu, acho que é uma ótima pedida. Ele tem muito humor enquanto faz a crítica. Todo mundo se traveste de seus personagens sociais. Alguns ultrapassam uma barreira e transformam sua vida no personagem.  Mas quando confrontados com a vida, ninguém está acima de sua própria humanidade. No filme se pode enxergar o que acontece quando uma pessoa se torna escrava de suas próprias crenças. E as crenças que criam a sua vida. Pode ser uma religião, um estilo de vida, o círculo social (a turma da maromba, punk ou de cinéfilos). Qualquer fator externo pode criar isso. E é falso.

Me valho deste filme para comentar alguns avanços que tenho assistido no mercado editorial.

Quando escrevi, há mais de 4 anos o artigo, Precisa-se de novos críticos literários, indicando a falta de espaço nos jornais e revistas, e de críticos habilitados para escrever sobre livros não literários (infantil, juvenil, literatura policial, thriller, etc.), obras que não se enquadram na chamada alta literatura, naquela época não havia gente escrevendo sobre literatura comercial e de nichos nos grandes veículos.  Mas algo vem mudando. Desde o início deste ano, temos em O Globo, Raphael Montes, o principal “produto” deste novo mercado mais aberto, jovem autor de romances policiais de sucesso, e que surge meio que como um bandeirante, conquistando espaços e cada vez mais leitores. Paula Pimenta, autora bastante conhecida, que desbancou estrangeiros do posto mais almejado por semanas neste mês de Junho, a lista de mais vendidos de ficção. Desde 2013, ela também passou a ter uma coluna em que comenta livros na Revista Veja. Danilo Venticinque, que até setembro está de licença da Revista Época para um mestrado na Inglaterra, é um dos jornalistas focados em literatura que aborda os preconceitos de nosso mercado num veículo grande. E estes são apenas três exemplos, mas que tem sido frequentes em outros jornais e revistas, impressos e on line, por todo o país.

Há outras frentes que ainda não acordaram para este novo Brasil, que repete cotidianamente a ladainha de que quer se tornar mais educado = leitor.  As festas e os prêmios literários.

As festas e festivais, salvo raras exceções, continuam tratando a literatura comercial com pouco apreço. Quando convidam algum autor parece um tipo de mea culpa ou agulha num palheiro.  Os autores aparecem como exceção, perdido num meio de intelectuais, mais que de grandes ficcionistas.  Acha que estou exagerando? Veja as listas de presenças das festas literárias por todo o país.

Os prêmios, esses continuam com ouvidos moucos, ignorando a imensa produção de literatura sobre gêneros como policial, jovem adulto, novo adulto, terror, suspense, fantasia, aventura, ficção científica.

Decidi escrever sobre esse assunto depois de ver no resultado do Prêmio SESC de Literatura, que contemplou apenas duas categorias, Contos e Romance. Com o resultado divulgado, em apenas uma semana, quase 70 comentários dos leitores irritados. Claro que é simples de imaginar que todos aqueles que não ganharam possam ficar irritados. E o fato de o SESC abrir em sua página espaço para receber críticas seja uma postura bastante corajosa e de transparência. Mas lendo o que as pessoas escreveram percebi que estavam descontentes também por outras coisas. E não só por causa do prêmio SESC, mas uma espécie de descontentamento com os outros em todo o país. Um prêmio nacional literário que abrange apenas Contos e Romance já é bastante restrito.  Mas vi na reclamação dos leitores outros detalhes:  que gênero de contos e romances se pretendia selecionar?  Isso parecia não estar claro para os participantes. Vamos a um exemplo: Imaginemos um dia que tenhamos um prêmio para livro policial. No Brasil, um Robert Ludlum, de A trilogia Bourne ou um Ian Fleming, de James Bond, jamais ganhariam um prêmio por aqui. Mesmo em gêneros “comerciais”, quem ganharia seriam os autores literários, aqueles que fazem de um livro policial se tornar uma peça de alta literatura, (não importa se é chato, ou fraco na ação ou trama).  E foi um tanto disso que observei na reclamação dos leitores.  Para eles o Prêmio escolheu os textos por critérios exclusivamente literários, aqueles que são distinguidos mais pela forma. Vale citar que originalidade, ritmo, timing, tema, drama psicológico são algumas das dezenas de atributos que um conto ou romance pode conter.  Quem tiver curiosidade, veja os comentários no link abaixo.

http://www.sesc.com.br/portal/blog/premiosesc/post/vencedores+2015

Na época daquele artigo, uma espécie de “procura-se novos Críticos de Literatura”, fiz algumas previsões. Nada do outro mundo. Para mim apenas as consequências de um mundo em que as influências não podem ser mais impostas de cima para baixo, e isso inclui o consumo de literaturas. Dizia que suplementos literários diversos iriam fechar, por continuarem se comunicando com um público pequeno, e que feiras de livros voltadas para os mercados marginalizados como o jovem, o geek e nerd iriam surgir mais fortes, talvez esvaziando a força das grandes feiras. Ambas as previsões aconteceram. Só para dar um exemplo das feiras, uma delas, a ComicCon, ocorrida em SP no ano passado, tinha ingresso individual de R$ 120,00 e foi um enorme sucesso enquanto todos os anos se reclama do preço do ingresso de R$ 13,0 da Bienal do Livro. Na época do artigo percebi que algumas pessoas ficaram irritadas com as previsões. Mas o que fazia não era uma torcida, mas um alerta. Esse movimento de público está acontecendo e as instituições e empresas que souberem se comunicar melhor com o público terão melhores resultados.

Essa ideia de que se deve premiar e valorizar apenas a excelência literária está tão arraigada em nosso meio que muitas vezes as pessoas concordam com a ideia de dar mais abertura para outros projetos menos literários mas acabam não percebendo que esta ideia persiste em outras áreas. Veja, por exemplo, os incentivos para a publicação no Brasil e para os programas de apoio à tradução.  Estes continuam sendo destinados aos livros e gêneros essencialmente literários. E onde está o problema?  Se há poucos críticos na imprensa aptos a resenhar livros comerciais, adultos ou juvenis, e o mesmo ocorre nos casos de prêmios literários, quem dirá o que acontece na maior parte do que se escolhe para acervo das bibliotecas, na decisão do que merece apoio de tradução no exterior, etc.  Ou seja, não adianta abrir um prêmio para livro policial ou decidir que passaremos a incluir livros juvenis nas compras de bibliotecas sem saber o que jovem quer ler. Senão, por modo automático, vamos continuar a premiar apenas autores de policial consagrados nos cadernos de cultura e lidos pelos mesmos de sempre e a selecionar obras apenas de Pedro Bandeira e Ruth Rocha. E o que se queria, promover mais a leitura, se perde.

Nós desejamos tanto a ampliação da cultura, da leitura, mas batemos sempre na mesma tecla. E este é o tema principal que quis tratar aqui: queremos aumentar o acesso das pessoas à cultura de livros, mas nossos esforços: imprensa, festivais, prêmios continuam focados apenas no mercado que já existe.  Não mudamos quase nada nessa forma de olhar. Mas o mercado mudou. O livro infantil que uma criança recebia na infância 30 anos atrás era indicado pela escola ou escolhido pelos seus pais. Hoje não é mais assim.  Muitos, como eu, tiveram acesso à cultura por um esforço muito pessoal, pois não havia facilidades para nós 30 anos antes. Mas não precisa ser assim. Até porque os garotos e os adolescentes de hoje decidem o que é bom para eles, muitas vezes em grupo, sem a mesma influência do mundo adulto. O desafio agora não é força-los a ler o que queremos, mas quebrar nossos paradigmas e oferecer mais opções contemporâneas. Ou seja, somos nós que precisamos mudar a forma de conduzir este assunto.

Dia desses lia um artigo que falava da necessidade de apostar na criatividade do brasileiro para lidar com o momento de crise que estamos atravessando. Para o setor editorial, aumentar o número de leitores sempre me parece a melhor saída dentre todas as discussões que estamos fazendo recentemente.

No entanto, justamente setores não diretamente ligados à própria indústria do livro e à cadeia de educação é que reagiram rapidamente e lógico que foi por motivos de mercado, porque querem ter mais leitores. Jornais e revistas inserindo a divulgação de autores e literatura comercial em seus espaços foi uma ótima reação. Mas é só o começo, ainda não há resenhas.

Falta agora que as compras governamentais, que as compras para bibliotecas pensem nesse público e incluam mais livros que os jovens querem ler. Que os prêmios literários incluam os gêneros comerciais em sua premiação. Que os incentivos de tradução no exterior passem a incluir os autores comerciais brasileiros; que as feiras e festas literárias tenham mais debates com autores conectados com o grande público e não apenas espaços para autógrafos. Só assim daremos um bom passo para a educação, para a formação de novos leitores, e até mesmo para, como dizem, salvar o mercado e as livrarias.

O Crítico, no filme, consegue perceber que ama uma pessoa bem diferente do que imaginou para si. Ele se permite a ter um relacionamento real, sem os preconceitos do universo social que o cercava. O novo romance surge como uma grande aventura, cheira de riscos, brega, mas com novas possibilidades. Aí terá de fazer uma escolha.critic 3

Sempre podemos aprender e mudar algo em que acreditávamos. Há crenças que envelhecem com o tempo. Quantos preconceitos decidimos não herdar dos nossos pais e avós porque pertenciam à sua época? Abrir o espaço que hoje existe para outras áreas da Literatura não é dividir o bolo que já é pequeno, mas pô-lo para assar, e deixar seu fermento fazê-lo crescer.

O filme está disponível no Telecine. Quem tem acesso ao canal, pode assistir on line, gratuitamente. Para assistir na TV é pago.

http://globosatplay.globo.com/telecine/v/4060859/

Meu artigo anterior:

https://faroeditorial.wordpress.com/2012/04/25/precisa-se-de-novos-criticos-literarios-publishnews/

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capaPara o tema de hoje proponho um retorno às Humanidades e vou me apoiar em dois filmes:  Dançando no Escuro, 2000, de Lars Von Trier, com a cantora Bjork e Catherine Deneuve; e Detachment (Indiferença), que foi traduzido como O (Professor) Substituto, 2011, de Tony Kaye, com Adrian Brody, James Caan, Lucy Liu entre outros ótimos atores.

Penso que de uma ou outra forma, quase todo mundo se pergunta como passamos a viver num mundo em que dados e “aparências” valem mais que a palavra. Há um conceito antigo que se perdeu e nossa sociedade: A Palavra de alguém era como honra, tinha valor, carregava o crédito de uma vida. Servia para fechar negócios, assumir dívidas e ou compromissos. Então, isso foi se perdendo pouco a pouco até que contratos com multas, índices e juros tomaram o lugar da honra, e isso foi, pelo que me lembro, o início da nossa grande decadência.

Dançando no Escuro conta a história de uma moça muito simples, com uma doendancando no escuro bjorkça hereditária que irá levá-la a cegueira, ainda jovem.  Para evitar que seu filho tenha o mesmo destino, ela junta todo o dinheiro de uma vida a fim de pagar por uma cirurgia preventiva. No entanto, muita coisa acontece e acaba acusada de assassinato. Todos percebem que ela nunca teria condições de cometer o crime, mas como estão apoiados em evidencias aceitas pelo sistema judicial (era quem estava no local com malandro morto, restava como culpada). E ficamos todos boquiabertos, irritados, Detachmenttristes ao final do filme porque reconhecemos que tudo o que acontece ali na ficção é um reflexo de um sistema falido de julgamento binário, burocrático e que se repete o tempo todo em nossas vidas.

Nas últimas décadas de grande avanço tecnológico temos substituído inescrupulosamente a razão por dados, a verdade por uma cadeia linear de provas, aceitando como efeitos colaterais todas as injustiças que se cometem para fazer o sistema de dados funcionar. E se isso acontece nas empresas fundadas sobre as áreas de Humanas, como eLRA_detachment_1ditoras, escolas, universidades, pode-se imaginar o que ocorre com as demais. O que tenho visto é que aceitamos subjugar as Ciências Humanas às Exatas cotidianamente por diversos motivos e maneiras. Vejamos:

Sobre os dados e estatísticas, já aprendemos que podem ser manipulados para tantos lados que você pode pode obter respostas opostas tendo os mesmos números em mãos. Agora mesmo leio que a escola pública, onde estudou o aluno que tirou o 1º lugar do ENEM 2014, ficou quase na posição 600 dentro do Ranking total de escolas. Poderia exaltar a escola ou puni-la, bastando nos fixar nas extremidades desses dados.  Numa análise que diriam superficial, sem fazer entrevistas, mas apoiado no conhecimento de Humanas, eu poderia supor, quase com absoluta certeza, que o mérito não foi da escola, mas do aluno.  Mas é provável que você, mesmo concordando comigo, ainda prefira que se instaure uma auditoria da Price Waterhouse ou da Deloitte para que se possa dar uma opinião ou mesmo tomar uma decisão a respeito. E onde isso acaba? Somos assolados por tanta informação todos os minutos que depois de um tempo esquecemos desse fato, de ter pedido a confirmação dos dados, da análise, da auditoria, e o tema perde a necessidade e permanece indefinido.

Confiamos tantos em dados, índices e estatísticas que nos esquecemos de que eles são utilizados o tempo todo para nos fazer consumir, desejar, tomar um partido, enfim, nunca estão imunes de alguma intervenção.

É que confundimos dados com Matemática, e esta armadilha nos faz pensar que são exatos. Mas dados, mesmo quando verdadeiros, são burros. Pode-se justificar atos de toda a espécie, mas sobretudo tirar do ser humano a capacidade de analisar, de decidir, de discutir. A ferramenta mais imoral de um discurso pode ser um dado não verificado posto numa discussão como fato, já revelava Schopenhauer numa das 38 estratégias para vencer qualquer debate.

Como o foco deste artigo é o mercado editorial, vou trazer alguns exemplos desta área, mas que qualquer pessoa poderá enxergar também em outras áreas de atuação. Este mercado, que é fundado sobre áreas de humanas: letras, história, filosofia, artes, psicologia, línguas e literaturas tem se rendido a processos burocráticos, planilhas, índices, de tal forma que a arte, a humanidade desse segmento, acaba muitas vezes desprezada em benefício de um automatismo administrativo.

Não estou me referindo aqui aos processos administrativos, sistemas de controles de toda ordem para lidar com a gestão do negócio, mas criticando quando estes sistemas são priorizados em aspectos puramente artísticos, filosóficos, editoriais, por exemplo. Exemplos: departamentos como Jurídico e Financeiro atuam em editoras, livrarias e distribuidoras muitas vezes criando empecilhos para processo quando criam contratos sem maleabilidade; sistemas de comercialização e documentação fiscal sem flexibilidade; ou a mudança de acordos no meio do caminho sobre relações de confiança, entre autor e editora: é aquela parte que não se resolve por contrato. De tanto observar a repetição dessas cenas, tive de forjar um princípio em minha cabeça, que ouvi pela primeira vez do editor Quartim de Moraes, para demonstrar aos demais setores como reestabelecer o conceito dentro de uma empresa editorial: Manter o objetivo em foco e qualquer coisa, por mínima que seja, que venha atrapalhar esta finalidade, deve ser reconduzida ao seu lugar.

Em uma editora, o objetivo maior é o livro; em uma empresa de calçados, o calçado; em um restaurante, comida e atendimento, não o sistema de gestão, de contratos, de pagamentos. Numa livraria, quem importa é o público que a procura.  O conceito não é novo, mas raramente é posto em prática.  Lembro que na Livraria Cultura, onde trabalhei décadas atrás, qualquer funcionário, não importando se fosse um gerente de operações ou assistente de marketing, ao ser interpelado por um cliente sobre um livro se tornava imediatamente um vendedor, um atendente.  No entanto, o que se formou nos dias atuais são setores, dentro de empresas, que buscam se tornar importantes em si, em detrimento de toda a finalidade da companhia. E a isso credito essa supervalorização dos sistemas, dos processos.

Esse conceito surgiu visando trazer uma organização para a gestão de empresas mas me parece que creditamos as burocracias um valor exagerado. E nesse campo, vejo que um dos motivos é que, como são subjetivas as decisões ligadas às questões artísticas, humanas, subjetivas (dão trabalho e precisa-se refletir), tomar uma decisão por aspectos esquemáticos nos livram da culpa, pois as responsabilidades podem ser diluídas. Os equívocos baseados em planilhas geram uma investigação que, na maioria das vezes, vai revelar alguma série de procedimentos errados e uma falta de autonomia, e não podendo responsabilizar o sistema burocrático, ninguém será responsabilizado ( e mantido). Essa burocracia atua, por exemplo, no ambiente universitário, de modo cruel. Quem não se recorda de ter professores, com mestrados e doutorados brilhantes mas incapazes de transmitir conhecimento? É que o MEC obriga as universidades a terem 1/3 de seus professores com Mestrado e Doutorado. Não seria mais adequado exigir que soubessem ensinar? De novo, o poder máximo da Educação pautando suas decisões por números burros. Não foi por acaso que uma pesquisa da Revista Nature revelou semana passada que nossa produção científica é das mais medíocres do mundo.

Lembro de ter ido a uma reunião com um autores que representei e iríamos fechar uma série de livros numa editora. Para a reunião foi convidado um profissional de marketing.  Cada um falou um pouco, e quando ele abriu a boca para opinar sobre o conteúdo do projeto disse apenas: “Já vejo a chamada na Folha de São Paulo:  Grupo tal agora em  2.0”.  Enfim, ele não estava nem interessado no projeto, mas em criar um entorno para o seu trabalho, que certamente demandaria muitos recursos, bem como uma cara campanha. E isso acontece o tempo todo. Acontece porque continuamos a ouvir propostas como essas e consideramos relevantes, porque certamente seria uma notícia que iria circular, porque teria muito mais gente da área de cultura interessada em falar do tal projeto 2.0, que de um projeto altamente educativo e cultural bem realizado.

Perdemos o sentido para o que é o realmente importante: Um título ou uma didática? Uma chamada de marketing ou um produto de qualidade? Índices ou aproveitamento? Vendemos nossas almas a um mundo de dados cegos e que elegemos como guia para tudo. É que fechamos os olhos para o “jogo de cena” que se faz, e depois reclamamos dele.

Penso que o mundo seria um pouco melhor se parássemos de dar tanta atenção aos números, aos dados, às tecnologias. Valorizamos tanto isso que frequentemente somos manipulados. Num livro em que trabalhei para a Editora Saraiva, uma biografia sobre Henry Ford, um jornalista equiparava Ford a Steve Jobs. O autor discordou. E demonstrou que a criação do carro trouxe aspectos muito mais revolucionários, porque com ele veio a ideia de encurtar distancias (e tudo isso tem a ver com o processo de globalização, acesso à informação, turismo e consumo). Isso revolucionou desde o acesso a alimentos de todo o mundo à ideia de que podemos comprar um casaco da China ou ter acesso rápido a medicamentos para tratar do Ebola. Algo muito superior que um aparelho que nos tirou toda a atenção do mundo real e criou em nossa sociedade uma dependência por informação, jogos, acessos e contatos por redes sociais. Comparar um com outro não tem qualquer ponto de equilíbrio, e imagino que, no futuro breve, vamos descobrir o buraco que nos enfiamos ao adotar o smartphone, que vem formando gerações cada vez mais incapazes de trânsito social.

Veja este curto link, do filme O Substituto. Uma cena que tem a ver com a reflexão que proponho aqui. O filme conta a história de um professor substituto tendo de lidar com uma classe muito difícil. Perto dele, o Mentes Perigosas estrelado por Michelle Pfeifer se torna uma bobagem. Na cena aqui, o professor aproveita o xingamento que um menino faz (e o palavrão não foi legendado) para demonstrar como nossa Cultura reafirma mentiras, que nós sabemos que são mentiras, mas aceitamos.  https://www.youtube.com/watch?v=9D2G7EWqmBQ

Que em 2015 valorizemos mais as Ciências Humanas. Que possamos reassumir a discussão todas as coisas sob um aspecto que leve em conta o que sentimos de fato, e não seguindo um roteiro. Senão estaremos nos tornando reféns dos nossos processos robóticos, escravos das máquinas, algo “profetizado” por Isaac Asimov na sua série de contos condensada no livro, Eu, robô. #maishumanasmenosexatas

Se tiver interesse em assistir ao segundo filme completo, o que recomendo, não encontrei onde comprar, mas é fácil encontrar links em todos os idiomas no youtube. Se quiser comentar, escreva logo abaixo.

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Ganhador do Oscar de melhor filme em 2012 (o primeiro de uma produção francesa da História do prêmio), e mais dois: melhor diretor e melhor ator, o filme em PB e mudo numa época em que a sétima arte tenta se reinventar a partir de caríssimas tecnologias, O artista foi a grande surpresa da festa daquele ano.capa

 A história se passa numa versão de Hollywood dos anos de 1920 e conta o momento em que o cinema recebe o avanço da sonorização, alavancando novos astros, decretando o fim de uma era do cinema e levando à decadência os que não conseguiram se adaptar à inovação.

George Valentim, personagem interpretador por Jean Dujardin, era o grande astro da época: com seu sorriso iluminado e olhar sedutor, transformou-se num mestre da arte de comunicar sem falas, até que a indústria começa a testar a inclusão de voz nos filmes. Ele acreditava que aquele avanço tiraria toda a beleza e arte do cinema, mas também estava inseguro. No terreno do cinema mudo ele reinava, mas agora, todos os grandes produtores queriam testar o cinema falado.foto 2

Valentim tentou frear o avanço do som, mas logo foi vencido pela indústria, então decidiu passar a produzir seus próprios filmes. Para fazer uma nova película, financiou do próprio bolso, gastando toda a fortuna que acumulou no decorrer dos anos. Seu filme concorria agora com a atenção da novidade sonora e produções faladas e, mesmo protagonizadas por atores ainda desconhecidos, levaram sua tentativa ao fracasso, e então foi à bancarrota.

O filme continua, não se trata de uma história triste, mas é até aqui que eu gostaria de citar para ilustrar um momento bom de discutir literatura. Fiz sobre o filme alguns apontamentos que gostaria de compartilhar.foto 3

Porque o astro não quis incorporar o som em seus novos filmes?

Porque achava que perderia parte do acervo teatral para o qual estava mais preparado. E, para isso, decidiu até investir sozinho como ator e produtor ao mesmo tempo, ignorando o que o público queria. Estava cego, apaixonado por uma ideia e tentando prová-la a qualquer custo.

Porque os produtores queriam incluir som em seus novos filmes? 

Porque a novidade indicava um desejo do público em ouvir as histórias de modo mais natural. O cinema não era mudo por opção, era por falta de tecnologia. E os produtores viam o interesse vívido de mais público por uma história falada.

Parece irônico apresentar um filme sobre a decadência do cinema mudo com um filme vencedor de três Oscars. E mais porque o tema de hoje é a sacralização do passado e a consequente tendência dessa ideia ao fracasso- , porque ela inclui uma tentativa da não renovação. Mas é o que vou tentar.

O paradoxo de Valentim e o mercado editorial

Todo mundo ligado na área editorial deve ter lido algo a respeito da polêmica acerca das edições adaptadas de Machado de Assis nas últimas semanas, projeto criado pela escritora Patrícia Secco. Sem entrar em sua defesa, porque Patrícia não é nova no mercado e tem um trabalho social para mostrar, o melhor que aconteceu foi levantar essa discussão toda. Certa vez, quando criei uma série de marshups de obras literárias, recebi uma série de vaias de críticos, e um jornalista de Blog escreveu: Quando toda a massa de críticos se opõem violentamente contra uma proposta literária, devemos prestar atenção: alguma coisa boa pode estar surgindo. Não vou dizer se uma obra é boa ou ruim, mas sei que a discussão, essa sim, é ótima.Há muita gente que desconhece a realidade fora dos grandes centros e das escolas particulares. E que, quando gente inteligente, escolada, educada escreve de forma irracional, beirando desequilíbrio, contra uma proposta que tem mais pontos positivos que negativos, algo grande e importante pode estar surgindo e não estamos enxergando. Esperei algumas semanas passarem para tratar desse assunto por dois motivos:

  • Evitar que as paixões continuassem a interferir nas opiniões que povoam o nosso cotidiano,
  • Reunir os pontos centrais dos contrários a ideia deste projeto, para apresentar contrapontos.

O projeto angariou recursos para distribuir gratuitamente 600.000 livros em escolas de periferia por todo o país. Era para ser uma ação de grande alcance social, mas logo na primeira matéria foi tratada como escândalo. Os jornalistas usaram expressões como simplificar, macular, mastigar, reescrever, alguns sugeriram cadeia para ela, entre outras coisas piores ao criticar o seu trabalho, e quase todas mostraram um único exemplo de simplificação de palavra proposto pela equipe de Patricia: sagacidade por esperteza. Claro. Não eram a matérias isentas, mas editorialistas.

A matéria ainda duvidou da capacidade de adaptação da equipe de Patrícia. Esperava ter nomes famosos para a execução do projeto, como se isso garantisse um padrão de qualidade excelente, e num trabalho que não teve por interesse atingir os leitores de alta literatura.

O caso me pareceu em alguns aspectos como o que aconteceu com a divulgação bombástica dos dados da pesquisa do IPEA sobre o estupro: todo mundo saiu para tomar uma posição sem refletir sobre como a pesquisa fora executada e os critérios de interpretação dos dados – boa parte da polêmica apaixonada foi por terra diante da retificação feito pelo IPEA.

No caso da adaptação dos livros, a crítica contrária foi numericamente gigantesca em relação aos parcos apoios. E a causa maior da leitura, da apresentação de um autor como Machado distribuído gratuitamente para crianças, algo que poderia seria tratado com louvor, foi alvo de uma avalanche de críticas e assolou todos os meios de comunicação, de redes sociais a comentários das dezenas de matérias que circularam por todos os jornais. Houve quem assinasse um manifesto para proibir a edição adaptada – que já conta com10.000 inscritos. Duas exceções dentre os grandes veículos foram as colunas do Danilo Venticinque, da Revista Época, e uma matéria do Estadão que apresentou críticos favoráveis.

Tentei então coletar os motivos das principais críticas encontradas em jornais, revistas e redes sociais para testá-las e, em vez de me debruçar sobre cada suposição, e apresentar um contexto lógicos das principais críticas.

1 – O trabalho que ela fez não é adaptação. 

O que é uma adaptação?  É adaptar algo. Neste caso, um livro adulto para uma criança com baixa escolarização.

Muitos disseram que o que foi feito era diferente de uma adaptação e houve até quem dissesse que um texto de Machado não deveria ser adaptado. É justo respeitar uma opinião, assim como se deve respeitar a liberdade de outrem ter outra ideia e fazer algo diferente.

Outras formas de adaptação: Tradução. Qualquer livro em português de autor internacional é uma adaptação, com seus sinônimos para as palavras originais. Resumir, focar num público juvenil, infantil, de quadrinhos são versões de adaptações.

A adaptação está presente em nosso cotidiano desde a criação do mundo, porque foi do olhar de alguém, ou da tradição oral, passada por gerações, que temos tudo. Bíblia e todos os textos sagrados, documentos literários históricos e suas versões feitas pelos copistas etc.  Inclusive, o texto mais sagrado para o mundo ocidental, tem sua versão “para os dias de hoje”, porque teólogos perceberam em algum momento que fazer as pessoas lerem a Bíblia era mais importante que usar a palavra mais próxima do original de sua época, que ainda seria um sinônimo. É possível que muitos leitores desta coluna que conheçam a música “Monte Castelo”, do Legião Urbana, possivelmente encontrarão em suas Bíblias versos diferentes daqueles cantados por Renato Russo, pois a tradução de João Ferreira de Almeida possui a versão corrigida e revisada e a revista e atualizada, em que caridade, por exemplo, passou a se chamar amor. Até o início dos anos 80, as traduções no Brasil não eram alvo de muito estudo, debate crítico e, não raras vezes, o que se consumiu foram traduções medianas de grandes clássicos, e em geral, traduzidas sempre do Inglês.

Além disso, em todos os países do mundo antigo, seus autores mais clássicos têm versões de suas obras simplificadas tanto para ensinar seus idiomas a não falantes quanto a crianças – ou alguém acredita ter lido a tradução mais fidedigna da edição original dos irmãos Grimm na infância?

Com isso chego a outro ponto levantado:

2 – O risco de empobrecimento da linguagem

Durante as críticas, foi afirmado que adaptações e as versões populares poderiam prejudicar a formação cultural de nossos estudantes.

Se até os anos 80 grande parte de nossas traduções não era ótima, quase todas produzidas a partir do inglês, independente do idioma original, e isso formou os maiores intelectuais do país, porque agora iriam prejudicar leitores em formação? Quem leu clássicos internacionais nos anos 80 ficou com sequelas disso, com um vocabulário inferior? Acho que não.

Mas para quem estas obras do projeto se dirigem? Para crianças. Faça o teste sem refletir muito: qual o sinônimo de sagacidade, o termo que foi escolhido do projeto de Patricia, alvo da crítica central sobre a adaptação de Machado?

Todo mundo responderá “acuidade”, “discernimento”, “agudeza” e, especialmente, “ESPERTEZA”. Fiz esse teste com mais de 30 pessoas do meio editorial e “esperteza”  foi, varrido, o termo escolhido para a troca. Ouvi críticos dizendo que sagacidade é uma palavra que carrega outros sentidos…  Mas novamente estamos invertendo os pesos e esquecendo o objetivo da proposta. Se há um termo difícil de definir, entre nós, adultos, não vamos exigir que leitores jovens, em formação, fiquem com o dicionário ao lado. Outro mito amplamente difundido mas que não conheço um adulto que continue uma leitura por prazer, se tiver de consultar o dicionário a cada grupo de páginas.  Ah! mas se não se entende e pode usar um dicionário, não é isso o que o projeto de Patrícia propôs?  E, se seguíssemos esse princípio purista, de só permitir o melhor, deveríamos passar a nos preocupar com a formação dos professores. Num país em que muitos dão aulas a jovens em ensino médio que mal sabem ler, e od próprios mestres, com parcos recursos culturais, essa exigência toda parece uma bobagem.

3 – Uso da lei de incentivos e outras.

Sobre o projeto, houve quem reclamasse pelo uso das leis de incentivo cultural. Até hoje as leis de incentivo foram usadas para diversos livros e espetáculos voltados às classes A e B, por que a gritaria pelo uso para um projeto como esse? Esse projeto não elimina a versão oficial; nem mesmo trata-se de uma compra governamental. É um projeto social em que recursos que iriam para os bolsos governamentais voltam para a população e diferente de toda a pressão contra ele não obriga a lê-lo quem preferir o original.

Temos uma nação de leitores para que valha a pena dificultar a leitura ou é o contrário?

Foram com clássicos adultos que a maior parte das crianças e jovens aprenderam a gostar de ler ou foram com adaptações, gibis e títulos infantis e juvenis que falavam a linguagem da criança e do adolescente? E não é sedutora a ideia de que se possa fazer isso – ler com prazer, sem muitas dificuldades-, na fase infanto-juvenil por meio de obras clássicas?

Penso que falta nos colocarmos no lugar da criança, algo que raramente é feito. É por esse motivo que clássicos adultos estão obrigatórios no ensino.  Na infância de muita gente, eu incluído, ler era uma obrigação, e todos respeitávamos essa obrigação.  Hoje temos dois problemas: há um tanto de distrações para a leitura e as crianças não se sentem mais obrigadas a fazer algo que não gostam. Elas escolhem roupas, brinquedos, programas de TV, onde vão estudar, passar férias, porque não poderiam escolher o que vão ler?

E se não dermos escolhas, elas vão educadamente atender a imposições e ler os clássicos? Ou devemos impor que só podem ler se for no original?

Uma celeuma como essa me faz pensar que a ideia de ditadura e censura está em nosso sangue. Dizer o que os outros devem fazer, como devem fazer parece uma regra moral e ainda muito presente no mundo intelectual. Uma raiz forte da crítica, a meu ver, se prende a um aspecto curioso. O sentimento de sacralidade de nossa língua e nossos autores clássicos. Machado seria, nesse campo, intocável. Era o bruxo das palavras e tocar em seu texto é algo inadmissível.

Mas o que é preferível: que ele seja lido em adaptações ou nunca lido? Pergunte para pessoas que moram em periferia e tem até o ensino médio, ou uma recepcionista, uma caixa, um taxista, se leram alguma obra de Machado de Assis. E quantas gostaram.

Outro fato que me chamou a atenção é a mania de interferir no gosto do outro, como meio de submissão a um grupo de crenças. E isso acontece a cada momento, não só na literatura. Mas o que está por trás dessas escolhas? Não se busca a verdade, mas apenas afirmar uma ideologia.

Vejamos: Nas entrevistas em eleições, em vez de traçarem um perfil administrativo de um candidato a presidente, governador ou prefeito, e conhecerem seus projetos de gestão pública e de estadista, que perguntas são feitas?  Se acredita em Deus, se tem religião, se é casado, se usou drogas. Que tipo de perguntas são essas? Ou ainda, como esse tipo de informação indicaria que ele será um bom governante? Não seria mais importante medir a capacidade de administrar e a ausência de denúncias de corrupção? Porque transformar o direito individual num motivo de execração quando isso pouco interfere se comparado ao exercício anterior de cargo político?  Eu penso que são perguntas de tão mau gosto e com um sentido desviante da verdade que deveriam ser abolidas. E o pior é que a corrupção passa a ser menos relevante.

O mesmo desvio argumentativo fomentou a polêmica em questão. Precisamos nos fixar nas questões importantes. A Educação é mais importante que a vírgula.  E por isso mesmo foi triste ver os discursos das pessoas convidadas a opinar.

O projeto não é voltado para crianças de periferia? Porque é importante ouvir doutores em Literatura das maiores universidades do país que nada produzem para o acesso de novos leitores? É como perguntar a homens brancos se mulheres e negros tem de ser tratados com igualdade.

Alguém reparou que ninguém foi ouvir as crianças, jovens e adultos que são o público alvo desse projeto? E os professores das escolas de periferia que tem de lidar com o analfabetismo funcional que esses doutores parecem ignorar. Isso não é nivelar por baixo, mas um mínimo de didática. Que as pessoas possam primeiro aprender a ler, gostar de ler, antes de escolher ler um clássico.

O que me fez voltar a esse assunto foi a passionalidade com que muitos agiram na crítica. Quem puder observar os comentários em cada uma dessas matérias dos jornais na web verá que 97% das pessoas eram gravemente contra, e agressivas.

Algumas vezes, percebo que quando abordo a necessidade de uma literatura de acesso parece que estou destituindo o valor da alta literatura (e das pessoas que amam), mas não é isso. Escrevo aqui porque sinto que muitas vezes a nossa classe cultural age seguidamente de modo elitista, excludente. Muitos se tornaram leitores clássicos com muita dificuldade e defendem hoje que a dificuldade continue. Uma larga cultura nem sempre produz um grande pensador. A capacidade de raciocinar pode ser gravemente ferida pela paixão, pelo conjunto de crenças e valores que nos construíram. Percebo que é bastante difícil mudar isso em nós, mas devemos expor sempre nossas crenças à lógica, senão vira fé cega, e o erro mora ao lado.

Acredito que devem haver tantas opções quantos grupos de pessoas dispostas a ler. Machado não é uma religião xiita. Quanto mais inserirmos os textos dele suas versões no cotidiano das pessoas e colocarmos disponível em todos os lugares, meios, ou públicos, mais relevante ele se tornará. E isso não destrói sua obra, o contrário. E sua versão original continuará a ser lida e tratada como especial dentre todas as outras. E nossa Cultura ganha com isso.

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Publicado no publishnews em 02/12/2013

 

Na sexta feira, o PublishNews repercutiu uma matéria de uma jornalista americana sobre os livros de autoajuda, com a proposta de entender o interesse das pessoas sobre o assunto, desde os primeiros livros de conselhos do Egito Antigo até os dias de hoje. Depois de ler o artigo, fiquei decepcionado. O texto manteve todos os clichês comuns que estou cansado de ler e ver repetidos a todo momento. Basta ver uma de suas quase conclusões:  “Estatísticas do mercado editorial sugerem que 80% dos que compram livros de autoajuda já compraram títulos do gênero antes, o que poderia indicar que eles não ajudam.”
 
Esta é para mim ou uma conclusão superficial e/ou orientada academicamente, pois o fato de consumirmos mais de alguma coisa quer dizer que gostamos dela, caso contrário, a repudiaríamos.
 

Um resumo abaixo da coluna:

Uma pequena história do Autoajuda, o gênero que mais vende no mundo

Publishing Perspectives – 29/11/2013 – Por Jessica Lamb-Shapiro

Os livros de autoajuda existem há milhares de anos, e são amados e odiados desde sempre. O antepassado mais antigo desse gênero foi um livro do Egito Antigo chamado “Sebayt”, uma literatura instrucional sobre a vida (“Sebayt” significa “ensinamento”). Uma carta com conselhos de um pai para seu filho, As Máximas de Ptahotep, escrito em 2800 B.C., advogava comportamento moral e autocontrole. Textos gregos antigos ofereciam meditações, aforismos e máximas sobre as melhores maneiras de se viver. […] Apesar de sua ubiquidade, é difícil dizer se livros de autoajuda de fato ajudam alguém. Há muita pouca pesquisa sobre o assunto. Estatísticas do mercado editorial sugerem que 80% dos que compram livros de autoajuda já compraram títulos do gênero antes, o que poderia indicar que eles não ajudam. Alguns sugerem que apenas o fato de se abrir um livro de autoajuda faz a pessoa se sentir melhor.”

O que é uma obra de auto ajuda?

Particularmente, classifico como autoajuda qualquer livro que o seu leitor reconheça, ao final da leitura, um ganho pessoal. Pode ser um conhecimento ou informação que considere útil e estratégico para sua vida, para entender mais sobre si mesmo, ampliar o senso crítico, lidar com os outros e com Deus, ampliar suas habilidades e competências, concorrer a uma vaga de emprego, participar de um processo seletivo e, por fim, buscar prazer, alegria, diversão, entretenimento.

 
Muitos livros que assumem a chancela de autoajuda são o que passei a chamar de Literatura de Acesso, pois dão ao iniciante naquele tema algo mais palatável para que ele possa se interessar e ao mesmo tempo compreender o assunto, passo essencial para criar um interesse verdadeiro em continuar sua pesquisa.
 
Acredito que o termo autoajuda englobe todos os livros, porque Cultura ajuda, não importa o tipo de conteúdo. No entanto, vivemos repetindo o mantra de que livros de autoajuda são aqueles escritos por pessoas que são “fraudes”, porque não fazem o que escrevem, não são capazes de usar seus próprios conhecimentos. Esquecemos que existem picaretas em todas as profissões do mundo, sejam em livros de uso prático ou intelectual. Cópias baratas de qualquer livro, assunto e autor existem em todos os gêneros, e simples repetidores do conhecimento dos outros existem tanto no ambiente acadêmico quanto nas mais diversas áreas profissionais. Difícil mesmo é enxergar alguma originalidade.
 
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Uma carta de amor, anônima, é encontrada pela dona de uma livraria… e, ao terminar de ler, ela fica hipnotizada, como se aquela carta tivesse revolvido sentimentos que há muito estavam adormecidos…

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“Meu amor,

Você sabe o quanto sou apaixonado por você? Estou sonhando? Será que posso acordar? Perder o equilíbrio, pisar em falso … despedaçar meu coração?

Eu sei que estou apaixonado a cada vez que te vejo. E também quanto estou distante. Nenhum músculo se move. As folhas das árvores caem por qualquer brisa. O ar apenas existe. Eu fiq

uei totalmente apaixonado sem ter dado nenhum passo…

Você representa tudo o que seria errado, algo que eu deveria tentar esquecer, mas eu não ligo para esses pensamentos… pois só consigo pensar em estar contigo.

Quando estou perto de ti, sinto o roçar dos seus cabelos acariciando o meu rosto mesmo quando isso não acontece. Algumas vezes olho para você à distância, então corro para estar perto

 novamente. E quando eu calço os sapatos, descasco uma laranja, dirijo meu carro, ou a deitar a cada noite … eu sempre permaneço, seu”

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Em uma cidade na Nova Inglaterra, Helen (Kate Capshaw), a dona de uma livraria, encontra uma carta de amor anônima entre as almofadas do sofá. Helen acredita que a carta é destinada a ela e tenta descobrir seu autor, pensando em vários homens da cidade. Então inicia um affair com Johnny (Tom Everett Scott), um jovem empregado da livraria, mas acontece que Johnny leu a carta por acaso e pensa que foi Helen quem a escreveu para ele. Então essa carta passa de mãos em mãos e outras pessoas da cidade lêem, cada um achando que aquela carta foi escrita para si.

O filme, “the love letter”( a carta anônima, 1999), baseado no livro de Catlheen Schine, 1995 é o raro filme que agrada mais as pessoas que o livro. Tratado como uma comédia romântica, e contando com um casting especial ( Ellen De Generes; Tom Selleck), aquela bela carta de amor movimentou os solteiros, os que haviam desistido do amor e os que estavam em relacionamentos mornos da cidade. A carta sem destinatário, reacendeu a libido, as fantasias e deu coragem a homens e mulheres para seguir seus sentimentos.

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É com este filme que quero tratar o tema de hoje, cuja mensagem fala da maior força que um texto deve possuir: de fazer seu leitor sentir como se o texto fosse escrito para ele, cada um, individualmente.

Agora imagine a cena:

Uma mulher se muda para uma pequena cidade. Abre uma livraria, trazendo muitos dos seus livros preferidos, mas ninguém quer aqueles livros. Passam a destratá-la publicamente, e alguns moralistas promovem um boicote.  Então ela decide criar edições especiais de seus livros. Tão especiais que eram feitos quase que individualmente para cada pessoa. A mágica então acontece. Todos começam a comprá-los compulsivamente … cada um por seu próprio motivo.

Agora troque livro e livraria por chocolate, e temos aí o segundo filme que queria mostrar. Nele, a personagem vivida por Juliette Binoche, sendo culinarista atua como uma editora.  Ela chega na cidade e percebe que será difícil conseguir que a deixem seguir com sua vida e sua loja de doces.  Então começa a oferecer chocolates para cada um, descobrindo seus gostos, interesses, desejos. E como é bo

Imagema em reconhecer o que os outros querem, acerta. E a notícia corre, como num ato de mágica…

Esse é outro filme que vale a pena ser visto ou assistido novamente com esse olhar, de que a confeiteira está ali numa posição de editora, que é a de qualquer empresário que desenvolve, escolhe o produto que vai produzir, vender, pensando no universo de questões de seu possível público consumidor.  Então chegamos no tema da coluna.

O “dom” de escrever para os leitores

Uma coisa que tento visualizar nos livros que analiso é separar entre aqueles escritos para si, para os pares/críticos ou para os leitores.  O primeiro tem pouco público, geralmente a família; o segundo, um nicho; o terceiro, tem um número imenso de possíveis leitores. A diferença é sutil, muitas vezes difícil de ser identificada ou distinguida por um conjunto de características, mas depois de algum treino é possível entender aspectos comuns entre um tipo de texto dos outros.

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Creio que a origem desse problema – a direção do foco da leitura – , reside em nossa  formação cultural. Na infância, somos treinados desde pequenos a escrever para nosso avaliador, o professor/os pais. Quem não se lembra de ter escrito ou ouvido a declamação de redações premiadas, ainda que escritas na “voz” de criança falasse sobre conceitos de responsabilidade, paz mundial, fome na África, guerras, sustentabilidade, etc.  Temas que não faziam parte do universo cotidiano infantil, mas agradavam os professores e aos pais, pois falavam de temas de interesse que eles queriam que as crianças estivessem a par. Eu vivi um número enorme dessas redações, e nem me lembro se naquela fase achei que valia a pena escrever sobre temas de interesse mais pessoal, mas havia uma certeza: não era um caminho apreciado pelos adultos.  Uns 20 anos depois reencontrei algumas dessas redações. Eu as relia e sentia uma vergonha imensa, tanto que fui perdendo uma a uma com o passar dos anos. Eram coisas que não valiam guardar.

Textos campeões de cartas

Mas desde que comecei a trabalhar em editoras passei a prestar atenção naqueles autores que se tornavam os campeões de cartas. Venho colecionando esses cases há vários anos porque algumas coisas são de chamar a atenção, especialmente o fato de que aconteciam tanto em literatura quanto em não ficção, em autoajuda ou livros técnicos, sem distinção.  Ficava intrig

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ado sobre qual era o ponto.  O que fazia o leitor gostar tanto daquele texto, a ponto de tocá-lo tão pessoalmente, provocando uma escrita, uma carta de agradecimento à editora, o envio de um relato pessoal, um comentário feliz?

E outro aspecto ainda mais interessante para mim foi ver que alguns daqueles livros nem mesmo eram escritos exclusivamente pelo próprio autor.  Alguns tinham um redator profissional balizando a escrita, quase um ghost writer.

Ainda vi nesses campeões de feedbacks textos de escrita bastante simples, quase plana. Então percebi que a questão era ainda mais complexa, pois alguns dependiam da forma, outros do conteúdo, mas em geral, uma combinação incertamente equilibrada entre um aspecto e outro. Passei a chamar privadamente esses aspectos de alma.  Eram textos que possuíam uma, certamente.

Então parti para outra proposta da discussão, ainda mais complexa: o que produzia aquela qualidade tão rara e tão buscada nos textos?  Seria um dom? Um aprendizado especial? O formato do pensamento, do mundo interior, traduzido em palavras?  Um misto de tudo?

Eu não me sinto seguro em dizer, só sei quando enxergo. Nem todo livro em que vi esse “dom” se tornou sucesso, alguns foram sim, bem gigantescos, mas os que passaram despercebidos nas livrarias, porque para fazer grande sucesso não basta ser ótimo, pelo menos se tornaram long sellers. Suas vendas foram seguindo num boca a boca…  e isso levou a obra para algumas edições.

Quando penso em cada um deles e vejo a parte em comum só consigo enxergar uma falta de padrões, então não adianta por exemplo uma entrega total à produção do texto sem a entrega da alma.  E entregar a alma não requer técnica, uma análise metódica da própria escrita, mas do sentido que se quer com ela.  Do desejo e, sobretudo, da capacidade de oferecer ao outro uma experiência tão própria e vívida com foi consigo mesmo. É um processo como terapia. Não basta querer mudar a partir da compreensão do que se quer fazer, chegar. Tem de estar preparado! Tornar um texto pertencente ao outro é se colocar numa posição universal, sair do próprio lugar, tentar se afastar da posição central e oferecer tudo aquilo que gostaria que tivessem lhe oferecido, sem concessões. O que faz com que um livro assim não possa ser escrito numa tarde, num prazo curto, pois aí não se consegue essa reverberação toda, a compreensão global de todos  os elementos. A distância e maturação do pensamento se tornam necessárias. A posição de advogado do diabo, tentando extrair as vaidades, a autopromoção, a arrogância, coisas que não podem estar presentes de forma subliminar num texto que deve pertencer ao outro. E isso não significa que ele tenha de estar asséptico… não. Pode ser opinativo, forte, vigoroso sem ser autoritário.

Em minha experiência descobri que uma ideia ótima, realizada com muita simplicidade (textualmente) pode ser “consertada”, mas o oposto,  uma ideia elaborada com o mais perfeita combinação de recursos estilísticos, se for fraca, torna-se tediosa e impossível de recuperação.

Tendo mesmo acreditar que a escrita é um dom. Há formas de se burilar um dom, mas não de criá-lo. Cursos de leitura e escrita podem ajudar a melhorar a qualidade de quem sabe pintar bem as palavras, mas nunca de transformar radicalmente a qualidade dos textos de seus frequentadores. A sólida formação cultural oferece bagagem, conteúdo, informação, que pode ser utilizada de forma acumulativa num texto sem qualquer brilho e alguém com uma formação incrivelmente simples pode conseguir criar textos e histórias capazes de fixar nossa atenção, ainda que possam conter erros gramaticais e sua construção não possuir qualquer sofisticação. O aspecto democrático disso, prefiro ver assim, é que não há qualquer distinção de classe ou grau de instrução. Todo mundo já assistiu iletrados que são exímios contadores de histórias, não seria diferente na literatura. Felizmente há espaço para todos os tipos de escritores e o que cada um precisa é encontrar a sua voz, o gênero onde seu “dom” possa se manifestar.  Esse me parece o grande segredo.  Quando mais cedo uma pessoa encontra a sua voz literária, o seu tipo de escrita, seu tema, seu público, mais cedo ele vai sendo burilado.  São assim com os contadores de histórias, de piadas, os romancistas, os grandes repórteres, os memorialistas, blogueiros, cronistas…

Descobrindo seu próprio “gênero”, com esforço, cada um pode figurar entre os ótimos, os bons e os editores; estes últimos, diabos que privados do “dom”, tentam infernizar a vida dos seus autores, e muitas vezes, acabam ajudando-os.

Até a próxima coluna. Se quiserem fazer comentários, comente logo abaixo.

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