Quando a relação autor-editor se torna qualquer coisa, menos profissional.
LOUCA OBSESSÃO (Misery, 1990) Direção: Rob Reiner. Elenco: James Caan, Kathy Bates, Lauren Bacall, Richard Farsnworth, Frances Sterngahen.
Este um filme clássico diferente. E tem vários méritos: não é o tradicional cult, nem é tão antigo, mas foi o primeiro filme de terror a dar um oscar de melhor ator principal. Geralmente filmes de terror não são cogitados ao Oscar, pois concentram sua ação na violencia em si, não no drama psicológico. Este foi um caso de encontro entre um ótimo texto de Stephen King com uma excelente realizaçao de um diretor, Rob Reiner. A escolha da atriz, Kathy Bates, desconhecida na época, foi mais que acertada. E ela ganhou o Oscar pela atuação, disputando com Meryl Streep; Julia Roberts( Por Uma linda Mulher) e Angelica Huston.
Resumo:
James Caan é Paul Sheldon, escritor de uma série de livros de sucesso chamada Misery. A série leva o nome de sua personagem principal e é o acontecimento editorial de sua editora. No entanto ele está cansado de escrever mais um romance sobre o mesmo tema. Sente-se escravizado por sua personagem e decide acabar com a série: Como? Poderia simplesmente fazê-la casar e ter filhos, dar-lhe um happy end, mas preferiu algo mais radical. Matando sua personagem. Assim ele vai até o seu refúgio em uma cidadezinha, num pequeno hotel, onde passa sozinho vários meses para escrever, como o fez para escrever todos os outros livros. Termina o livro e toma o caminho de volta dirigindo seu velho mustang. É pleno inverno. As estradas estão cobertas de neve e ele dirige por ruas que parecem gelo puro. Então, perde a direção e o carro cai num barranco. Quase desacordado é retirado do carro, uma pessoa o carrega sozinha na neve. Acorda 2 dias depois, e se vê numa casa, sendo cuidado por Annie Wilkes(Kathy Bates). Ela é enfermeira e o salvou do acidente. Disse que estava há dias espreitando-o do lado de fora do hotel. Ela é sua fã numero um. E viu todo o acidente, pois o seguia e por isso o salvou.
Logo que recobra a consciência ele quer falar com sua agente e com sua filha para dizer como está, mas segundo ela, a nevasca cortou todo o contato com a cidade. Então Annie se oferece para ir à cidade, ligar e dar o recado. O que não faz. Sua agente avisa a polícia. O xerife comeca a investigar até achar o carro e vai até a casa de Kathy.
Lá , pouco a pouco, a imagem da fã amorosa começa a mudar. Quando ela lê o novo original que apresenta a morte de Misery, ela alterna entre a doçura e o ódio profundo. Bate no corpo já alquebrado de seu idolo, o tortura e começa um jogo em que ele sabe, pode acabar morto se Annie não acreditar que ele está fazendo tudo o que ela deseja. Um destes desejos é a queima do original inteiro. Ela o coage a queimá-lo…. e tamanha é a tensão desta cena que ele acata. Tenho de confessar. Senti um aperto quando vi essa cena. É como se alguém jogasse fora o disco rigido de um trabalho que levou mais de 6 meses para fazer. Se ele quisesse o livro teria de reescrever inteiro, frase por frase, e não acho nada mais desgastante na vida que ter de refazer um trabalho de criação artistica, sobretudo quando já se gostou do resultado.Quantas vezes não perdemos pra sempre a frase que não anotamos? Há gente que pode se orgulhar da excelente memória. Eu não conseguiria lembrar das frases escritas durante meses, de cada construçao a ponto de reescrever…
Com a chegada do xerife, que num primeiro momento ela o engana, mas, já de saída, ao ouvir os gritos de Paul Sheldon ele volta e é surpreendido por Annie, o filme assume outro tom. O clima fica mais violento. Trava-se uma batalha de emoções e cada passo errado por ser o fim do nosso autor de bestsellers. As lutas entre a enfermeira e paciente parecem intermináveis, dignas de um Street fighter, refletindo tanto a loucura da fã quanto o desespero do autor, tendo de lutar com todas as dificuldades de mobilidade, para sair dali vivo. Vejam os vídeos: http://www.youtube.com/watch?v=hDoUpcOI-T8
http://www.youtube.com/watch?v=xFzjIPzEVbY
É um filme para ver e rever. E eu o trouxe aqui por tratar da relação neurótica da fã com seu autor, mas na transposição para a coluna quero tratar da relação entre autor e editor. Desde o filme A Proposta, em que falei sobre este assunto, recebi muitas mensagens comentando as dificuldades que pessoas da área editorial tiveram nessa relação e mais gente me pedindo para voltar ao assunto.
Como também já tive muitas experiências assim, autores se transformarem de anjos a ditadores em poucos meses, trago aqui um pouco mais sobre o assunto.
Nao é dificil entender que um autor está entregando algo muito pessoal num livro e mesmo tendo por contrato estabelecido que sua parte no processo é a entrega do texto, ele trata do livro como se fosse parte dele. Uma rasura, um furo de revisão, uma foto mal impressa, um nome que faltou nos créditos ou um nome incluído nos créditos numa função de edição de texto, pode criar uma história completa. E sendo sentido como parte dele pode assumir um tamanho imenso, algo como ofensa pessoal pública.
Um dia um autor recebeu seu livro e me ligou _ tendo antes falado com TODOS os seus amigos a fim de garantir que todos pensavam como ele_, perguntando porque eu havia colocado no copyright uma pessoa com a função de preparação de textos? Ele estava incomodado que alguém pensasse que ele havia precisado de ajuda no trabalho de escrita. E tive de explicar demoradamente que se tratava de um termo usual para uma das funções editoriais de revisão de textos.
Outro caso, de um autor que poderia bem passar por um monge tibetano, mas quando viu seu livro sair da lista de mais vendidos por uma semana e teve uma crise que me ligou durante toda a madrugada revoltado, acreditando que ele havia me entregue ouro e eu não estava sabendo fazê-lo brilhar.
Para lidar com tantos casos assim acabei por elaborar algumas linhas de trabalho, evitando fugir dela e transformando-as em regras:
1 – Contrato. Ele precisa estabelecer o que cabe a cada um. Colocar livro na lista, garantir que se mantenha e que não haverá nenhum concorrente lançando ao mesmo tempo não está em nenhum contrato.
2 – Nunca começar o trabalho editorial sem um contrato.
3 – Na contratação, explicar com alegria o que esta sendo feito( a decisão da editora de investir naquele livro deve ser um momento feliz) e que a ela caberão as decisões para transformar o livro num sucesso, de modo a ter retorno do investimento. Titulo, capa, marketing e distribuição são definidos pela editora. Podem contar com a experiência do autor mas nunca inverter a hierarquia de quem tem a decisão.
4 – Consultar o autor apenas no necessário sem, no entanto, alijá-lo do processo editorial.
5 – Sob a menor sombra de crise, cortar o mal pela raiz. Se um autor escapar da sua área de atuação e quiser decidir sobre coisas que não lhe competem, indique isso objetivamente. Se o tom aumentar, aumente para situá-lo das condições. Se persistirem os sintomas, distrate. Pode ser um projeto em que você trabalhou por meses. Asseguro, a dor de cabeça não valerá a pena. E não conheço casos de projetos lançados sem felicidade que deram muito certo. Conheço o contrário. De montes.
6 – Nunca amarrar um autor na editora por contrato. Um autor infeliz é uma propaganda negativa. O livro pára de vender como mágica. Instaura-se uma energia de má-vontade em todos os níveis. Não vale a pena.
Estou falando aqui de um dos lados do negocio, mas há o outro que precisa ser considerado. O autor precisa estar a par do processo de seu livro; é normal que queira continar participando deste momento que não termina com a escrita do original e o editor deve tentar mantê-lo o mais bem informado possível. É saudável que seja assim para o sucesso da obra e as vendas da editora. O autor deve estar motivado a falar com imprensa, a convidar seus amigos, a escrever para leitores, a postar coisas nas redes sociais e isso só se consegue se estiver motivado, se estiver participando do processo. Por exemplo, como um autor PERDE QUANDO uma editora adia o seu lançamento continuamente? Veja quanto ele investiu em tempo, em expectativas, em adiamento de outros projetos, pois muitas vezes não poderia assumir dois acontecimentos desses, como um lançamento de livro, ao mesmo tempo? Isso deve ser considerado. Ou quando sabe do lançamento de seu livro porque algum amigo o avisou por tê-lo visto numa loja? E nem havia sido contatado pela editora para falar de eventos de lançamentos… Isso pode parecer um absurdo para muita gente que lê, mas acontece o tempo todo…
Da parte da editora, acredito que todas as conversas, até a mais dificil, devem ser objetivas e com respeito. Deixar as emoções de lado, colocar os fatos e usar de sinceridade é o unico caminho para resolver qualquer conflito. Não sei o que acontece em outros áreas de trabalho, como na Politica e no meio da Publicidade, mas costumamos dizer que o mundo editorial é pequeno. Toda hora a gente se esbarra com as mesmas pessoas em posiçoes e empresas diferentes. Isso tem um lado bom e um ruim. O bom é que muitas vezes pode parecer uma família, por exemplo, nos grandes eventos do livro, quando as pessoas se reencontram, muitas vezes, um vez por ano e se visitam nos stands e tem atualizadas as noticias um do outro. O ruim é que os passos errados, os desvios de carater são rapidamente espalhados. E isso começa a repercutir na vida das pessoas. Já vi gente sair da área, ter de mudar de ramo depois de desvios de livros, quero dizer, de caráter. Já vi gente ficar, mas que acaba sendo apontada pelo erro por 10, 20 anos, pelas costas e tendo a confiança perdida até mesmo por geraçoes que nem sonhavam trabalhar com o livro. Pensando bem…Talvez isso seja mais um lado bom.
Nunca poderia esgotar o assunto, pois a experiência de cada um é variada, mas espero ter trazido alguma contribuição nestas questões. Regras claras e sensibilidade para agir rapidamente quando um sinal vermelho aponta para uma relação que está entrando por um caminho ruim devem ser resolvidas logo. Curtam o filme. Esse é um daqueles filmes que não envelhecem. Dizem que um livro novo é o livro que você não leu. Este ditado cabe a este filme também.
Na próxima edição penso em buscar filmes bem conhecidos de qualquer área para usar os exemplos em nosso mercado editorial. Por exemplo, Mudança de Hábito, com Whoopy Goldberg. Penso que seria um bom exemplo sobre renovação, gestão e flexibilidade. Estou buscando filmes que abordem algo sobre anti-burocracia fiscal relacionada a departamentos financeiros e algo que possa usar sobre normas das empresas e sobre o que é a missão de uma empresa. Quem tiver indicações, por favor, mandem para mim.
Curiosidades sobre Misery:
• O diretor Rob Reiner havia demonstrado antes seu talento com textos de Stephen King ao adaptar “Conta comigo” para o cinema.
• Misery foi adaptado também para o Teatro em todo o mundo. No Brasil houve uma bela montagem feita por Marisa Orth e Luis Gustavo em 2010, dentre outras.
• Há quem diga que o clipe da Canção Misery da banda Maroon 5 teve uma ponta de inspiração no livro se Stephen King. Uma mulher sem coração que bate no heroi apaixonado durante todo o clipe: uma relação de amor e ódio. Vejam: http://vimeo.com/21417739
Até a próxima coluna. Se quiserem fazer comentários mandem para o meu blog: www.faroeditorial.wordpress.com
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Muito bom! Realmente as relações entre autor e editor às vezes viram relacionamentos de amor e ódio. Sugiro o filme “Em Boa Companhia” para a próxima coluna, acho que é muito bem adequado para os temas que você mencionou ao final!
Abraço!
Muito obrigado Rafael. E sobre o filme que indicou, vou alugar.Não conheço ou não lembro se já assiti.
Estou com duas ideias rascunhadas que devem trazer o filme Milionários por acaso ou Magnólia. Cada um tem um tema diferente.
Um abraço