Magnólia – O valor de cada área no projeto editorial
Cresci ouvindo uma história que versava sobre a importância de um parafuso numa engrenagem gigante. Cada um tinha sua importância e mesmo aqueles célebres, feitos de material nobre, não poderiam executar bem suas tarefas sem que o minúsculo parafuso de ferro fizesse a sua parte. Este é o tema da coluna de hoje.
Para quem gosta de um pouco de filosofia, psicanálise, ou simplesmente um ótimo entretenimento, Magnólia tem tudo isso. Com um elenco incrível( Juliane Moore, Philip Seymour Hoffman, Alfred Molina, Tom Cruise( numa criação interessante), William H. Macy, Jason Robards e muitos outros, vale a pena descobrir ou rever este filme. Nele há espaço para excelentes atuações de quase todo mundo, pois não é uma história com foco no olhar de uma pessoa, mas de várias, que se conectam ao final, sem a forçação de barra que acontece alguns filmes, entre eles Crash – sem limites, onde o bom vira mau e o mau parece bom. Não, aqui não tem esses clichês e coisas que foram criadas aqui já foram repetidas em outros filmes, de tão boas. Quem gostou de Beleza Americana, Short Cuts, Amores brutos ou A pele que habito pode gostar deste.
O filme conta um dia na vida de 9 personagens, mostrando seus dramas, sonhos, desesperos e busca por felicidade. Uma criança que é usada pelos pais para vencer em concursos de perguntas no estilo “Quem quer ser um Millionário?”; Um adulto, que parece ser a versão adulta da criança, só que com todas as consequências de ter perdido sua vida e se tornado um objeto de disputa pelos pais, que se separaram; Uma mulher que se casou com um velho pelo dinheiro e descobre, quando ele está para morrer, que o ama; um homem que cresce odiando o pai que abandonou ele e sua mãe, quando estava com câncer, deixando-o sozinho para cuidar dela, e ainda uma jovem que se tornou dependente de drogas e, com a ajuda de alguém que a ama, consegue quebrar o silêncio a respeito de um fato que a levou ao comportamento autodestrutivo.
É um filme longo, de 3 horas, mas que voam. Apesar de fortes, as histórias se desenrolam com delicadeza, sem tentar emocionar os leitores mais que a história permite. Pelo contrário. Os personagens, ainda que sejam bem diferentes, não buscam essa emoção fácil. Ou deve ser o roteiro e a direção cuidadosa de Paul Thomas Anderson( Boogie Nights, Sangue Negro) ou o porque me parece um filme que considero indispensável.
A película mostra como as atitudes acontecem em cadeia, levando a outras, a outras, até que provoque o efeito final. E na abertura, que vale a pena ver e rever, há um vídeo-documentário, que parece totalmente deslocado da história da Rua Magnólia, mas que fornece a mensagem central. São vídeos antigos, narrados como se fossem histórias policiais, em que coisas fatais acontecem, raramente como qualquer um poderia prever, mas quase como um golpe do destino. Numa delas, um casal que briga escandalosamente todos os dias no apartamento, chegando a disparar tiros com a arma descarregada, acaba por acertar o corpo do próprio filho, que na hora da briga, jogava-se da janela em suicídio. Como fora morto não pela queda, mas pelo tiro, ainda que por acidente, o casal vai para a cadeia pela morte do filho, ainda que por acidente, o casal vai para a cadeia pela morte do filho( que é quem tinha carregado a arma, pois não agüentava mais aquelas brigas). A cena é tragicômica, como se fosse um filme mudo de Chaplin e esse é um dos traços do filme. São três incríveis coincidências. Mas prefiro pensar que me parece um destino cavado pelas próprias vítimas. Veja o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=d1HSb-uJ4jY
Seja fato mais recente, por conta de utilizarmos muitos colaboradores freelancers, mas toda a minha memória da área editorial indica que mesmo sendo o setor responsável pela atividade fim deste tipo de empresa, há quase sempre um número maior de funcionários trabalhando em departamentos administrativos, financeiros, comercial/marketing que editorial. E eles interferem no sucesso/fracasso de um lançamento com detalhes tão sutis, de práticas administrativas, fiscais, tecnológicas etc e podem levar uma empresa a q ualquer dos patamares, para o bem ou para o mal.
Creio que ser editor é uma das atividades mais perigosas. Deveria se ganhar algum adicional de insalubridade. Há o risco de ficar egocêntrico ( por ser quem publica aquilo que outros terão a oportunidade de ler), de ficar isolado, há o peso de responsabilizar-se por palavras diante de uma grande massa crítica, o que pode levar à processos (mais especialmente no passado) e atualmente a ameaças no twitter ou facebook. Mas a principal dificuldade é lidar com a frustração de ver um livro, pensado e planejado duran te vários meses, até anos, ao ser lançado, por alguma falha no processo industrial/administrativo, perder suas chances de chegar ao público. E penso que como essas falhas acontecem o tempo todo, parte delas ocorre porque os demais setores envolvidos no processo do livro não conhece a trajetória do que chegou até ele.
Em linhas gerais, um livro para ser contratado precisa de um autor que coloque nele a bagagem de sua vida. Alguns carregam 40 anos de pesquisas, outros uma história da infância que sempre o comoveu e ele guardou no coração para um dia compartilhar com as pessoas. É a memória do holocausto como de Anne Frank; a experiência políticade Gandhi, que mostrou como poderia divergir sem violência; ou a história da mulher comum que se apaixonou num grande navio por outro homem e largou o seu marido. E o navio naufragou. São histórias que podem não precisariam ter transformado muitas pessoas no mundo, mas só teriam chances de ser contadas para uma grande audiência numa oportunidade. Assim acontece com um livro.
Vi muitos lançamentos serem atropelados por erros bobos: fiscais, gráficos, de projeto, de estocagem, de prazo, de perder uma data importante, de chegar ao ponto de vendas em data distante da campan ha de marketing ou da divulgação na imprensa; de enviar convites em cima da hora, de não mandar livros para a cidade onde o autor é conhecido, da livraria que o coloca numa seção inadequada, da falta de crédito do autor de todas as fotos, desenhos ou ilustrações… Daria para fazer um grande check list. Já tive um livro que mudou o papel em cima da hora e a gráfica não pediu a alteração de lombada. Resultado: Dois anos de trabalhos, 40 autores envolvidos e o livro novo dava a impressão de ser um livro de saldo, pois a capa parecia ter sido reaproveitada, escapando da área em que deveria estar e entrando na lombada. Poderia dar mais exemplos, como um shirink desnecessário, que inibe a abertura de um livro; de perder o envio de livro para um evento onde o autor é o grande palestrante, como uma feira como de Porto Alegre.
Foi-se o tempo e eu presenciei, em que os departamentos editoriais eram os bons numa editora. Adoro que isto seja passado, pois não vejo existir superioridade em uma área que não se movimenta de forma independente achar que tem maior valor que outra. Mas creio que vale a pena dar a conhecer a todos os outros departamentos como um livro nasce, quanta negociação existe, quanta expectativa, porque ele tem um determinado projeto, que público visa atender; porque não deve sair shirinkado, porque deve ser coloc ado na prateleira correta, porque o pagamento de direitos autorais deve ser feito na data indicada ou avisado o atraso, porque o relatório de prestação de contas deve ser claro, objetivo. Um único exemplo como o do livro ser catalogado em seção errada( seja pelo assistente editorial, pelo setor comercial da editora ou setor de compras da livraria), e todo o trabalho de fazer o livro vai para o espaço, pois ele não vai ser encontrado. E todos esses cuidados podem indicar se a editora conseguirá ter acesso ao que pode ser o próximo super bestseller, que vai manter todos trabalhando com felicidade, ou reduzir sua participação no mercado e deixar muitos sem emprego.
Dar a conhecer aos setores de toda a empresa dessa variedade de ações e etapas na produção de um livro pode não evitar todos os problemas, mas acredito em duas vantagens: compartilha a felicidade de trabalhar numa empresa editorial, aproximando as áreas mais distantes, dignificando a finalidade de cada um no processo e favorece um diálogo maior entre áreas distintas, reduzindo ruídos, convergindo as forças para o objetivo: Atingir o maior número de leitores.
Um link interessante: http://www.rubedo.psc.br/Cinema/magnolia.htm
Até a próxima coluna. Mandem sugestões de temas que eu procuro em algum filme. Ou de filmes.
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Acho que você conseguiu descrever uma angustia que a maioria dos editoriais têm, e ainda com esse filme fantástico. Essa coluna está muuuuito didática! (deveria ser tema de palestra – fica a dica rs rs)
Puxa, gostei da idéia…. E muito obrigado pelos comentários…beijos
Sua coluna está excelente! A angustia de orquestrar todos os parafusos para que um livro “de certo”. Concordo com a Marília que deveria ser um tema para palestra.
Parabéns.
Obrigado Vera… É bom ter esse feedback para seguir escrevendo…Bjs