O sentido de emergência que dinamiza uma geração.
Quando assisti ao filme, A Rede Social, não esperava mais que uma diversão, mas obtive ali algumas respostas e confirmações sobre um tema que vinha conversando com amigos a respeito da pressa por acontecer que se abate sobre as novas gerações.
O filme: Marc é um jovem que freqüenta a universidade de Harvard. Depois de levar um fora da namorada, para se vingar, hackeia fotos de mulheres das redes internas de universidades e propõe um programa de avaliação e comparação das beldades. Algo tão simples assim tinha de dar certo, basta ver que na época do Orkut os posts mais visitados eram aqueles em que o tema ou a pessoa que fazia a ultima postagem levava a próxima a passar a corrente pra frente. Era algo igualmente sem muito trabalho ou esforço mental. Mas o sucesso lhe mostrou que aquilo poderia ir além. Em dias Marc se tornara alguém e popular, então, de certa forma, para lidar com sua própria timidez, investiu todo o tempo na criação de uma rede interativa que logo virou mania: dependia de divulgação boca a boca e convite para ser acessada. A rede cresceu assustadoramente rápida e foi oferecendo ferramentas para manter cada vez mais e mais as pessoas conectadas, dividindo com amigos, colegas ou com alguém conhecido de alguém, experiências pessoais. Ela é hoje uma das empresas mais promissoras do mundo, então, conhecer a história como tudo isso começou, o que fez dar certo, as brigas, os processos judiciais, o fim de uma amizade, a corrupção de valores… é bem interessante.
Para mim, além da diversão e informação, uma das principais mensagens do filme é sobre velocidade como a coisa acontece. Vemos ali um jovem nerd, que uma década atrás seria o alvo preferido da escola para a prática social do bulling transformar-se numa estrela, num grande vencedor.
Mas comecei a pensar que essa idéia de sucesso instantâneo possa estar contaminando a geração que hoje tem menos de 30, chamadas de Y.
Tenho visto cada vez mais nas pessoas dessa geração um sentido de urgência absurdo. Querem sucesso, reconhecimento, acesso imediato a tudo o que a carreira a qual acabaram de aportar tem para oferecer no decurso de algumas décadas. Depois de perceber isso em mais de duas dezenas de pessoas a quem tenho acesso, entre colegas de trabalho e amigos e familiares, comecei a conversar com outras pessoas que percebiam a mesma coisa, então acredito que é o pensamento desta geração.
Há duas formas para obtenção de valores culturais: a cultura reificada e a cultura por processo. A reificada é aquela obtida, comprada, absorvida. Por exemplo, quando um país invade outro e absorve os bens e valores culturais( ex: império romano); e a cultura por processo – obtida ao longo de aprendizado, reconhecimento da cultura, experiência. Ela se forma com uma via de mão dupla entre o tema e o indivíduo, quando a matéria interage com o aluno e o transforma; quando a arte pode ser mais bem apreciada, pois já se pode tanto entender a origem daquela escola artística quanto compará-la com todos os seus executores. E depois disso mediar o próprio debate interno para assumir suas opiniões com embasamento.
No afã do imediatismo, sem tempo para processar cada coisa, esse pensamento atual em muito se assemelha à cultura reificada, como se o amadurecimento, o desenvolvimento, as etapas pelas quais temos de passar pudessem ser compradas, puladas, tratando-as como mero obstáculo desnecessário como o apêndice _ sinal de que já tivemos cauda de macaco mas hoje não tem nenhuma utilidade.
A geração y vive numa necessidade de acontecer rapidamente, como se tivéssemos numa contagem regressiva e fosse preciso viver tudo no mais breve tempo possível. Acho um exagero, mas se isso acontece se deve a diversos fatores que criaram esse pensamento e necessidade. Não vou me ater a eles, pois não é minha praia. Quero tratar aqui apenas dos resultados que esse comportamento pode levar. Se pegarmos o exemplo de Mark Zuckerberg e achar que ele se replica o tempo todo pode-se incorrer num grande equivoco, com sequencias de frustração constantes. Não é a todo momento que um jovem com uma idéia cria um mundo novo e faz fortuna. Nem que há essa capacidade de qualquer jovem ensinar aos mais velhos o caminho do sucesso e do reconhecimento. Isso acontece, mas não é o tempo todo. E se vira notícia, livro e filme é porque é algo carregado de ineditismo.
Eu tenho um amigo que sempre achei genial, mas o vi se perder por perceber a si próprio como alguém com grande potencial. Depois de cometer diversos equívocos funcionais eu falei para ele. Fuja da crise de gênio. Ela pode te jogar num buraco. Conheço dezenas de pessoas geniais trabalhando para idiotas. E porquê? Porque não entregam trabalhos no prazo, porque agem como prima-donas; porque tentam recriar num único dia processos que funcionam para as empresas há décadas. Ou porque lhes falta inteligência prática. É uma atitude contra a inovação? Não, absolutamente. Mas quem quer inovar tem de semear. Não adianta vir com uma grande semente num terreno árido. Um garçon precisará estudar, ter confiança dos colegas e ser reconhecido pelos amigos como grande cozinheiro antes de emplacar um prato novo num restaurante famoso. Se ele tentar isso enquanto sua função é a de equilibrar pratos e copos e limpar mesas, não será ouvido. Se você tiver ouvido que alguém conseguiu isso no telejornal, repito, só virou notícia porque é um destes casos de exceção, não de regra.
As coisas estão acontecendo de forma muito rápida, é verdade. A forma como nos relacionamos com a tecnologia nos deixa reféns do ultimo modelo, da ultima forma de comunicação, de agilização do trabalho e com a sensação de que, se não acompanharmos essa evolução estaremos fora do jogo, do mercado de trabalho, da sociedade.Talvez essa impermanência de valores é que gere a necessidade de correr contra o tempo, de vencer barreiras, de transgredir com as regras e percursos já consagrados.
A geração madura vai ficar obsoleta mais rapidamente que 20 anos atrás, mas penso que quem destas novas gerações apreender mais com a experiência e se lançar com mais segurança e preparo sempre vai se sair melhor. É não dar um passo grande demais antes do tempo, não ficar ansioso por não ter o reconhecimento financeiro igual aos superiores. Hoje vejo jovens de 20 se prepararem para comprar o primeiro imóvel enquanto, nas condições semelhantes, 20 anos atrás, boa parte só conseguia tentar um financiamento para esse fim aos 40, e reunindo FGTS de décadas de trabalho e outras economias durante a vida. Isto é um avanço, mas não se pode meter os pés pelas mãos.
O assunto é extenso e por mais que pareça o contrário, penso que o que escrevo aqui é uma troca de experiências. O que quero dizer é: calma: antes foi bem mais difícil. As gerações devem aprendem umas com as outras. As regras de uma nem sempre funcionam o tempo todo. Ter essa consciência sempre presente pode ajudar tanto a reduzir a ansiedade quanto a investir com profundidade em todos os seus projetos, criando a base antes do topo.
Muitas matérias de revistas e jornais sobre carreiras falam sobre as habilidades das novas gerações e eu ponho uma nova questão aqui: e as desabilidades? Se há muita velocidade, há perda de compreensão, e muitas vezes, superficialidade. Se há muitos amigos virtuais, a relação não tem profundidade. Se há interatividade virtual há introspecção real. Vejo gente que não consegue se comunicar com quem está seu lado e resolver um problema por meio de diálogo, por falta de traquejo, habilidade de negociação. Não sabem lidar com o outro se não for através de um email. Não sabem resolver problemas. Tive uma colega que vivia me trazendo os problemas: Ah, não mandaram a foto; passei o contrato, o setor tal perdeu, o autor está furioso, o livro vai ficar parado na gráfica se ele não for encontrado. Eu perguntava: o que você é? Repórter? Preciso que converse com as pessoas, encontre soluções, dialogue para resolver os problemas. Resolver. Uma habilidade que pode ficar perdida em tantas relações virtuais e que se assemelham, no ambiente profissional, a má burocracia. Um sistema de processos quase mecânicos feitos para atrasar qualquer processo.
Talvez esteja aqui um ponto que possa diferenciar as pessoas de sucesso da nova geração: viver os princípios dessa velocidade sem ignorar o aprendizado das anteriores. O volume de informação a que temos acesso está cada vez mais se impondo diante de nosso tempo diário, tomando horas preciosas de apreciação de prazeres reais, aprendizados, cultura, reflexão. Quanto lixo consumimos em mensagens, em paginas centrais de portais, em fotos trocadas a todo momento, em piadas de internet e correntes ameaçadoras caso não passemos adiante e tudo isso é tratado como se fossem as coisas mais importantes do nosso dia. E quanto essas coisas nos distraem de nossas atividades de modo que levamos mais tempo para executá-las e, portanto, temos menos tempo de lazer, de almoço, de ócio criativo?
Por curiosidade vejam o trailer do filme: A rede social 2, que mostra o que aconteceria com o mundo se o facebook acabasse e como nossas atuais atitudes no face ficariam ridículas no mundo real. Muito divertido: http://www.youtube.com/watch?v=TRlUDvXP8x4&feature=player_embedded
Até a próxima coluna. Se quiserem fazer comentários mandem para o meu blog: www.faroeditorial.wordpress.com
Parabéns pelo texto. As colocações feitas sobre a comunicação X interação com os meio de comunicação são muito boas. Estamos vivenciando realmente a Geração Y. Seria ótimo trabalhar um texto desses com os jovens da atualidades, apesar que seriamos criticados ou …..enfim. Lembro Quando tive aula de comunicação na Faculdade. Parabéns!!!!
Olá Manoel,
Eu tive meus receios de expor o pensamento desta coluna. Hoje a crítica é tomada como ataque, quando ela pode ser vista como ferramenta de crescimento, mas tentei expor alguma coisa. Agradeço que tenha partilhado comigo do mesmo pensamento.
Abraços
Pedro, esse texto e suas reflexões estão perfeitos. A urgência da geração Y – exigir tudo para ontem, querer pular etapas, achar que sabe mais do que todos – é assustadora. Não sei se é um defeito; sei que precisamos nos acostumar e encontrar um jeito de lidar com as características desse pessoal. E, pensando bem, um dia láááá no passado, quando nossa geração chegou, deve ter causado um transtorno também, né?
Beijão
Gabi,
Eu acho que sim. Sempre há essa coisa de uma geração tentar superar e negar a outra, mas se antes uma tinha de susbstituir a outra, agora uma tem de conviver com a outra, porque o tempo de atuaçao profissional de cada um de nós é mais estendido e interativo
Beijão