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O Nome da Rosa

O filme que trago hoje, “O nome da rosa”, baseado no livro de Umberto Eco, é considerado por muitos como O filme da década de 80 e, para mim, filme novo é filme (bem realizado) que você não viu. Mas também vale a pena rever, pois um tanto da mensagem não é explícita, pode ter passado despercebida, e o filme é um bom entretenimento. A história leva o Monge Willian de Baskerville ( Sean Connery) a um grande mosteiro católico no norte da Itália. Lá, começou a acontecer uma série de assassinatos e ele começa a investigar. As pessoas eram encontradas mortas com os lábios e as pontas dos dedos roxos. Parecia uma assinatura de crime. Sem entregar o final, posso apontar uma das questões centrais relacionadas aos assassinatos. Um dos responsáveis pela grande biblioteca encontra uma forma de punir quem lesse livros que não creditassem a Deus um poder infalível, ou que incitassem os homens a ter uma independência espiritual. Num dos casos presentes na história, um monge é torturado e espancado por inocentar o tradutor de um livro em desalinho com os dogmas da Igreja. O tradutor não teve a mesma pena, foi queimado.
Os tempos mudam, mas algumas coisas sempre parecem iguais. Estamos atravessando uma nova fase no mercado editorial e dogmas relacionados a livros continuam fortes por aqui. Mas vivemos um momento de grandes mudanças no cenário editorial. Nem sempre a gente percebe como uma reação em cadeia tem início e, principalmente, as inúmeras consequências que ela provoca, muitas vezes em áreas bem próximas a nós.
O crescimento da Classe C trouxe uma massa de leitores que passaram a incluir livros em sua cesta básica. Isso mexeu com os gêneros de livros mais consumidos no Brasil. Romances femininos, livros religiosos e juvenis ampliaram em muito sua participação no mercado. Por exemplo, nas listas de mais vendidos anuais de 2005 a 2010 não havia sequer um livro de romance contemporâneo mais direcionado às mulheres. Hoje, esse número chega a ocupar 1/3. Esse é um dado importante.
Então as grandes editoras passaram a buscar títulos relacionados a esse crescimento e ao interesse do novo público e começamos a ver disputados leilões por – adivinhem? –  romances eróticos, romances água com açúcar, tal qual no passado acontecia frequentemente com obras escritas por prêmios Nobel das variadas áreas das ciências e da filosofia. Estes últimos continuam a ter público, só não são os mais disputados pelas maiores editoras e com grandes lançamentos. Isso é ruim? Não vejo assim. A não ser se mantivermos a postura de As Senhoras de Santana, neste caso, como guardiões da alta literatura.
O público das obras mais profundas diminuiu? Não saberia dizer nem mesmo citar alguém que possa afirmar isso. Creio mais é que um novo tipo de leitor surgiu e eles são numerosos.
Assisto a uma das livrarias mais tradicionais, que antes era reduto da intelectualidade, se tranformar num espaço que convida novos leitores por meio de outras atrações, oferecendo títulos comerciais sem o pudor do passado. Há várias histórias também de quem não fez isso e teve de fechar. Um amigo me relatou o caso de uma famosa livraria da Zona Sul carioca que se recusava a vender livros de autores como Sidney Sheldon ou John Grishnam nos anos 90. Essa livraria fechou. E acho que todo negócio/empresa comercial que não se coloca em seu lugar, que tenta dizer o que o público quer em vez de oferecer o que ele quer, está fadado ao fracasso.
Há ainda uma frente de resistência a ser atravessada e chego finalmente ao tema que quis trazer na coluna. Parte da falta de hábito da leitura no Brasil, para mim, reside no fato de termos tratado a literatura como algo especial, sofisticado, elevado. Colocamos os livros numa posição inalcançável para a maioria dos mortais. Valorizamos sempre a literatura difícil e desprezamos autores e gêneros considerados comerciais. Na minha infância havia alguns valores pétreos que cristalizaram a relação das pessoas com os livros, para o mal: Um livro deve ser lido sempre até o fim, mesmo que você não goste. Se você não gostar de um clássico, o problema é com você. E outros absurdos como esse, tirando dos leitores o direito de decidir do que gostam e sua proximidade com os livros. Não é diferente do que fizemos com o nosso idioma, por décadas utilizado como elemento de discriminação, ridicularizando quem não utilizava as normas padrão, ignorando a dimensão e variedade deste país. Só para constar, o principal gramático da norma culta, que até os anos 90 era citado e respeitado, desapareceu das prateleiras e universidades.
Nestas semanas me deparei com reportagens e colunas em jornais que criticavam a qualidade de alguns livros que são fruto desse novo mercado. Fui pesquisar. Eram críticos de alta literatura e estavam criticando autores de literatura comercial, literatura juvenil, literatura fantástica e literatura de autoajuda. Pensei: Como estamos atrasados! Eu posso dizer que comecei a trabalhar no mercado editorial primeiramente como assessor de imprensa. Nessa época trabalhava em uma editora que produzia livros de autoajuda, religiosos e esotéricos. Era muito difícil encontrar algum espaço para matérias em jornais. Eu acabei percebendo que o que precisava fazer era melhorar meu relacionamento com os jornalistas e pouco a pouco fui conseguindo que eles dessem alguma atenção aos livros que eu promovia. No entanto, o espaço para o que não é alta literatura era mínimo e, depois de tantos anos e inúmeras explicações, um amigo editor que também passava pelo mesmo problema que eu travou um diálogo muito interessante com um jornalista de um grande jornal em SP. Ele perguntou: “Por que vocês não fazem uma entrevista com este escritor? Ele viajou o mundo, teve resenha no New York Times, no The Guardian, está no país para uma série de eventos, seus livros entraram nas listas de vários países…” O jornalista respondeu, “Nossos leitores do caderno de cultura não querem saber desses livros comerciais”. Meu amigo replicou, “Então por que nesta semana SEU caderno teve como capa O novo filme Batman 2?”. Do outro lado não se ouviu nada.
A frente que temos de avançar agora é na crítica literária. Eu tive a experiência de ver uma série juvenil de literatura que lancei ser criticada ferozmente por alguns críticos das principais revistas e jornais do país que resenhavam alta literatura. Um deles dizia que aquela série deveria ser censurada, outro dizia que era de mal gosto, outro disse que fazer aquilo era um crime. Como algumas matérias tinham uma versão eletrônica, vi um blog (gomademascar) postar: “E toda vez que puristas ficam horrorizados é sinal que algo de novo e interessante pode estar sendo feito”.  Aos jornalistas respondi que estavam equivocados. Aquela série não era para eles, nem para os amigos deles, nem para pessoas da idade deles, nem para a sua expertise literária. Isso para mim acendeu uma falta na imprensa brasileira. Precisamos de gente especializada nas diversas áreas de publicação de modo que os críticos estejam mais próximos dos leitores. Não temos críticos de literatura comercial, de saúde, de autoajuda etc. Não é à toa que os blogs e sites pop crescem a cada dia, dentre eles o Omelete e o Joven Nerd. Nicholas Sparks, Sidney Sheldon, Charlaine Harris, Deepak Chopra – todos eles têm seus livros comentados em revistas como Publishers Weekly, NY Times, Booklist etc. Porque aqui passam batidos ou só são comentados quando atingem o topo das listas de mais vendidos? Não estaria a grande imprensa agindo como os padres que rezavam missas em latim voltados para o altar em vez do público? Muitas vezes vejo críticos de literatura focados em seu ego, tentando descobrir as novas sensações do mercado, em exibir sua própria erudiçao, ao invés de dar a conhecer ao público novas propostas nos variados nichos. Então inicio minha série de perguntas:
Por que tão pouca gente lê/entende esses cadernos literários? (faça essa pesquisa em sua família, e esqueça que você é do meio, pergunte ao seu primo que é engenheiro, ao tio que é técnico em edificações, à irmã que é dona de uma rede de padarias ou à tia que é professora de geografia). Minha pesquisa me disse que, exceto os que atuam como professores, os demais pulam esses cadernos como se fosse uma página de classificados.
Por que todos eles vêm perdendo espaço, e os jornais e as revistas literárias que não possuem financiamento público ou privado acabam fechando?
Por que nós ficamos até agora nesse descompasso de produzir e investir em literatura que parece feita para agradar a crítica e não fazia muito sentido para o público?
Nos anos 1980, o crítico José Paulo Paes defendia a necessidade de investimento na produção de uma literatura brasileira de entretenimento. “Numa cultura de literatos como a nossa, todos sonham ser Gustave Flaubert ou James Joyce, ninguém se contentaria em ser Alexandre Dumas ou Agatha Christie.” Essa constatação parece que enfim começa a ter eco. Eu a vi citada pela primeira vez numa matéria de Veja, ao resenhar um livro de Jô Soares, no fim dos anos de 1990, mas parece ainda tão atual.
Essa posição em relação à produção literária nos causou um atraso imenso. Impediu que tivéssemos há mais tempo autores de literatura de entretenimento. Poucos conseguiram quebrar o bloqueio que existia por uma armadilha-dominó: não havia valor nessa literatura, ela não seria comentada por nenhum veículo de imprensa, não dava prestigio à editora, portanto não era publicada. Editores queriam descobrir a nova sensação de alta literatura. Publicar livros comerciais, ainda que sustentasse as editoras, era quase uma vergonha para os pares e motivo de crítica no meio.
Somente nos anos 90 o quadro começou a mudar. Surgiram autores como André Vianco e seus livros de vampiros tendo o país como palco; Stella Florence, com sua chik lit ácida; Tony Belotto com seus policiais, e também Patrícia Mello. Estes dois últimos, aliás, publicados por Luiz Schwarcz, que iniciou nestes dias um novo projeto para sua editora, incorporando selos comerciais e títulos de autoajuda, chegando a considerar a publicação do tal romance erótico que balançou todo o mercado editorial [ o Fifty shades of grey].
Nossas editoras hoje já perceberam que não devem publicar para a crítica e amplia a cada dia o investimento em autores, mas temos muito a fazer e investir pelo menos 10 vezes mais, ao contrário do que alguns acreditam. Não produzimos nada ainda para o tamanho da demanda que existe, de modo que temos de importar quase toda a literatura comercial que publicamos. Foram décadas de literatura engajada, que tinha, entre outros propósitos, ser uma frente politica em face da ditadura e sua alienação, mas esse tempo passou. É como a lei velhaca de não precisarmos falar a verdade num tribunal, dando-nos o direito de não produzir prova contra si, mas que hoje interfere nas leis de transito e transforma qualquer processo numa aventura de décadas. O motivo, a ditadura, acabou. A lei precisa ser revista. E o fomento da literatura comercial deve ser incrementado.
Pergunto: não será esse valor arraigado um dos motivos de vendermos tão pouco livros de autores brasileiros no exterior? Porque a Espanha, a Itália, a Australia, a Suécia, a Argentina e tantos outros países com tamanho, população e produção literária tão menor que o nosso exporta best-sellers para todo o mundo e nós só tivemos o Mago Paulo Coelho com essa expressão internacional? Por que só investimos em mandar para fora autores clássicos, ou de interesse dos brasilianistas? Certa vez, quando apresentei um conjunto de autoras de chik lit para um editor americano, ele observou: esse gênero no Brasil tem alma própria. Tem uma linguagem mais ácida, mais irônica, menos certinha. As mulheres são mais fortes e os temas mais profundos. Gostei do que ouvi. Percebi um editor enxergar um valor diferente em nossas escritoras comerciais. E se houver estudo vão se descobrir qualidades em outros gêneros que produzimos.
Penso que é hora de os suplementos literários incluírem em suas indicações livros de todas as áreas. Mas que a crítica seja feita por quem conheça bem essas diferentes linhas, sob o risco de não ser ouvido por seus leitores. Precisamos de gente especializada, e não produzindo críticas de gosto pessoal. Caso contrário, veremos cada suplemento literário perder mais leitores como já aconteceu com as livrarias que não entenderam a sua função.
Em tempo: a série Jogos vorazes, de Suzanne Collins, é um sucesso mundial. Seus livros foram resenhados em todo mundo. Não aqui, com raríssimas exceções, qundo começou a ser lançada em 2010. No entanto, com o filme, todos os grandes veículos acordaram para o fato de que o conteúdo da trilogia é relevante, que a história é muito bem construída e teceram, agora, inúmeros elogios à autora. O livro ficou bom ou falta gente atenta a esse gênero na crítica literária?
Até a próxima coluna. Se quiserem fazer comentários, escrevam aqui.

O filme de hoje narra a tentativa de recriar rapidamente um sistema complexo a partir de um novo arsenal tecnológico. O final aponta para a parte raramente considerada nesta equação: o ser humano está na origem e é também o fim.

O filme, Minority Report – A Nova Lei, se passa em Washington no ano de 2054. A divisão pré-crime conseguiu acabar com os assassinatos, pois descobrem uma forma de punir o culpado antes que o crime seja cometido. Como?  Por meio de três videntes. Quando eles têm uma visão, o nome da vítima aparece escrito em uma pequena esfera e em outra esfera está o nome do culpado. Também surgem imagens do crime e a hora exata em que acontecerá. Estas informações são fornecidas para uma elite de policiais, que tentam descobrir onde será o assassinato, mas há um dilema: se alguém é preso antes de cometer o crime pode esta pessoa ser acusada de assassinato? O líder da equipe de policiais é John Anderton (Tom Cruise), que teve o filho sequestrado aos seis anos. O desaparecimento da criança o fez se viciar em drogas e ainda continua dependente, mas isto não o impede de ser o policial mais atuante na divisão pré-crime e acreditar que a tecnologia conseguiu resolver todos os problemas de criminalidade. Porém algo muda totalmente sua vida quando vê, através dos precogs, que ele matará um desconhecido em menos de trinta e seis horas. A confiança que Anderton tinha no sistema tecnológico rapidamente fica abalada e John segue uma pequena pista, que pode ser a chave da sua inocência: um estranho caso que não foi solucionado. Mas apurar não é uma tarefa fácil, pois a divisão pré-crime já descobriu que John Anderton cometerá um assassinato e todos os policiais que trabalhavam com ele tentam agora capturá-lo.

Trouxe esse filme hoje porque tenho lido muita coisa com um tom de terrorismo, decretando  quase o fim da produção editorial da forma como a conhecemos. Como o espaço é curto, vou simplificar o que tenho lido sobre mitos e verdades, porque a impressão que tenho é que há muitas vozes para falar sobre esse fim, sugerindo que vamos todos parar num limbo, pois se tira uma coisa e não se coloca nada no lugar.

Fato: O ebook elimina o papel impresso. Nem posso dizer que há um componente de preservação da natureza aqui, pois teria de haver um estudo sério para afirmar que o impacto de produção de um Tablet ou um Ipad ( e especialmente o seu descarte, com suas baterias poluentes) é menor que a produção de 20 exemplares de livros.

Isso quer dizer objetivamente  que as gráficas de livros terão de encontrar formas alternativas de utilizar a sua força produtora de livros comuns:  investindo em tecnicas de produção mais elaboradas, para diferenciar seus produtos e investindo em impressos para outros segmentos. E as livrarias passam a focar tambem em outros produtos(como já fazem) e a fortalecer seu braço virtual.

No entanto fala-se como se o surgimento do ebook fosse acabar com o livro impresso e também com a cadeia de produção.  Ora, a grande diferença é o meio. Sai o papel e entra o tablet. O conteúdo basico do livro é quase o mesmo. Ainda que o ebook acabasse com o livro impresso, toda a cadeia produtora precisaria ser mantida: autores com grandes adiantamentos; corporações que investem pesadamente neles, tradutores, agencias de marketing, estúdios de Hollywood, revisores, designers etc.

Alguém imagina que uma série como Guerra dos Tronos, Crepúsculo ou a biografia do Steve Jobs poderia ser publicada sem essa rede de colaboradores?

O ebook vai fazer as pessoas lerem mais. Stop! O fato de eu conseguir colocar 1000 títulos em meu Ipad vai me dar chances de ler mais livros?  Meu HD cerebral e meu tempo de leitura vai aumentar porque agora consigo carregar 1000 livros em minha pasta?

Não conheço ninguém que lê mais de três livros ao mesmo tempo. Quem o faz, deve fazer por exercício profissional ou para provar alguma teoria. Então porque isso é tomado como se a revolução eletrônica fosse fazer todo mundo se tornar um viciado em livros?

Vamos comparar: O que aconteceu com os computadores dados às pessoas nas escolas:  Elas os usam prioritariamente para investigações científicas, estudos? Não. Em geral as pessoas se mantêm nas redes sociais; os adolescentes ficam copiando trabalhos de universidade; adultos vão para sites de encontro, pechinchas e notícias de sua área de interesse.  No entanto, acreditava-se na época em que começamos a ter acesso a computadores pessoais que nos tornaríamos quase como programadores, revoluciorários do novo mundo.  Isso não aconteceu. Virou um eletrodoméstico/eletroeletrônico como tantos outros que utilizamos na mais variada das vezes para nos comunicar e para entretenimento. Porque com o Tablet esse conceito  seria diferente?  Estudos já apontam que os tablets se tornaram principalmente um computador pessoal. Ler livros neles é uma função mais que secundária. Então, se alguma indústria corre riscos, é a empresa de computadores que não produz tablets.

O Ebook é mais barato?  Sim. O livro eletrônico no Brasil é, em média, 30% mais barato.  Mas quantos livros você precisará ler para essa conta fechar incluindo o preço do aparelho e o tempo de trocá-lo por um novo e mais avançado?  Se você lê dois livros por mês( o que é uma média ótima), pagando 30 reais por exemplar, terá gasto ao longo de dois anos R$ 1440,00.

Num Tablet você gasta cerca de R$ 1400,00 hoje, e depois R$ 1008,00 para ter acesso aos 48 livros.  Então é mais caro.   E há o risco de perder, quebrar ou ser roubado. Além de muita gente não se sentir segura em utilizá-lo para ler num local público como ônibus, praça, parque ou metrô. Então nem é mais barato, você paga os 48 livros antecipados, e não é mais seguro.

Essa conversa já aconteceu com processos mais desenvolvidos no restante do mundo para uso de energia elétrica nos carros, energia solar nas casas e o sistema só foi adotado pela população quando o custo passou a ser subsidiado por uma política pública.  Então, acredito que precisaria haver uma larga subvenção estatal para o ebook assumir o lugar do livro impresso. Mas se isso näo ocorreu no Brasil com processos que põem em risco a saúde do planeta, como energia solar e elétrica, não deve acontecer com o livro.

O Ebook irá eliminar a figura da editora do centro do negócio.  O mercado é sempre um balizador da melhor qualidade da produção editorial nacional e estrangeira. Quando digo o melhor, quero dizer, o melhor de todas as áreas publicadas, seja terror trash, da piada para crianças ou ficção literária.  O livro que merece ser publicado é aquele que tem gente interessada em lê-lo.  E as editoras concorrem para selecionar os melhores autores e temas. Se não houvesse editores fazendo essa seleção, cada leitor teria de se pautar pelos comentários de gente que leu antes, sem nenhuma expertise como crítico e que pode ter um gosto bem duvidoso. Com a universalização da produção e acesso a conteúdo, o segredo estaria em filtrar o lixo e ver o que importa.  Há uma corrente que acha que isso pode ser feito computacionalmente (inteligência artificial) e/ou pode emergir através de crowd wisdom (recomendações, ratings, etc). É preciso atentar que o rafting já se mostrou em vários casos falho. Muita gente convoca amigos para postar em sites recomendaçoes para livros( acontece direto na Amazon).  Hoje já se descobriu inclusive que autores encontraram meios de criar números falsos de seguidores em redes sociais no Brasil.

Lembro de um passado recente, quando dirigi a área editorial de uma fundação nos anos de 1990 e falava-se do programa de revisão ortográfica. Ele iria resolver o problema dos erros nos jornais, revistas e livros. Passados mais de 15 anos esse programa não avançou muito. Ele corrige grafia, algumas concordâncias e trabalha com uma pontuação mais clássica. Nada que elimine a figura do editor de textos e revisores. Para ser capaz de se criar um programa que eliminasse a figura da revisão de textos, do tradutor, teria de se desenvolver um software capaz de criar idéias. Algo muito distante ainda.

Não consigo imaginar que um homem de tecnologia possa dar conta de criar um sistema capaz de repetir ações humanas num sistema que não é matemático, como a escrita. Taí o fato de a calculadora ser um instrumento quase perfeito e ter sido criada há 4400 anos e o nosso simples revisor de textos ser tão falho em nosso dias e, sobretudo, tirar a leveza e a arte de qualquer texto.

Por que essa ideia central de que a tecnologia vai resolver nosso “problema humano” tem muito para não funcionar?  Haveria muitos pontos para citar, mas como estou na coluna de filmes, baseio-me neles.  Todos nós já assistimos disparates tecnológicos e inovações que pareciam impossíveis saírem de filmes futuristas e parar na vida real.  Foi assim com o celular, com a TV, e daqui a pouco vão criar a transmissão telepática. Mas e máquinas que substituem a criatividade e a coerência humanas?  Os filmes, dezenas deles, que já produziram essa tentativa de vivermos sob adminstração de uma inteligência artificial , ou terminavam com a mensagem de que as máquinas destruiriam a vida ou entrariam em pane ou ainda nos escravizariam de uma forma a tornar a máquina, e não o homem, a finalidade de tudo. Vejam Eu, Robô; Resident Evil; O Dia em que a Terra Parou; Wall-e entre tantos outros. Julio Verne escreveu: Tudo o que um homem pode imaginar outros poderão realizar. Se as pessoas não entendem que a substituição de nosso esforço intelectual e arbítrio por máquinas não funciona na ficção futurística será que há chances reais de se tornar realidade? Falando de outro jeito: se não pode ser imaginado pode se tornar real?

 

Minha conclusão: mascarado de tecnologia como sistema perfeito, o desenvolvimento tecnológico, continua a ser gerido pelo homem.  Então porque essa coisa de dizer que vamos tirar a figura dos editores como se fossem vilões e trocá-las por um editor de rafting, de score, de votos eletrônicos?

Essa nova tecnologia dará liberdade ao autor, que não precisará de editora para encontrar seus leitores. Essa idéia parece muito absurda.  Quais são os jornais e revistas realmente lidos? Folha(portal UOL); O Globo ( Globo.com); Veja, Exame, Carta Capital, Rascunho, Blog do Noblat, Glamurama, Dimenstein. E vários outros.  Alguns são físicos, outros virtuais, mas o comum entre eles é a estrutura editorial.  A internet não mudou nossa confiança neles. Se a pessoa quer ser lida sem passar pelo crivo de uma editora basta colocar o livro num blog. Me digam quantos leitores, fora do circulo pessoal, irá realmente ler aquele livro?

A liberdade de publicar na net já existe.  O que não existe é uma demanda de investidores interessados em colocar dinheiro e marketing em produtos que não têm retorno garantido. E para o livro ser vendido em livrarias virtuais, diante da tamanha demanda de produtos, a livraria usa o crivo de apostar em editoras que já demonstraram capacidade de realizar um bom trabalho editorial. A liberdade de decidir o que fazer com o seu texto qualquer autor sempre teve e aqueles que querem decidir sozinhos tudo podem ter escolhido aí o caminho, e talvez o público, mas se ele quer ser lido por muitos, precisa contar com outras pessoas, e se tem gente investindo dinheiro, essa “liberdade” deve ser dividida. Quem investe mais nesse pacote de ações decide como aquele investimento deve ser dirigido.

O autor vai receber mais por livro editado. Vamos às contas: Se um livro custa 20, a editora recebe 10 reais das livrarias( em geral 9,50) e paga ao autor, portanto 2,00, algo como cerca de 22% da receita bruta do livro ao autor.  No ebook, o livro custa R$ 12,00 e o autor recebe entre R$ 2,50 e R$ 3,00 por livro vendido na maioria das casas editoriais e 1/3, ou seja, R$ 4,00 nas pequenas editoras. Qual é a grande diferença?  Receber mais por um trabalho realizado por uma pequena empresa, onde o autor precisa trabalhar na divulgação para vender livros ou receber menos de mais exemplares vendidos, onde o esforço de vendas está fortemente relacionado com a marca editorial? Não é assim toda a regra de mercado?  Baixamos os preços conforme a tiragem; reduzimos margens para ganhar menos por unidade, mas vendemos mais exemplares.

Vejam. Há mais de uma década, nós editores temos uma opção de pagar um royaltie 40% menor aos autores para fazer versões de livros em formato pocket. No entanto, a demanda desse livro cujo atrativo é o preço não explodiu porque a diferença de preço entre as versões pocket e brochura ainda não se tornou decisivo na compra de um livro com aspecto mais simples nas livrarias. E creio que isso continuará como regra entre os leitores que puderem comprar um tablet.

Há sim coisas que não se fala dos ebooks.  Ele precisa de mais gastos editoriais. Para ele ganhar mercado e atender à sua finalidade, que não pode oferecendo apenas uma versão eletronica do livro impresso (porque assim as pessoas por um bom tempo preferirão o livro impresso), ele tem de oferecer mais.  E para isso, precisará contar com programas e designers cada vez mais competentes. Com editores extras para criar conteúdo interativo virtual, ou seja, toda a cadeia de pessoas que se utiliza para o livro impresso, só que somada à do conteúdo virtual. Isso para que se faça sentido optar por uma versão eletronica. E isso não é barato e nem vai ser superacessível para todos.   As redes virtuais deram hoje aos leitores a qualificação de críticos literários, então reduzir custos na cadeia da produção editorial não é o caminho para uma editora que pretenda crescer.

Anos atrás li um livro que se não fosse religioso poderia ser tomado como excelente novela comercial. Era um livro psicografado por Chico Xavier e contava a história do cristianismo nascente, intitulado Paulo e Estêvão. Obra de fôlego, acho que umas 600 paginas, o que tirei dali foi o seguinte: se tudo o que se contava ali for verdade*, passados dois mil anos o ser humano não mudou nada em sua essência. Somos os mesmos: inveja, ciumes, guerras, briga por poder, ganância, crimesContinuamos os mesmos bárbaros, só sofisticamos nossas flechas e lanças.  A evolução não mudou a humanidade. Só ganhamos eletrodomésticos.  E eles servem para fazer a gente executar mais tarefas em menos tempo.

Fico desconfiado do discurso de assustar o mercado estabelecido. Essas profecias raramente acontecem, pois o mercado sempre encontra formas de se recriar e aproveitar os recursos em novas atividades. Mas para “vender” essas propostas estes futurólogos passam ao largo de pontos cruciais. E tirar valor da cadeia editorial como se ela impedisse que muitos autores que não tem seus livros lançados continuem inéditos esquece de que isso talvez seja bom.

*E não estou pondo em questão isso, mas utilizando-o como exemplo e baseando-me nos livros de Historia que nos diz a mesma coisa sobre os seres humanos de mil, dois mil anos atrás.


Magnólia – O valor de cada área no projeto editorial

Cresci ouvindo uma história que versava sobre a importância de um parafuso numa engrenagem gigante. Cada um tinha sua importância e mesmo aqueles célebres, feitos de material nobre, não poderiam executar bem suas tarefas sem que o minúsculo parafuso de ferro fizesse a sua parte. Este é o tema da coluna de hoje.

Para quem gosta de um pouco de filosofia, psicanálise, ou simplesmente um ótimo entretenimento, Magnólia tem tudo isso. Com um elenco incrível( Juliane Moore, Philip Seymour Hoffman, Alfred Molina, Tom Cruise( numa criação interessante), William H. Macy, Jason Robards e muitos outros, vale a pena descobrir ou rever este filme. Nele há espaço para excelentes atuações de quase todo mundo, pois não é uma história com foco no olhar de uma pessoa, mas de várias, que se conectam ao final, sem a forçação de barra que acontece alguns filmes, entre eles Crash – sem limites, onde o bom vira mau e o mau parece bom. Não, aqui não tem esses clichês e coisas que foram criadas aqui já foram repetidas em outros filmes, de tão boas. Quem gostou de Beleza Americana, Short Cuts, Amores brutos ou A pele que habito pode gostar deste.

O filme conta um dia na vida de 9 personagens, mostrando seus dramas, sonhos, desesperos e busca por felicidade. Uma criança que é usada pelos pais para vencer em concursos de perguntas no estilo “Quem quer ser um Millionário?”; Um adulto, que parece ser a versão adulta da criança, só que com todas as consequências de ter perdido sua vida e se tornado um objeto de disputa pelos pais, que se separaram; Uma mulher que se casou com um velho pelo dinheiro e descobre, quando ele está para morrer, que o ama; um homem que cresce odiando o pai que abandonou ele e sua mãe, quando estava com câncer, deixando-o sozinho para cuidar dela, e ainda uma jovem que se tornou dependente de drogas e, com a ajuda de alguém que a ama, consegue quebrar o silêncio a respeito de um fato que a levou ao comportamento autodestrutivo.

É um filme longo, de 3 horas, mas que voam. Apesar de fortes, as histórias se desenrolam com delicadeza, sem tentar emocionar os leitores mais que a história permite. Pelo contrário. Os personagens, ainda que sejam bem diferentes, não buscam essa emoção fácil. Ou deve ser o roteiro e a direção cuidadosa de Paul Thomas Anderson( Boogie Nights, Sangue Negro) ou o porque me parece um filme que considero indispensável.

A película mostra como as atitudes acontecem em cadeia, levando a outras, a outras, até que provoque o efeito final. E na abertura, que vale a pena ver e rever, há um vídeo-documentário, que parece totalmente deslocado da história da Rua Magnólia, mas que fornece a mensagem central. São vídeos antigos, narrados como se fossem histórias policiais, em que coisas fatais acontecem, raramente como qualquer um poderia prever, mas quase como um golpe do destino. Numa delas, um casal que briga escandalosamente todos os dias no apartamento, chegando a disparar tiros com a arma descarregada, acaba por acertar o corpo do próprio filho, que na hora da briga, jogava-se da janela em suicídio. Como fora morto não pela queda, mas pelo tiro, ainda que por acidente, o casal vai para a cadeia pela morte do filho, ainda que por acidente, o casal vai para a cadeia pela morte do filho( que é quem tinha carregado a arma, pois não agüentava mais aquelas brigas).  A cena é tragicômica, como se fosse um filme mudo de Chaplin e esse é um dos traços do filme. São três incríveis coincidências. Mas prefiro pensar que me parece um destino cavado pelas próprias vítimas. Veja o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=d1HSb-uJ4jY

Seja fato mais recente, por conta de utilizarmos muitos colaboradores freelancers, mas toda a minha memória da área editorial indica que mesmo sendo o setor responsável pela atividade fim deste tipo de empresa, há quase sempre um número maior de funcionários trabalhando em departamentos administrativos, financeiros, comercial/marketing que editorial. E eles interferem no sucesso/fracasso de um lançamento com detalhes tão sutis, de práticas administrativas, fiscais, tecnológicas etc e podem levar uma empresa a q ualquer dos patamares, para o bem ou para o mal.

Creio que ser editor é uma das atividades mais perigosas. Deveria se ganhar algum adicional de insalubridade. Há o risco de ficar egocêntrico ( por ser quem publica aquilo que outros terão a oportunidade de ler), de ficar isolado, há o peso de responsabilizar-se por palavras diante de uma grande massa crítica, o que pode levar à processos (mais especialmente no passado) e atualmente a ameaças no twitter ou facebook. Mas a principal dificuldade é lidar com a frustração de ver um livro, pensado e planejado duran te vários meses, até anos, ao ser lançado, por alguma falha no processo industrial/administrativo, perder suas chances de chegar ao público. E penso que como essas falhas acontecem o tempo todo, parte delas ocorre porque os demais setores envolvidos no processo do livro não conhece a trajetória do que chegou até ele.

Em linhas gerais, um livro para ser contratado precisa de um autor que coloque nele a bagagem de sua vida. Alguns carregam 40 anos de pesquisas, outros uma história da infância que sempre o comoveu e ele guardou no coração para um dia compartilhar com as pessoas. É a memória do holocausto como de Anne Frank; a experiência políticade Gandhi, que mostrou como poderia divergir sem violência; ou a história da mulher comum que se apaixonou num grande navio por outro homem e largou o seu marido. E o navio naufragou. São histórias que podem não precisariam ter transformado muitas pessoas no mundo, mas só teriam chances de ser contadas para uma grande audiência numa oportunidade. Assim acontece com um livro.

Vi muitos lançamentos serem atropelados por erros bobos: fiscais, gráficos, de projeto, de estocagem, de prazo, de perder uma data importante, de chegar ao ponto de vendas em data distante da campan ha de marketing ou da divulgação na imprensa; de enviar convites em cima da hora, de não mandar livros para a cidade onde o autor é conhecido, da livraria que o coloca numa seção inadequada, da falta de crédito do autor de todas as fotos, desenhos ou ilustrações… Daria para fazer um grande check list. Já tive um livro que mudou o papel em cima da hora e a gráfica não pediu a alteração de lombada. Resultado: Dois anos de trabalhos,  40 autores envolvidos e o livro novo dava a impressão de ser um livro de saldo, pois a capa parecia ter sido reaproveitada, escapando da área em que deveria estar e entrando na lombada. Poderia dar mais exemplos, como um shirink desnecessário, que inibe a abertura de um livro; de perder o envio de livro para um evento onde o autor é o grande palestrante, como uma feira como de Porto Alegre.

Foi-se o tempo e eu presenciei, em que os departamentos editoriais eram os bons numa editora. Adoro que isto seja passado, pois não vejo existir superioridade em uma área que não se movimenta de forma independente achar que tem maior valor que outra. Mas creio que vale a pena dar a conhecer a todos os outros departamentos como um livro nasce, quanta negociação existe, quanta expectativa, porque ele tem um determinado projeto, que público visa atender; porque não deve sair shirinkado, porque deve ser coloc ado na prateleira correta, porque o pagamento de direitos autorais deve ser feito na data indicada ou avisado o atraso, porque o relatório de prestação de contas deve ser claro, objetivo.  Um único exemplo como o do livro ser catalogado em seção errada( seja pelo assistente editorial, pelo setor comercial da editora ou setor de compras da livraria), e todo o trabalho de fazer o livro vai para o espaço, pois ele não vai ser encontrado.  E todos esses cuidados podem  indicar se a editora conseguirá ter acesso ao que pode ser o próximo super bestseller, que vai manter todos trabalhando com felicidade, ou reduzir sua participação no mercado e deixar muitos sem emprego.

Dar a conhecer aos setores de toda a empresa dessa variedade de ações e etapas na produção de um livro pode não evitar todos os problemas, mas acredito em duas vantagens: compartilha a felicidade de trabalhar numa empresa editorial, aproximando as áreas mais distantes, dignificando a finalidade de cada um no processo e favorece um diálogo maior entre áreas distintas, reduzindo ruídos, convergindo as forças para o objetivo: Atingir o maior número de leitores.

Um link interessante: http://www.rubedo.psc.br/Cinema/magnolia.htm

Até a próxima coluna. Mandem sugestões de temas que eu procuro em algum filme. Ou de filmes.

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O sentido de emergência que dinamiza uma geração.

Quando assisti ao filme, A Rede Social, não esperava mais que uma diversão, mas obtive ali algumas respostas e confirmações sobre um tema que vinha conversando com amigos a respeito da pressa por acontecer que se abate sobre as novas gerações.

O filme: Marc é um jovem que freqüenta a universidade de Harvard. Depois de levar um fora da namorada, para se vingar, hackeia fotos de mulheres das redes internas de universidades e propõe um programa de avaliação e comparação das beldades. Algo tão simples assim tinha de dar certo, basta ver que na época do Orkut os posts mais visitados eram aqueles em que o tema ou a pessoa que fazia a ultima postagem levava a próxima a passar a corrente pra frente. Era algo igualmente sem muito trabalho ou esforço mental. Mas o sucesso lhe mostrou que aquilo poderia ir além. Em dias Marc se tornara alguém e popular, então, de certa forma, para lidar com sua própria timidez, investiu todo o tempo na criação de uma rede interativa que logo virou mania: dependia de divulgação boca a boca e convite para ser acessada. A rede cresceu assustadoramente rápida e foi oferecendo ferramentas para manter cada vez mais e mais as pessoas conectadas, dividindo com amigos, colegas ou com alguém conhecido de alguém, experiências pessoais. Ela é hoje uma das empresas mais promissoras do mundo, então, conhecer a história como tudo isso começou, o que fez dar certo, as brigas, os processos judiciais, o fim de uma amizade, a corrupção de valores… é bem interessante.

Para mim, além da diversão e informação, uma das principais mensagens do filme é sobre velocidade como a coisa acontece.  Vemos ali um jovem nerd, que uma década atrás seria o alvo preferido da escola para a prática social do bulling transformar-se numa estrela, num grande vencedor.

Mas comecei a pensar que essa idéia de sucesso instantâneo possa estar contaminando a geração que hoje tem menos de 30, chamadas  de Y.

Tenho visto cada vez mais nas pessoas dessa geração um sentido de urgência absurdo. Querem sucesso, reconhecimento, acesso imediato a tudo o que a carreira a qual acabaram de aportar tem para oferecer no decurso de algumas décadas.  Depois de perceber isso em mais de duas dezenas de pessoas a quem tenho acesso, entre colegas de trabalho e amigos e familiares, comecei a conversar com outras pessoas que percebiam a mesma coisa, então acredito que é o pensamento desta geração.

Há duas formas para obtenção de valores culturais: a cultura reificada e a cultura por processo. A reificada é aquela obtida, comprada, absorvida. Por exemplo, quando um país invade outro e absorve os bens e valores culturais( ex: império romano); e a cultura por processo – obtida ao longo de aprendizado, reconhecimento da cultura, experiência. Ela se forma com uma via de mão dupla entre o tema e o indivíduo, quando a matéria interage com o aluno e o transforma; quando a arte pode ser mais bem apreciada, pois já se pode tanto entender a origem daquela escola artística quanto compará-la com todos os seus executores. E depois disso mediar o próprio debate interno para assumir suas opiniões com embasamento.

No afã do imediatismo, sem tempo para processar cada coisa, esse pensamento atual em muito se assemelha à cultura reificada, como se o amadurecimento, o desenvolvimento, as etapas pelas quais temos de passar pudessem ser compradas, puladas, tratando-as como mero obstáculo desnecessário como o apêndice _ sinal de que já tivemos cauda de macaco mas hoje não tem nenhuma utilidade.

A geração y vive numa necessidade de acontecer rapidamente, como se tivéssemos numa contagem regressiva e fosse preciso viver tudo no mais breve tempo possível. Acho um exagero, mas se isso acontece se deve a diversos fatores que criaram esse pensamento e necessidade. Não vou me ater a eles, pois não é minha praia. Quero tratar aqui apenas dos resultados que esse comportamento pode levar. Se pegarmos o exemplo de Mark Zuckerberg e achar que ele se replica o tempo todo pode-se incorrer num grande equivoco, com sequencias de frustração constantes. Não é a todo momento que um jovem com uma idéia cria um mundo novo e faz fortuna. Nem que há essa capacidade de qualquer jovem ensinar aos mais velhos o caminho do sucesso e do reconhecimento. Isso acontece, mas não é o tempo todo. E se vira notícia, livro e filme é porque é algo carregado de ineditismo.

Eu tenho um amigo que sempre achei genial, mas o vi se perder por perceber a si próprio como alguém com grande potencial. Depois de cometer diversos equívocos funcionais eu falei para ele. Fuja da crise de gênio. Ela pode te jogar num buraco. Conheço dezenas de pessoas geniais trabalhando para idiotas. E porquê? Porque não entregam trabalhos no prazo, porque agem como prima-donas; porque tentam recriar num único dia processos que funcionam para as empresas há décadas. Ou porque lhes falta inteligência prática. É uma atitude contra a inovação?  Não, absolutamente.  Mas quem quer inovar tem de semear. Não adianta vir com uma grande semente num terreno árido. Um garçon precisará estudar, ter confiança dos colegas e ser reconhecido pelos amigos como grande cozinheiro antes de emplacar um prato novo num restaurante famoso. Se ele tentar isso enquanto sua função é a de equilibrar pratos e copos e limpar mesas, não será ouvido. Se você tiver ouvido que alguém conseguiu isso no telejornal, repito, só virou notícia porque é um destes casos de exceção, não de regra.

As coisas estão acontecendo de forma muito rápida, é verdade.  A forma como nos relacionamos com a tecnologia nos deixa reféns do ultimo modelo, da ultima forma de comunicação, de agilização do trabalho e com a sensação de que, se não acompanharmos essa evolução estaremos fora do jogo, do mercado de trabalho, da sociedade.Talvez essa impermanência de valores é que gere a necessidade de correr contra o tempo, de vencer barreiras, de transgredir com as regras e percursos já consagrados.

A geração madura vai ficar obsoleta mais rapidamente que 20 anos atrás, mas penso que quem destas novas gerações apreender mais com a experiência e se lançar com mais segurança e preparo sempre vai se sair melhor. É não dar um passo grande demais antes do tempo, não ficar ansioso por não ter o reconhecimento financeiro igual aos superiores. Hoje vejo jovens de 20 se prepararem para comprar o primeiro imóvel enquanto, nas condições semelhantes, 20 anos atrás, boa parte só conseguia tentar um financiamento para esse fim aos 40, e reunindo FGTS de décadas de trabalho e outras economias durante a vida. Isto é um avanço, mas não se pode meter os pés pelas mãos.

O assunto é extenso e por mais que pareça o contrário, penso que o que escrevo aqui é uma troca de experiências. O que quero dizer é: calma: antes foi bem mais difícil. As gerações devem aprendem umas com as outras. As regras de uma nem sempre funcionam o tempo todo. Ter essa consciência sempre presente pode ajudar tanto a reduzir a ansiedade quanto a investir com profundidade em todos os seus projetos, criando a base antes do topo.

Muitas matérias de revistas e jornais sobre carreiras falam sobre as habilidades das novas gerações e eu ponho uma nova questão aqui: e as desabilidades?  Se há muita velocidade, há perda de compreensão, e muitas vezes, superficialidade. Se há muitos amigos virtuais, a relação não tem profundidade. Se há interatividade virtual há introspecção real. Vejo gente que não consegue se comunicar com quem está seu lado e resolver um problema por meio de diálogo, por falta de traquejo, habilidade de negociação. Não sabem lidar com o outro se não for através de um email. Não sabem resolver problemas. Tive uma colega que vivia me trazendo os problemas: Ah, não mandaram a foto; passei o contrato, o setor tal perdeu, o autor está furioso, o livro vai ficar parado na gráfica se ele não for encontrado. Eu perguntava: o que você é? Repórter?  Preciso que converse com as pessoas, encontre soluções, dialogue para resolver os problemas. Resolver. Uma habilidade que pode ficar perdida em tantas relações virtuais e que se assemelham, no ambiente profissional, a má burocracia. Um sistema de processos quase mecânicos feitos para atrasar qualquer processo.

Talvez esteja aqui um ponto que possa diferenciar as pessoas de sucesso da nova geração: viver os princípios dessa velocidade sem ignorar o aprendizado das anteriores. O volume de informação a que temos acesso está cada vez mais se impondo diante de nosso tempo diário, tomando horas preciosas de apreciação de prazeres reais, aprendizados, cultura, reflexão. Quanto lixo consumimos em mensagens, em paginas centrais de portais, em fotos trocadas a todo momento, em piadas de internet e correntes ameaçadoras caso não passemos adiante e tudo isso é tratado como se fossem as coisas mais importantes do nosso dia. E quanto essas coisas nos distraem de nossas atividades de modo que levamos mais tempo para executá-las e, portanto, temos menos tempo de lazer, de almoço, de ócio criativo?

Por curiosidade vejam o trailer do filme: A rede social 2, que mostra o que aconteceria com o mundo se o facebook acabasse e como nossas atuais atitudes no face ficariam ridículas no mundo real. Muito divertido: http://www.youtube.com/watch?v=TRlUDvXP8x4&feature=player_embedded

Até a próxima coluna. Se quiserem fazer comentários mandem para o meu blog: www.faroeditorial.wordpress.com


Quando a relação autor-editor se torna qualquer coisa, menos profissional.

LOUCA OBSESSÃO (Misery, 1990) Direção: Rob Reiner. Elenco: James Caan, Kathy Bates, Lauren Bacall, Richard Farsnworth, Frances Sterngahen.

Este um filme clássico diferente. E tem vários méritos: não é o tradicional cult, nem é tão antigo, mas foi o primeiro filme de terror a dar um oscar de melhor ator principal. Geralmente filmes de terror não são cogitados ao Oscar, pois concentram sua ação na violencia em si, não no drama psicológico. Este foi um caso de encontro entre um ótimo texto de Stephen King com uma excelente realizaçao de um diretor, Rob Reiner. A escolha da atriz, Kathy Bates, desconhecida na época, foi mais que acertada. E ela ganhou o Oscar pela atuação, disputando com Meryl Streep; Julia Roberts( Por Uma linda Mulher) e Angelica Huston.
Resumo:
James Caan é Paul Sheldon, escritor de uma série de livros de sucesso chamada Misery. A série leva o nome de sua personagem principal e é o acontecimento editorial de sua editora. No entanto ele está cansado de escrever mais um romance sobre o mesmo tema. Sente-se escravizado por sua personagem e decide acabar com a série: Como? Poderia simplesmente fazê-la casar e ter filhos, dar-lhe um happy end, mas preferiu algo mais radical. Matando sua personagem. Assim ele vai até o seu refúgio em uma cidadezinha, num pequeno hotel, onde passa sozinho vários meses para escrever, como o fez para escrever todos os outros livros. Termina o livro e toma o caminho de volta dirigindo seu velho mustang. É pleno inverno. As estradas estão cobertas de neve e ele dirige por ruas que parecem gelo puro. Então, perde a direção e o carro cai num barranco. Quase desacordado é retirado do carro, uma pessoa o carrega sozinha na neve. Acorda 2 dias depois, e se vê numa casa, sendo cuidado por Annie Wilkes(Kathy Bates). Ela é enfermeira e o salvou do acidente. Disse que estava há dias espreitando-o do lado de fora do hotel. Ela é sua fã numero um. E viu todo o acidente, pois o seguia e por isso o salvou.
Logo que recobra a consciência ele quer falar com sua agente e com sua filha para dizer como está, mas segundo ela, a nevasca cortou todo o contato com a cidade. Então Annie se oferece para ir à cidade, ligar e dar o recado. O que não faz. Sua agente avisa a polícia. O xerife comeca a investigar até achar o carro e vai até a casa de Kathy.
Lá , pouco a pouco, a imagem da fã amorosa começa a mudar. Quando ela lê o novo original que apresenta a morte de Misery, ela alterna entre a doçura e o ódio profundo. Bate no corpo já alquebrado de seu idolo, o tortura e começa um jogo em que ele sabe, pode acabar morto se Annie não acreditar que ele está fazendo tudo o que ela deseja. Um destes desejos é a queima do original inteiro. Ela o coage a queimá-lo…. e tamanha é a tensão desta cena que ele acata. Tenho de confessar. Senti um aperto quando vi essa cena. É como se alguém jogasse fora o disco rigido de um trabalho que levou mais de 6 meses para fazer. Se ele quisesse o livro teria de reescrever inteiro, frase por frase, e não acho nada mais desgastante na vida que ter de refazer um trabalho de criação artistica, sobretudo quando já se gostou do resultado.Quantas vezes não perdemos pra sempre a frase que não anotamos? Há gente que pode se orgulhar da excelente memória. Eu não conseguiria lembrar das frases escritas durante meses, de cada construçao a ponto de reescrever…

Com a chegada do xerife, que num primeiro momento ela o engana, mas, já de saída, ao ouvir os gritos de Paul Sheldon ele volta e é surpreendido por Annie, o filme assume outro tom. O clima fica mais violento. Trava-se uma batalha de emoções e cada passo errado por ser o fim do nosso autor de bestsellers. As lutas entre a enfermeira e paciente parecem intermináveis, dignas de um Street fighter, refletindo tanto a loucura da fã quanto o desespero do autor, tendo de lutar com todas as dificuldades de mobilidade, para sair dali vivo. Vejam os vídeos: http://www.youtube.com/watch?v=hDoUpcOI-T8
http://www.youtube.com/watch?v=xFzjIPzEVbY

É um filme para ver e rever. E eu o trouxe aqui por tratar da relação neurótica da fã com seu autor, mas na transposição para a coluna quero tratar da relação entre autor e editor. Desde o filme A Proposta, em que falei sobre este assunto, recebi muitas mensagens comentando as dificuldades que pessoas da área editorial tiveram nessa relação e mais gente me pedindo para voltar ao assunto.
Como também já tive muitas experiências assim, autores se transformarem de anjos a ditadores em poucos meses, trago aqui um pouco mais sobre o assunto.
Nao é dificil entender que um autor está entregando algo muito pessoal num livro e mesmo tendo por contrato estabelecido que sua parte no processo é a entrega do texto, ele trata do livro como se fosse parte dele. Uma rasura, um furo de revisão, uma foto mal impressa, um nome que faltou nos créditos ou um nome incluído nos créditos numa função de edição de texto, pode criar uma história completa. E sendo sentido como parte dele pode assumir um tamanho imenso, algo como ofensa pessoal pública.
Um dia um autor recebeu seu livro e me ligou _ tendo antes falado com TODOS os seus amigos a fim de garantir que todos pensavam como ele_, perguntando porque eu havia colocado no copyright uma pessoa com a função de preparação de textos? Ele estava incomodado que alguém pensasse que ele havia precisado de ajuda no trabalho de escrita. E tive de explicar demoradamente que se tratava de um termo usual para uma das funções editoriais de revisão de textos.
Outro caso, de um autor que poderia bem passar por um monge tibetano, mas quando viu seu livro sair da lista de mais vendidos por uma semana e teve uma crise que me ligou durante toda a madrugada revoltado, acreditando que ele havia me entregue ouro e eu não estava sabendo fazê-lo brilhar.
Para lidar com tantos casos assim acabei por elaborar algumas linhas de trabalho, evitando fugir dela e transformando-as em regras:
1 – Contrato. Ele precisa estabelecer o que cabe a cada um. Colocar livro na lista, garantir que se mantenha e que não haverá nenhum concorrente lançando ao mesmo tempo não está em nenhum contrato.
2 – Nunca começar o trabalho editorial sem um contrato.
3 – Na contratação, explicar com alegria o que esta sendo feito( a decisão da editora de investir naquele livro deve ser um momento feliz) e que a ela caberão as decisões para transformar o livro num sucesso, de modo a ter retorno do investimento. Titulo, capa, marketing e distribuição são definidos pela editora. Podem contar com a experiência do autor mas nunca inverter a hierarquia de quem tem a decisão.
4 – Consultar o autor apenas no necessário sem, no entanto, alijá-lo do processo editorial.
5 – Sob a menor sombra de crise, cortar o mal pela raiz. Se um autor escapar da sua área de atuação e quiser decidir sobre coisas que não lhe competem, indique isso objetivamente. Se o tom aumentar, aumente para situá-lo das condições. Se persistirem os sintomas, distrate. Pode ser um projeto em que você trabalhou por meses. Asseguro, a dor de cabeça não valerá a pena. E não conheço casos de projetos lançados sem felicidade que deram muito certo. Conheço o contrário. De montes.
6 – Nunca amarrar um autor na editora por contrato. Um autor infeliz é uma propaganda negativa. O livro pára de vender como mágica. Instaura-se uma energia de má-vontade em todos os níveis. Não vale a pena.

Estou falando aqui de um dos lados do negocio, mas há o outro que precisa ser considerado. O autor precisa estar a par do processo de seu livro; é normal que queira continar participando deste momento que não termina com a escrita do original e o editor deve tentar mantê-lo o mais bem informado possível. É saudável que seja assim para o sucesso da obra e as vendas da editora. O autor deve estar motivado a falar com imprensa, a convidar seus amigos, a escrever para leitores, a postar coisas nas redes sociais e isso só se consegue se estiver motivado, se estiver participando do processo. Por exemplo, como um autor PERDE QUANDO uma editora adia o seu lançamento continuamente? Veja quanto ele investiu em tempo, em expectativas, em adiamento de outros projetos, pois muitas vezes não poderia assumir dois acontecimentos desses, como um lançamento de livro, ao mesmo tempo? Isso deve ser considerado.  Ou quando sabe do lançamento de seu livro porque algum amigo o avisou por tê-lo visto numa loja?  E nem havia sido contatado pela editora para falar de eventos de lançamentos… Isso pode parecer um absurdo para muita gente que lê, mas acontece o tempo todo…
Da parte da editora, acredito que todas as conversas, até a mais dificil, devem ser objetivas e com respeito. Deixar as emoções de lado, colocar os fatos e usar de sinceridade é o unico caminho para resolver qualquer conflito. Não sei o que acontece em outros áreas de trabalho, como na Politica e no meio da Publicidade, mas costumamos dizer que o mundo editorial é pequeno. Toda hora a gente se esbarra com as mesmas pessoas em posiçoes e empresas diferentes. Isso tem um lado bom e um ruim. O bom é que muitas vezes pode parecer uma família, por exemplo, nos grandes eventos do livro, quando as pessoas se reencontram, muitas vezes, um vez por ano e se visitam nos stands e tem atualizadas as noticias um do outro. O ruim é que os passos errados, os desvios de carater são rapidamente espalhados. E isso começa a repercutir na vida das pessoas. Já vi gente sair da área, ter de mudar de ramo depois de desvios de livros, quero dizer, de caráter. Já vi gente ficar, mas que acaba sendo apontada pelo erro por 10, 20 anos, pelas costas e tendo a confiança perdida até mesmo por geraçoes que nem sonhavam trabalhar com o livro. Pensando bem…Talvez isso seja mais um lado bom.
Nunca poderia esgotar o assunto, pois a experiência de cada um é variada, mas espero ter trazido alguma contribuição nestas questões. Regras claras e sensibilidade para agir rapidamente quando um sinal vermelho aponta para uma relação que está entrando por um caminho ruim devem ser resolvidas logo. Curtam o filme. Esse é um daqueles filmes que não envelhecem. Dizem que um livro novo é o livro que você não leu. Este ditado cabe a este filme também.
Na próxima edição penso em buscar filmes bem conhecidos de qualquer área para usar os exemplos em nosso mercado editorial. Por exemplo, Mudança de Hábito, com Whoopy Goldberg. Penso que seria um bom exemplo sobre renovação, gestão e flexibilidade. Estou buscando filmes que abordem algo sobre anti-burocracia fiscal relacionada a departamentos financeiros e algo que possa usar sobre normas das empresas e sobre o que é a missão de uma empresa. Quem tiver indicações, por favor, mandem para mim.

Curiosidades sobre Misery:
• O diretor Rob Reiner havia demonstrado antes seu talento com textos de Stephen King ao adaptar “Conta comigo” para o cinema.
• Misery foi adaptado também para o Teatro em todo o mundo. No Brasil houve uma bela montagem feita por Marisa Orth e Luis Gustavo em 2010, dentre outras.
• Há quem diga que o clipe da Canção Misery da banda Maroon 5 teve uma ponta de inspiração no livro se Stephen King. Uma mulher sem coração que bate no heroi apaixonado durante todo o clipe: uma relação de amor e ódio. Vejam: http://vimeo.com/21417739
Até a próxima coluna. Se quiserem fazer comentários mandem para o meu blog: www.faroeditorial.wordpress.com
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26/10/2011

“O amor acontece” é uma comédia romântica com Aaron Eckhart e Jennifer Aniston. Burke Ryan (Aaron) perdeu a esposa num grave acidente de carro. Para lidar com a perda escreve um livro para ajudar outras pessoas que também perderam alguém que amavam. Seu agente literário não apenas conseguiu que o livro fosse publicado, mas o transformou num enorme sucesso. Burke virou um produto, circulando o país de ponta a ponta, realizando workshops promovendo uma espécie de terapia de grupo. Todos os que participam do workshop perderam alguém próximo e buscam o seminário para conseguir tocar a vida novamente. Seu agente quer mais: aproveitar a popularidade para vender outros produtos como shakes, aparelhos para exercícios e quer que ele tenha seu próprio programa na TV. O autor do livro tornou-se um símbolo da persistência, um modelo, alguém que pode afetar positivamente a vida das pessoas.

No entanto aquele que ministra os cursos não contou toda a verdade. Ele não percorreu os degraus da aceitação da perda que tenta fazer os outros percorrerem. E só vendo o filme vocês saberão, porque não estou aqui para estragar o seu programa (risos), que pode ser alugado ou visto na TV a cabo.

O filme é uma comédia romântica, cheio de clichês, como caminhar na brasa, fazer do limão uma limonada e frases prontas (mas o bom é que o filme traz em si a própria critica). Mas há dois aspectos que separei para se observar.

“O amor acontece” me trouxe duas idéias para compartilhar com os leitores. A primeira, que ilustro com outros exemplos que vivi na área editorial, de que o autor tem de ser capaz de personificar sua obra, tem de acreditar no que propõe com ela, sob o risco de parecer vazio. Uma obra falsa é sempre sem alma.

A segunda questão é que alguns atributos novos começam a se tornar muito importantes no mercado editorial: a capacidade de comunicar o livro que publica e vende é apenas uma delas, mas torna cada vez mais criativo e multifacetado o profissional dessa área, seja editorial ou comercial.

Ok, quase todos já entendem que um livro é um produto industrial como outro qualquer, que um autor se torna um produto, que a comunicação deve ser precisa e definida. Mas no caso do filme, aqui o conteúdo embalado é uma grande mentira.

Lembro de certa vez um autor ir à editora em que eu trabalhava com um livro algo na linha: você não precisa de dinheiro para ser feliz. No entanto, a negociação era bastante difícil, tensa, sem qualquer sinal de alegria transparente por parte do autor e toda discussão emperrou porque ele queria muito dinheiro. Desisti, apesar de achar que o conteúdo tinha uma proposta coerente. Mas não era coerente ele precisar tanto de dinheiro sendo que falava no livro o contrário. E tampouco parecia alguém feliz.

Anos atrás, trabalhando em outra editora, recebi insistentemente uma proposta de um livro chamado Ipanema Diet. Não passei mais que segundos para observar que era um livro que poderia até fazer algum sucesso com gringos, mas não fazia nenhum sentido no Brasil. Quem acredita que exista uma dieta brasileira para deixar as mulheres com corpo de modelo? Afinal, vivendo aqui, alguém já ouviu falar de alguma dieta brasileira que emagreça? Eu só conheço a dieta do arroz e feijão, e posso imaginar qualquer outra coisa que ela produza, menos um corpo sarado. E temos também as dietas de engorda mineira ou da roça dos interiores. Dieta alimentar brasileira para emagrecer sem esforço só mesmo a de água e luz, que se provou uma mentira.

Ainda sobre esse tema tenho observado uma mudança em programas televisivos, sobretudo os do Globo Repórter que, semana sim, semana não, o tema varia sobre dietas para a saúde, fauna e viagens. No capítulo dieta eles chegaram a levar nutricionistas visivelmente obesas anos atrás. Não tinham o cuidado de perceber que aquelas imagens não transmitiam confiança. Claro, nada é absoluto, mas quando tentamos que algo seja reconhecido por tanta gente é preciso que a imagem esteja completamente adequada com o conteúdo e o público a que se destina. É como se tratar com um dentista que tem os dentes com vários problemas.

Esse é um princípio simples, mas nem sempre observado no lançamento de livros. O autor precisa ser um modelo do que vende. Ele pode ter todos os outros 99 senões contra ele menos o que ele decidiu ensinar aos outros.

O segundo, e para mim mais relevante aspecto a se observar na história deste filme, é a mudança de paradigma. Com toda a competitividade, inclusive a sombra tecnológica da revolução eletrônica do livro, do risco de pirataria etc, o livro começa agora a encontrar novos caminhos. Aconteceu antes com a indústria da música em que os cantores voltaram a viver dos shows e passaram a ter nos cds, mp3 e afins um material quase que para divulgação de seu trabalho, um meio de fechar contratos para shows. Não tenho nenhuma previsão do que vai acontecer com o livro. Sou mais um observador que tenta decifrar as coisas a cada momento sem chegar a uma conclusão.

Mas os livros hoje têm os direitos vendidos para cinema e TV, são transformados em seminários, peças, workshops, seus autores são convidados para feiras do livro e ganham nestes eventos até 20 vezes mais do que com os direitos autorais. Lembro de ter lido isso tempos atrás quando soube que Gabriel, O Pensador, que escreveu alguns livros infantis e lançou sua própria editora, ganhava mais dinheiro com os eventos que com os livros. E por que? Porque atrai público e imprensa para estes eventos. E isso vale dinheiro.

Como sempre publiquei livros na linha de negócios com autores brasileiros descobri, logo cedo, que o livro para eles era uma ferramenta muito importante. Era um cartão de visitas que abria portas para seminários e tornavam, aqueles que sabiam se promover, verdadeiras celebridades ou, pelo menos, consultores muito bem pagos, independente de um grande sucesso nas vendas do livro.

Mas essas mudanças também atingem outras duas classes que durante muito tempo permaneceram intactas e precisam hoje se mover de modo diferente: os departamentos editorial e comercial das editoras.

Editores, assistentes e marketing são os lançadores de idéias, então, em lançamentos relevantes eles têm de defendê-las. Para isso precisam sair dos escritórios e falar sobre o que lançam. Se um editor comprou o livro empolgado, precisa ter a capacidade de empolgar os funcionários da própria empresa, especialmente o departamento comercial. Depois os grandes compradores. Citei os grandes porque já tentei, mas não é possível falar com cada rede de compras de livros espalhadas pelo país. Então os editores precisam saber vender a idéia. Não dá para ser o nerd intelectual que conhece profundamente do assunto, super reservado, que não tem a capacidade de criar a curiosidade dos outros para conhecer o assunto, pelo menos folhear. E isso, tenho de dizer, é uma arte.

Vi na última feira de Londres um agente que falava dos livros que vendia, em esquetes, e criava uma cena de impasse sobre o drama de cada história que me deixou fascinado. Não eram livros para minha área, mas invejei aquela capacidade de contar a história de modo curioso. O que me lembrou de um de meus livros preferidos, A marca humana, de Phillip Roth. O professor Nathan Zuckerman, doutor em Letras Clássicas, ao iniciar a primeira aula abria assim:

“Vocês sabem como a literatura europeia começa? Com uma briga. Todas as fontes de literatura europeia têm início a partir de uma luta.” O professor lê em voz alta os versos de abertura de A Ilíada: “Divina Musa, canta a ira de Aquiles…” Começa a ler onde nasce a disputa entre Agamenon e Aquiles. “E qual o motivo de uma enorme batalha, com tanta violência? É tão básico como uma briga de bar. Eles estão disputando uma mulher. Uma jovem, na verdade. Uma menina roubada de seu pai.”

Ao ler este trecho invejei a capacidade daquele professor ficcional criado por Roth. Ele poderia ter feito como alguns catedráticos medrosos fazem: colocar os clássicos numa torre e transformá-los em monstros inacessíveis. Mas não, partiu de um ponto de vista simples, algo que faz parte do cotidiano de qualquer pessoa, para transmitir a mensagem e gerar interesse pela obra. Conheci poucos professores de literatura que sabiam transmitir o que gostavam. E isso vale também para todos os profissionais que trabalham em uma editora.

Hoje editores precisam ser também comunicadores, entender de marketing editorial, saber um pouco de criação publicitária, administração, matemática e não ter inibição. Claro que entender de livros, sobretudo da linha que se edita, é o primeiro requisito, mas a diferença se faz nestas outras qualificações, e em todas elas podemos melhorar a performance investindo em leituras e cursos.

Mas e o comercial? Vale o mesmo princípio da necessidade de melhorar a comunicação objetiva sobre o livro. Vi, em quase duas décadas, o trabalho do comercial mudar muito. Enquanto antes muitos levavam os lançamentos para as livrarias sem saber do que se tratavam, hoje eles estudam cada lançamento, algumas editoras alocam seus vendedores por área de afinidade, para atender a segmentos que eles entendem, e eles conseguem se diferenciar entre os que tiram pedidos dos que levam informação de qualidade aos compradores de livros.

Há muito o que se aprender em qualquer fase da vida. Considero perigosos sempre dois tipos de arrogância: a dos jovens, por conta da inexperiência, quando os impede de reconhecer suas falhas e, portanto, aprender; a dos mais maduros; por conta da experiência (que os faz perder o bonde com o passar do tempo). Eu vivo paranóico para não cair no segundo exemplo.

O importante é manter a mente aberta. E quem assume o compromisso de encontrar saídas a todo momento constrói uma imagem profissional sólida e os resultados aparecem.

Bom, mandem comentários e críticas em meu blog (www.faroeditorial.wordpress.com). Indicações de filmes são bem-vindas. Até a próxima edição!


As horas – Livros que dividem experiências de vida com os leitores

No meu tempo de universidade corria a crença de que toda obra literária é ficcional, mas sou dos que acreditam que toda obra literária é autobiográfica e que se pode decifrar uma pessoa pelas palavras, pelos assuntos, pela forma de se expressar. E se o escrito não parte da própria história pessoal, traz sua visão de mundo. E quase sempre temos aí momentos especiais, em que o autor divide com os leitores suas mais profundas reflexões. Esse é tema que venho destacar nesta coluna.

O filme As horas traz uma história recriada por Michael Cunningham a partir do romance escrito por Virginia Wolf, Ms Dolloway. Três mulheres vivendo em épocas distintas são personagens dos sentimentos vividos no romance.
A primeira personagem é a própria Virginia Wolf e sua história no exato momento em que escreve o livro, quando se vê exilada numa pequena cidade da Inglaterra para cuidar da saúde no momento mais crítico de sua vida. Sua doença se agrava, ela percebe que vai enlouquecer e decide por fim a tudo, deixando uma linda carta de amor dirigida ao marido: “Não creio que duas pessoas possam ser mais felizes do que fomos.” Essa é a frase repetida por todos os personagens centrais do filme, que percorre cerca de 100 anos e três gerações.
A segunda personagem, Laura Brown, interpretada por Julianne Moore, é uma dona de casa dos anos 50. Está grávida do segundo filho, tem um marido absolutamente cuidadoso, dedicado e, por consequência, controlador. Ela se sente sufocada, talvez perdida em uma vida em que não pode ir além. Está lendo Ms Dalloway. Então decide se matar. Hospeda-se em um hotel, leva vários comprimidos… mas qual a diferença entre morrer ou sumir? Isto não mudaria o sentimento de perda para os outros (filhos e marido). Então decide apenas ir embora sem deixar vestígios.
A terceira personagem é Clarissa, vivida por Meryl Streep, uma editora de livros de Nova York, que tem uma filha jovem adulta e vive um relacionamento estável com outra mulher (Miranda Richardson). Seu melhor amigo acaba de ganhar o maior prêmio literário de poesia e está morrendo em decorrência da Aids. Fora seu amante no passado, e agora é alguém que ela quer manter vivo a qualquer custo (e o que lhe tira o peso de ocupar-se com sua própria vida).
Vi e revi As horas inúmeras vezes. Fiquei impressionado com a criação da trama e o vai e vem dos personagens. Muitas vezes a história do livro parece inspirada nas vidas das outras duas personagens que lêem o livro no futuro. Outras, ele funciona como um destino traçado sobre o futuro.
Chamo a atenção para alguns detalhes deste filme:
Reparem na frase de Virgínia: “A vida de uma mulher inteira num único dia.”
Ela estabelece com isto o que somos de verdade. Como se um fragmento tão pequeno pudesse dizer mais de nós mesmos. E, para confirmar essa proposta, a trama traz a concentração de eventos tão importantes e decisivos num período de 24 horas.
Reparem na música que cria a expectativa, o passar dos segundos, o entrelaçamento das três histórias, como se a vida das três mulheres estivesse diretamente ligada. E na cadência das cenas que se comunicam em épocas distintas.
Reparem como o papel do livro está ali para ajudá-las a lidar com seus sentimentos. Há séculos escrever diários e outros textos é uma das principais formas de lidar com nossos sentimentos e questões pessoais mais complexas. Para mim, esse é o tipo mais antigo de terapia. E que muitos livros, mesmo os que são tratados como alta literatura, quando exteriorizam experiências pessoais, têm essa capacidade de nos ajudar a refletir mais sobre um assunto partindo de olhares que nos oferecem pontos de partida mais adiantados.
E, ao final, quando Laura Brown, a personagem de Julianne Moore aparece para Clarissa (Maryl Streep) após o suicídio de seu filho que nunca superou o abandono décadas atrás, toda a explicação razoável sobre o que ela fez ao desistir da família, que provocou um caos em todas as pessoas daquele núcleo, cai com uma simples explicação. Mostrando o óbvio, mas que muitas vezes nos esquecemos e acabamos julgando as pessoas rapidamente: a vida não é simples. Resignação, sublimação dos desejos, desintegração da personalidade e de tudo o que nos anima não é uma escolha para todo mundo.
Eram mulheres vivendo numa época em que não podiam ser exatamente quem gostariam; então, de certa forma, bancavam um papel e sabiam disso. Tiveram de optar, e cada uma fez a sua escolha diante das opções que as épocas diferentes lhes ofereceram: uma pela morte, outra pelo desaparecimento, e a terceira pela renovação. Mas todas escolheram coisas tão distintas privilegiando o amor.
Até a próxima coluna! Essa aqui foi sugerida por Aline Naomi, leitora da coluna. Se quiserem sugerir um tema, mandem para o meu blog: www.faroeditorial.wordpress.com. Postarei lá também um trecho do filme.
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