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Magnólia – O valor de cada área no projeto editorial

Cresci ouvindo uma história que versava sobre a importância de um parafuso numa engrenagem gigante. Cada um tinha sua importância e mesmo aqueles célebres, feitos de material nobre, não poderiam executar bem suas tarefas sem que o minúsculo parafuso de ferro fizesse a sua parte. Este é o tema da coluna de hoje.

Para quem gosta de um pouco de filosofia, psicanálise, ou simplesmente um ótimo entretenimento, Magnólia tem tudo isso. Com um elenco incrível( Juliane Moore, Philip Seymour Hoffman, Alfred Molina, Tom Cruise( numa criação interessante), William H. Macy, Jason Robards e muitos outros, vale a pena descobrir ou rever este filme. Nele há espaço para excelentes atuações de quase todo mundo, pois não é uma história com foco no olhar de uma pessoa, mas de várias, que se conectam ao final, sem a forçação de barra que acontece alguns filmes, entre eles Crash – sem limites, onde o bom vira mau e o mau parece bom. Não, aqui não tem esses clichês e coisas que foram criadas aqui já foram repetidas em outros filmes, de tão boas. Quem gostou de Beleza Americana, Short Cuts, Amores brutos ou A pele que habito pode gostar deste.

O filme conta um dia na vida de 9 personagens, mostrando seus dramas, sonhos, desesperos e busca por felicidade. Uma criança que é usada pelos pais para vencer em concursos de perguntas no estilo “Quem quer ser um Millionário?”; Um adulto, que parece ser a versão adulta da criança, só que com todas as consequências de ter perdido sua vida e se tornado um objeto de disputa pelos pais, que se separaram; Uma mulher que se casou com um velho pelo dinheiro e descobre, quando ele está para morrer, que o ama; um homem que cresce odiando o pai que abandonou ele e sua mãe, quando estava com câncer, deixando-o sozinho para cuidar dela, e ainda uma jovem que se tornou dependente de drogas e, com a ajuda de alguém que a ama, consegue quebrar o silêncio a respeito de um fato que a levou ao comportamento autodestrutivo.

É um filme longo, de 3 horas, mas que voam. Apesar de fortes, as histórias se desenrolam com delicadeza, sem tentar emocionar os leitores mais que a história permite. Pelo contrário. Os personagens, ainda que sejam bem diferentes, não buscam essa emoção fácil. Ou deve ser o roteiro e a direção cuidadosa de Paul Thomas Anderson( Boogie Nights, Sangue Negro) ou o porque me parece um filme que considero indispensável.

A película mostra como as atitudes acontecem em cadeia, levando a outras, a outras, até que provoque o efeito final. E na abertura, que vale a pena ver e rever, há um vídeo-documentário, que parece totalmente deslocado da história da Rua Magnólia, mas que fornece a mensagem central. São vídeos antigos, narrados como se fossem histórias policiais, em que coisas fatais acontecem, raramente como qualquer um poderia prever, mas quase como um golpe do destino. Numa delas, um casal que briga escandalosamente todos os dias no apartamento, chegando a disparar tiros com a arma descarregada, acaba por acertar o corpo do próprio filho, que na hora da briga, jogava-se da janela em suicídio. Como fora morto não pela queda, mas pelo tiro, ainda que por acidente, o casal vai para a cadeia pela morte do filho, ainda que por acidente, o casal vai para a cadeia pela morte do filho( que é quem tinha carregado a arma, pois não agüentava mais aquelas brigas).  A cena é tragicômica, como se fosse um filme mudo de Chaplin e esse é um dos traços do filme. São três incríveis coincidências. Mas prefiro pensar que me parece um destino cavado pelas próprias vítimas. Veja o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=d1HSb-uJ4jY

Seja fato mais recente, por conta de utilizarmos muitos colaboradores freelancers, mas toda a minha memória da área editorial indica que mesmo sendo o setor responsável pela atividade fim deste tipo de empresa, há quase sempre um número maior de funcionários trabalhando em departamentos administrativos, financeiros, comercial/marketing que editorial. E eles interferem no sucesso/fracasso de um lançamento com detalhes tão sutis, de práticas administrativas, fiscais, tecnológicas etc e podem levar uma empresa a q ualquer dos patamares, para o bem ou para o mal.

Creio que ser editor é uma das atividades mais perigosas. Deveria se ganhar algum adicional de insalubridade. Há o risco de ficar egocêntrico ( por ser quem publica aquilo que outros terão a oportunidade de ler), de ficar isolado, há o peso de responsabilizar-se por palavras diante de uma grande massa crítica, o que pode levar à processos (mais especialmente no passado) e atualmente a ameaças no twitter ou facebook. Mas a principal dificuldade é lidar com a frustração de ver um livro, pensado e planejado duran te vários meses, até anos, ao ser lançado, por alguma falha no processo industrial/administrativo, perder suas chances de chegar ao público. E penso que como essas falhas acontecem o tempo todo, parte delas ocorre porque os demais setores envolvidos no processo do livro não conhece a trajetória do que chegou até ele.

Em linhas gerais, um livro para ser contratado precisa de um autor que coloque nele a bagagem de sua vida. Alguns carregam 40 anos de pesquisas, outros uma história da infância que sempre o comoveu e ele guardou no coração para um dia compartilhar com as pessoas. É a memória do holocausto como de Anne Frank; a experiência políticade Gandhi, que mostrou como poderia divergir sem violência; ou a história da mulher comum que se apaixonou num grande navio por outro homem e largou o seu marido. E o navio naufragou. São histórias que podem não precisariam ter transformado muitas pessoas no mundo, mas só teriam chances de ser contadas para uma grande audiência numa oportunidade. Assim acontece com um livro.

Vi muitos lançamentos serem atropelados por erros bobos: fiscais, gráficos, de projeto, de estocagem, de prazo, de perder uma data importante, de chegar ao ponto de vendas em data distante da campan ha de marketing ou da divulgação na imprensa; de enviar convites em cima da hora, de não mandar livros para a cidade onde o autor é conhecido, da livraria que o coloca numa seção inadequada, da falta de crédito do autor de todas as fotos, desenhos ou ilustrações… Daria para fazer um grande check list. Já tive um livro que mudou o papel em cima da hora e a gráfica não pediu a alteração de lombada. Resultado: Dois anos de trabalhos,  40 autores envolvidos e o livro novo dava a impressão de ser um livro de saldo, pois a capa parecia ter sido reaproveitada, escapando da área em que deveria estar e entrando na lombada. Poderia dar mais exemplos, como um shirink desnecessário, que inibe a abertura de um livro; de perder o envio de livro para um evento onde o autor é o grande palestrante, como uma feira como de Porto Alegre.

Foi-se o tempo e eu presenciei, em que os departamentos editoriais eram os bons numa editora. Adoro que isto seja passado, pois não vejo existir superioridade em uma área que não se movimenta de forma independente achar que tem maior valor que outra. Mas creio que vale a pena dar a conhecer a todos os outros departamentos como um livro nasce, quanta negociação existe, quanta expectativa, porque ele tem um determinado projeto, que público visa atender; porque não deve sair shirinkado, porque deve ser coloc ado na prateleira correta, porque o pagamento de direitos autorais deve ser feito na data indicada ou avisado o atraso, porque o relatório de prestação de contas deve ser claro, objetivo.  Um único exemplo como o do livro ser catalogado em seção errada( seja pelo assistente editorial, pelo setor comercial da editora ou setor de compras da livraria), e todo o trabalho de fazer o livro vai para o espaço, pois ele não vai ser encontrado.  E todos esses cuidados podem  indicar se a editora conseguirá ter acesso ao que pode ser o próximo super bestseller, que vai manter todos trabalhando com felicidade, ou reduzir sua participação no mercado e deixar muitos sem emprego.

Dar a conhecer aos setores de toda a empresa dessa variedade de ações e etapas na produção de um livro pode não evitar todos os problemas, mas acredito em duas vantagens: compartilha a felicidade de trabalhar numa empresa editorial, aproximando as áreas mais distantes, dignificando a finalidade de cada um no processo e favorece um diálogo maior entre áreas distintas, reduzindo ruídos, convergindo as forças para o objetivo: Atingir o maior número de leitores.

Um link interessante: http://www.rubedo.psc.br/Cinema/magnolia.htm

Até a próxima coluna. Mandem sugestões de temas que eu procuro em algum filme. Ou de filmes.

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O sentido de emergência que dinamiza uma geração.

Quando assisti ao filme, A Rede Social, não esperava mais que uma diversão, mas obtive ali algumas respostas e confirmações sobre um tema que vinha conversando com amigos a respeito da pressa por acontecer que se abate sobre as novas gerações.

O filme: Marc é um jovem que freqüenta a universidade de Harvard. Depois de levar um fora da namorada, para se vingar, hackeia fotos de mulheres das redes internas de universidades e propõe um programa de avaliação e comparação das beldades. Algo tão simples assim tinha de dar certo, basta ver que na época do Orkut os posts mais visitados eram aqueles em que o tema ou a pessoa que fazia a ultima postagem levava a próxima a passar a corrente pra frente. Era algo igualmente sem muito trabalho ou esforço mental. Mas o sucesso lhe mostrou que aquilo poderia ir além. Em dias Marc se tornara alguém e popular, então, de certa forma, para lidar com sua própria timidez, investiu todo o tempo na criação de uma rede interativa que logo virou mania: dependia de divulgação boca a boca e convite para ser acessada. A rede cresceu assustadoramente rápida e foi oferecendo ferramentas para manter cada vez mais e mais as pessoas conectadas, dividindo com amigos, colegas ou com alguém conhecido de alguém, experiências pessoais. Ela é hoje uma das empresas mais promissoras do mundo, então, conhecer a história como tudo isso começou, o que fez dar certo, as brigas, os processos judiciais, o fim de uma amizade, a corrupção de valores… é bem interessante.

Para mim, além da diversão e informação, uma das principais mensagens do filme é sobre velocidade como a coisa acontece.  Vemos ali um jovem nerd, que uma década atrás seria o alvo preferido da escola para a prática social do bulling transformar-se numa estrela, num grande vencedor.

Mas comecei a pensar que essa idéia de sucesso instantâneo possa estar contaminando a geração que hoje tem menos de 30, chamadas  de Y.

Tenho visto cada vez mais nas pessoas dessa geração um sentido de urgência absurdo. Querem sucesso, reconhecimento, acesso imediato a tudo o que a carreira a qual acabaram de aportar tem para oferecer no decurso de algumas décadas.  Depois de perceber isso em mais de duas dezenas de pessoas a quem tenho acesso, entre colegas de trabalho e amigos e familiares, comecei a conversar com outras pessoas que percebiam a mesma coisa, então acredito que é o pensamento desta geração.

Há duas formas para obtenção de valores culturais: a cultura reificada e a cultura por processo. A reificada é aquela obtida, comprada, absorvida. Por exemplo, quando um país invade outro e absorve os bens e valores culturais( ex: império romano); e a cultura por processo – obtida ao longo de aprendizado, reconhecimento da cultura, experiência. Ela se forma com uma via de mão dupla entre o tema e o indivíduo, quando a matéria interage com o aluno e o transforma; quando a arte pode ser mais bem apreciada, pois já se pode tanto entender a origem daquela escola artística quanto compará-la com todos os seus executores. E depois disso mediar o próprio debate interno para assumir suas opiniões com embasamento.

No afã do imediatismo, sem tempo para processar cada coisa, esse pensamento atual em muito se assemelha à cultura reificada, como se o amadurecimento, o desenvolvimento, as etapas pelas quais temos de passar pudessem ser compradas, puladas, tratando-as como mero obstáculo desnecessário como o apêndice _ sinal de que já tivemos cauda de macaco mas hoje não tem nenhuma utilidade.

A geração y vive numa necessidade de acontecer rapidamente, como se tivéssemos numa contagem regressiva e fosse preciso viver tudo no mais breve tempo possível. Acho um exagero, mas se isso acontece se deve a diversos fatores que criaram esse pensamento e necessidade. Não vou me ater a eles, pois não é minha praia. Quero tratar aqui apenas dos resultados que esse comportamento pode levar. Se pegarmos o exemplo de Mark Zuckerberg e achar que ele se replica o tempo todo pode-se incorrer num grande equivoco, com sequencias de frustração constantes. Não é a todo momento que um jovem com uma idéia cria um mundo novo e faz fortuna. Nem que há essa capacidade de qualquer jovem ensinar aos mais velhos o caminho do sucesso e do reconhecimento. Isso acontece, mas não é o tempo todo. E se vira notícia, livro e filme é porque é algo carregado de ineditismo.

Eu tenho um amigo que sempre achei genial, mas o vi se perder por perceber a si próprio como alguém com grande potencial. Depois de cometer diversos equívocos funcionais eu falei para ele. Fuja da crise de gênio. Ela pode te jogar num buraco. Conheço dezenas de pessoas geniais trabalhando para idiotas. E porquê? Porque não entregam trabalhos no prazo, porque agem como prima-donas; porque tentam recriar num único dia processos que funcionam para as empresas há décadas. Ou porque lhes falta inteligência prática. É uma atitude contra a inovação?  Não, absolutamente.  Mas quem quer inovar tem de semear. Não adianta vir com uma grande semente num terreno árido. Um garçon precisará estudar, ter confiança dos colegas e ser reconhecido pelos amigos como grande cozinheiro antes de emplacar um prato novo num restaurante famoso. Se ele tentar isso enquanto sua função é a de equilibrar pratos e copos e limpar mesas, não será ouvido. Se você tiver ouvido que alguém conseguiu isso no telejornal, repito, só virou notícia porque é um destes casos de exceção, não de regra.

As coisas estão acontecendo de forma muito rápida, é verdade.  A forma como nos relacionamos com a tecnologia nos deixa reféns do ultimo modelo, da ultima forma de comunicação, de agilização do trabalho e com a sensação de que, se não acompanharmos essa evolução estaremos fora do jogo, do mercado de trabalho, da sociedade.Talvez essa impermanência de valores é que gere a necessidade de correr contra o tempo, de vencer barreiras, de transgredir com as regras e percursos já consagrados.

A geração madura vai ficar obsoleta mais rapidamente que 20 anos atrás, mas penso que quem destas novas gerações apreender mais com a experiência e se lançar com mais segurança e preparo sempre vai se sair melhor. É não dar um passo grande demais antes do tempo, não ficar ansioso por não ter o reconhecimento financeiro igual aos superiores. Hoje vejo jovens de 20 se prepararem para comprar o primeiro imóvel enquanto, nas condições semelhantes, 20 anos atrás, boa parte só conseguia tentar um financiamento para esse fim aos 40, e reunindo FGTS de décadas de trabalho e outras economias durante a vida. Isto é um avanço, mas não se pode meter os pés pelas mãos.

O assunto é extenso e por mais que pareça o contrário, penso que o que escrevo aqui é uma troca de experiências. O que quero dizer é: calma: antes foi bem mais difícil. As gerações devem aprendem umas com as outras. As regras de uma nem sempre funcionam o tempo todo. Ter essa consciência sempre presente pode ajudar tanto a reduzir a ansiedade quanto a investir com profundidade em todos os seus projetos, criando a base antes do topo.

Muitas matérias de revistas e jornais sobre carreiras falam sobre as habilidades das novas gerações e eu ponho uma nova questão aqui: e as desabilidades?  Se há muita velocidade, há perda de compreensão, e muitas vezes, superficialidade. Se há muitos amigos virtuais, a relação não tem profundidade. Se há interatividade virtual há introspecção real. Vejo gente que não consegue se comunicar com quem está seu lado e resolver um problema por meio de diálogo, por falta de traquejo, habilidade de negociação. Não sabem lidar com o outro se não for através de um email. Não sabem resolver problemas. Tive uma colega que vivia me trazendo os problemas: Ah, não mandaram a foto; passei o contrato, o setor tal perdeu, o autor está furioso, o livro vai ficar parado na gráfica se ele não for encontrado. Eu perguntava: o que você é? Repórter?  Preciso que converse com as pessoas, encontre soluções, dialogue para resolver os problemas. Resolver. Uma habilidade que pode ficar perdida em tantas relações virtuais e que se assemelham, no ambiente profissional, a má burocracia. Um sistema de processos quase mecânicos feitos para atrasar qualquer processo.

Talvez esteja aqui um ponto que possa diferenciar as pessoas de sucesso da nova geração: viver os princípios dessa velocidade sem ignorar o aprendizado das anteriores. O volume de informação a que temos acesso está cada vez mais se impondo diante de nosso tempo diário, tomando horas preciosas de apreciação de prazeres reais, aprendizados, cultura, reflexão. Quanto lixo consumimos em mensagens, em paginas centrais de portais, em fotos trocadas a todo momento, em piadas de internet e correntes ameaçadoras caso não passemos adiante e tudo isso é tratado como se fossem as coisas mais importantes do nosso dia. E quanto essas coisas nos distraem de nossas atividades de modo que levamos mais tempo para executá-las e, portanto, temos menos tempo de lazer, de almoço, de ócio criativo?

Por curiosidade vejam o trailer do filme: A rede social 2, que mostra o que aconteceria com o mundo se o facebook acabasse e como nossas atuais atitudes no face ficariam ridículas no mundo real. Muito divertido: http://www.youtube.com/watch?v=TRlUDvXP8x4&feature=player_embedded

Até a próxima coluna. Se quiserem fazer comentários mandem para o meu blog: www.faroeditorial.wordpress.com

Quando a relação autor-editor se torna qualquer coisa, menos profissional.

LOUCA OBSESSÃO (Misery, 1990) Direção: Rob Reiner. Elenco: James Caan, Kathy Bates, Lauren Bacall, Richard Farsnworth, Frances Sterngahen.

Este um filme clássico diferente. E tem vários méritos: não é o tradicional cult, nem é tão antigo, mas foi o primeiro filme de terror a dar um oscar de melhor ator principal. Geralmente filmes de terror não são cogitados ao Oscar, pois concentram sua ação na violencia em si, não no drama psicológico. Este foi um caso de encontro entre um ótimo texto de Stephen King com uma excelente realizaçao de um diretor, Rob Reiner. A escolha da atriz, Kathy Bates, desconhecida na época, foi mais que acertada. E ela ganhou o Oscar pela atuação, disputando com Meryl Streep; Julia Roberts( Por Uma linda Mulher) e Angelica Huston.
Resumo:
James Caan é Paul Sheldon, escritor de uma série de livros de sucesso chamada Misery. A série leva o nome de sua personagem principal e é o acontecimento editorial de sua editora. No entanto ele está cansado de escrever mais um romance sobre o mesmo tema. Sente-se escravizado por sua personagem e decide acabar com a série: Como? Poderia simplesmente fazê-la casar e ter filhos, dar-lhe um happy end, mas preferiu algo mais radical. Matando sua personagem. Assim ele vai até o seu refúgio em uma cidadezinha, num pequeno hotel, onde passa sozinho vários meses para escrever, como o fez para escrever todos os outros livros. Termina o livro e toma o caminho de volta dirigindo seu velho mustang. É pleno inverno. As estradas estão cobertas de neve e ele dirige por ruas que parecem gelo puro. Então, perde a direção e o carro cai num barranco. Quase desacordado é retirado do carro, uma pessoa o carrega sozinha na neve. Acorda 2 dias depois, e se vê numa casa, sendo cuidado por Annie Wilkes(Kathy Bates). Ela é enfermeira e o salvou do acidente. Disse que estava há dias espreitando-o do lado de fora do hotel. Ela é sua fã numero um. E viu todo o acidente, pois o seguia e por isso o salvou.
Logo que recobra a consciência ele quer falar com sua agente e com sua filha para dizer como está, mas segundo ela, a nevasca cortou todo o contato com a cidade. Então Annie se oferece para ir à cidade, ligar e dar o recado. O que não faz. Sua agente avisa a polícia. O xerife comeca a investigar até achar o carro e vai até a casa de Kathy.
Lá , pouco a pouco, a imagem da fã amorosa começa a mudar. Quando ela lê o novo original que apresenta a morte de Misery, ela alterna entre a doçura e o ódio profundo. Bate no corpo já alquebrado de seu idolo, o tortura e começa um jogo em que ele sabe, pode acabar morto se Annie não acreditar que ele está fazendo tudo o que ela deseja. Um destes desejos é a queima do original inteiro. Ela o coage a queimá-lo…. e tamanha é a tensão desta cena que ele acata. Tenho de confessar. Senti um aperto quando vi essa cena. É como se alguém jogasse fora o disco rigido de um trabalho que levou mais de 6 meses para fazer. Se ele quisesse o livro teria de reescrever inteiro, frase por frase, e não acho nada mais desgastante na vida que ter de refazer um trabalho de criação artistica, sobretudo quando já se gostou do resultado.Quantas vezes não perdemos pra sempre a frase que não anotamos? Há gente que pode se orgulhar da excelente memória. Eu não conseguiria lembrar das frases escritas durante meses, de cada construçao a ponto de reescrever…

Com a chegada do xerife, que num primeiro momento ela o engana, mas, já de saída, ao ouvir os gritos de Paul Sheldon ele volta e é surpreendido por Annie, o filme assume outro tom. O clima fica mais violento. Trava-se uma batalha de emoções e cada passo errado por ser o fim do nosso autor de bestsellers. As lutas entre a enfermeira e paciente parecem intermináveis, dignas de um Street fighter, refletindo tanto a loucura da fã quanto o desespero do autor, tendo de lutar com todas as dificuldades de mobilidade, para sair dali vivo. Vejam os vídeos: http://www.youtube.com/watch?v=hDoUpcOI-T8
http://www.youtube.com/watch?v=xFzjIPzEVbY

É um filme para ver e rever. E eu o trouxe aqui por tratar da relação neurótica da fã com seu autor, mas na transposição para a coluna quero tratar da relação entre autor e editor. Desde o filme A Proposta, em que falei sobre este assunto, recebi muitas mensagens comentando as dificuldades que pessoas da área editorial tiveram nessa relação e mais gente me pedindo para voltar ao assunto.
Como também já tive muitas experiências assim, autores se transformarem de anjos a ditadores em poucos meses, trago aqui um pouco mais sobre o assunto.
Nao é dificil entender que um autor está entregando algo muito pessoal num livro e mesmo tendo por contrato estabelecido que sua parte no processo é a entrega do texto, ele trata do livro como se fosse parte dele. Uma rasura, um furo de revisão, uma foto mal impressa, um nome que faltou nos créditos ou um nome incluído nos créditos numa função de edição de texto, pode criar uma história completa. E sendo sentido como parte dele pode assumir um tamanho imenso, algo como ofensa pessoal pública.
Um dia um autor recebeu seu livro e me ligou _ tendo antes falado com TODOS os seus amigos a fim de garantir que todos pensavam como ele_, perguntando porque eu havia colocado no copyright uma pessoa com a função de preparação de textos? Ele estava incomodado que alguém pensasse que ele havia precisado de ajuda no trabalho de escrita. E tive de explicar demoradamente que se tratava de um termo usual para uma das funções editoriais de revisão de textos.
Outro caso, de um autor que poderia bem passar por um monge tibetano, mas quando viu seu livro sair da lista de mais vendidos por uma semana e teve uma crise que me ligou durante toda a madrugada revoltado, acreditando que ele havia me entregue ouro e eu não estava sabendo fazê-lo brilhar.
Para lidar com tantos casos assim acabei por elaborar algumas linhas de trabalho, evitando fugir dela e transformando-as em regras:
1 – Contrato. Ele precisa estabelecer o que cabe a cada um. Colocar livro na lista, garantir que se mantenha e que não haverá nenhum concorrente lançando ao mesmo tempo não está em nenhum contrato.
2 – Nunca começar o trabalho editorial sem um contrato.
3 – Na contratação, explicar com alegria o que esta sendo feito( a decisão da editora de investir naquele livro deve ser um momento feliz) e que a ela caberão as decisões para transformar o livro num sucesso, de modo a ter retorno do investimento. Titulo, capa, marketing e distribuição são definidos pela editora. Podem contar com a experiência do autor mas nunca inverter a hierarquia de quem tem a decisão.
4 – Consultar o autor apenas no necessário sem, no entanto, alijá-lo do processo editorial.
5 – Sob a menor sombra de crise, cortar o mal pela raiz. Se um autor escapar da sua área de atuação e quiser decidir sobre coisas que não lhe competem, indique isso objetivamente. Se o tom aumentar, aumente para situá-lo das condições. Se persistirem os sintomas, distrate. Pode ser um projeto em que você trabalhou por meses. Asseguro, a dor de cabeça não valerá a pena. E não conheço casos de projetos lançados sem felicidade que deram muito certo. Conheço o contrário. De montes.
6 – Nunca amarrar um autor na editora por contrato. Um autor infeliz é uma propaganda negativa. O livro pára de vender como mágica. Instaura-se uma energia de má-vontade em todos os níveis. Não vale a pena.

Estou falando aqui de um dos lados do negocio, mas há o outro que precisa ser considerado. O autor precisa estar a par do processo de seu livro; é normal que queira continar participando deste momento que não termina com a escrita do original e o editor deve tentar mantê-lo o mais bem informado possível. É saudável que seja assim para o sucesso da obra e as vendas da editora. O autor deve estar motivado a falar com imprensa, a convidar seus amigos, a escrever para leitores, a postar coisas nas redes sociais e isso só se consegue se estiver motivado, se estiver participando do processo. Por exemplo, como um autor PERDE QUANDO uma editora adia o seu lançamento continuamente? Veja quanto ele investiu em tempo, em expectativas, em adiamento de outros projetos, pois muitas vezes não poderia assumir dois acontecimentos desses, como um lançamento de livro, ao mesmo tempo? Isso deve ser considerado.  Ou quando sabe do lançamento de seu livro porque algum amigo o avisou por tê-lo visto numa loja?  E nem havia sido contatado pela editora para falar de eventos de lançamentos… Isso pode parecer um absurdo para muita gente que lê, mas acontece o tempo todo…
Da parte da editora, acredito que todas as conversas, até a mais dificil, devem ser objetivas e com respeito. Deixar as emoções de lado, colocar os fatos e usar de sinceridade é o unico caminho para resolver qualquer conflito. Não sei o que acontece em outros áreas de trabalho, como na Politica e no meio da Publicidade, mas costumamos dizer que o mundo editorial é pequeno. Toda hora a gente se esbarra com as mesmas pessoas em posiçoes e empresas diferentes. Isso tem um lado bom e um ruim. O bom é que muitas vezes pode parecer uma família, por exemplo, nos grandes eventos do livro, quando as pessoas se reencontram, muitas vezes, um vez por ano e se visitam nos stands e tem atualizadas as noticias um do outro. O ruim é que os passos errados, os desvios de carater são rapidamente espalhados. E isso começa a repercutir na vida das pessoas. Já vi gente sair da área, ter de mudar de ramo depois de desvios de livros, quero dizer, de caráter. Já vi gente ficar, mas que acaba sendo apontada pelo erro por 10, 20 anos, pelas costas e tendo a confiança perdida até mesmo por geraçoes que nem sonhavam trabalhar com o livro. Pensando bem…Talvez isso seja mais um lado bom.
Nunca poderia esgotar o assunto, pois a experiência de cada um é variada, mas espero ter trazido alguma contribuição nestas questões. Regras claras e sensibilidade para agir rapidamente quando um sinal vermelho aponta para uma relação que está entrando por um caminho ruim devem ser resolvidas logo. Curtam o filme. Esse é um daqueles filmes que não envelhecem. Dizem que um livro novo é o livro que você não leu. Este ditado cabe a este filme também.
Na próxima edição penso em buscar filmes bem conhecidos de qualquer área para usar os exemplos em nosso mercado editorial. Por exemplo, Mudança de Hábito, com Whoopy Goldberg. Penso que seria um bom exemplo sobre renovação, gestão e flexibilidade. Estou buscando filmes que abordem algo sobre anti-burocracia fiscal relacionada a departamentos financeiros e algo que possa usar sobre normas das empresas e sobre o que é a missão de uma empresa. Quem tiver indicações, por favor, mandem para mim.

Curiosidades sobre Misery:
• O diretor Rob Reiner havia demonstrado antes seu talento com textos de Stephen King ao adaptar “Conta comigo” para o cinema.
• Misery foi adaptado também para o Teatro em todo o mundo. No Brasil houve uma bela montagem feita por Marisa Orth e Luis Gustavo em 2010, dentre outras.
• Há quem diga que o clipe da Canção Misery da banda Maroon 5 teve uma ponta de inspiração no livro se Stephen King. Uma mulher sem coração que bate no heroi apaixonado durante todo o clipe: uma relação de amor e ódio. Vejam: http://vimeo.com/21417739
Até a próxima coluna. Se quiserem fazer comentários mandem para o meu blog: www.faroeditorial.wordpress.com
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26/10/2011

“O amor acontece” é uma comédia romântica com Aaron Eckhart e Jennifer Aniston. Burke Ryan (Aaron) perdeu a esposa num grave acidente de carro. Para lidar com a perda escreve um livro para ajudar outras pessoas que também perderam alguém que amavam. Seu agente literário não apenas conseguiu que o livro fosse publicado, mas o transformou num enorme sucesso. Burke virou um produto, circulando o país de ponta a ponta, realizando workshops promovendo uma espécie de terapia de grupo. Todos os que participam do workshop perderam alguém próximo e buscam o seminário para conseguir tocar a vida novamente. Seu agente quer mais: aproveitar a popularidade para vender outros produtos como shakes, aparelhos para exercícios e quer que ele tenha seu próprio programa na TV. O autor do livro tornou-se um símbolo da persistência, um modelo, alguém que pode afetar positivamente a vida das pessoas.

No entanto aquele que ministra os cursos não contou toda a verdade. Ele não percorreu os degraus da aceitação da perda que tenta fazer os outros percorrerem. E só vendo o filme vocês saberão, porque não estou aqui para estragar o seu programa (risos), que pode ser alugado ou visto na TV a cabo.

O filme é uma comédia romântica, cheio de clichês, como caminhar na brasa, fazer do limão uma limonada e frases prontas (mas o bom é que o filme traz em si a própria critica). Mas há dois aspectos que separei para se observar.

“O amor acontece” me trouxe duas idéias para compartilhar com os leitores. A primeira, que ilustro com outros exemplos que vivi na área editorial, de que o autor tem de ser capaz de personificar sua obra, tem de acreditar no que propõe com ela, sob o risco de parecer vazio. Uma obra falsa é sempre sem alma.

A segunda questão é que alguns atributos novos começam a se tornar muito importantes no mercado editorial: a capacidade de comunicar o livro que publica e vende é apenas uma delas, mas torna cada vez mais criativo e multifacetado o profissional dessa área, seja editorial ou comercial.

Ok, quase todos já entendem que um livro é um produto industrial como outro qualquer, que um autor se torna um produto, que a comunicação deve ser precisa e definida. Mas no caso do filme, aqui o conteúdo embalado é uma grande mentira.

Lembro de certa vez um autor ir à editora em que eu trabalhava com um livro algo na linha: você não precisa de dinheiro para ser feliz. No entanto, a negociação era bastante difícil, tensa, sem qualquer sinal de alegria transparente por parte do autor e toda discussão emperrou porque ele queria muito dinheiro. Desisti, apesar de achar que o conteúdo tinha uma proposta coerente. Mas não era coerente ele precisar tanto de dinheiro sendo que falava no livro o contrário. E tampouco parecia alguém feliz.

Anos atrás, trabalhando em outra editora, recebi insistentemente uma proposta de um livro chamado Ipanema Diet. Não passei mais que segundos para observar que era um livro que poderia até fazer algum sucesso com gringos, mas não fazia nenhum sentido no Brasil. Quem acredita que exista uma dieta brasileira para deixar as mulheres com corpo de modelo? Afinal, vivendo aqui, alguém já ouviu falar de alguma dieta brasileira que emagreça? Eu só conheço a dieta do arroz e feijão, e posso imaginar qualquer outra coisa que ela produza, menos um corpo sarado. E temos também as dietas de engorda mineira ou da roça dos interiores. Dieta alimentar brasileira para emagrecer sem esforço só mesmo a de água e luz, que se provou uma mentira.

Ainda sobre esse tema tenho observado uma mudança em programas televisivos, sobretudo os do Globo Repórter que, semana sim, semana não, o tema varia sobre dietas para a saúde, fauna e viagens. No capítulo dieta eles chegaram a levar nutricionistas visivelmente obesas anos atrás. Não tinham o cuidado de perceber que aquelas imagens não transmitiam confiança. Claro, nada é absoluto, mas quando tentamos que algo seja reconhecido por tanta gente é preciso que a imagem esteja completamente adequada com o conteúdo e o público a que se destina. É como se tratar com um dentista que tem os dentes com vários problemas.

Esse é um princípio simples, mas nem sempre observado no lançamento de livros. O autor precisa ser um modelo do que vende. Ele pode ter todos os outros 99 senões contra ele menos o que ele decidiu ensinar aos outros.

O segundo, e para mim mais relevante aspecto a se observar na história deste filme, é a mudança de paradigma. Com toda a competitividade, inclusive a sombra tecnológica da revolução eletrônica do livro, do risco de pirataria etc, o livro começa agora a encontrar novos caminhos. Aconteceu antes com a indústria da música em que os cantores voltaram a viver dos shows e passaram a ter nos cds, mp3 e afins um material quase que para divulgação de seu trabalho, um meio de fechar contratos para shows. Não tenho nenhuma previsão do que vai acontecer com o livro. Sou mais um observador que tenta decifrar as coisas a cada momento sem chegar a uma conclusão.

Mas os livros hoje têm os direitos vendidos para cinema e TV, são transformados em seminários, peças, workshops, seus autores são convidados para feiras do livro e ganham nestes eventos até 20 vezes mais do que com os direitos autorais. Lembro de ter lido isso tempos atrás quando soube que Gabriel, O Pensador, que escreveu alguns livros infantis e lançou sua própria editora, ganhava mais dinheiro com os eventos que com os livros. E por que? Porque atrai público e imprensa para estes eventos. E isso vale dinheiro.

Como sempre publiquei livros na linha de negócios com autores brasileiros descobri, logo cedo, que o livro para eles era uma ferramenta muito importante. Era um cartão de visitas que abria portas para seminários e tornavam, aqueles que sabiam se promover, verdadeiras celebridades ou, pelo menos, consultores muito bem pagos, independente de um grande sucesso nas vendas do livro.

Mas essas mudanças também atingem outras duas classes que durante muito tempo permaneceram intactas e precisam hoje se mover de modo diferente: os departamentos editorial e comercial das editoras.

Editores, assistentes e marketing são os lançadores de idéias, então, em lançamentos relevantes eles têm de defendê-las. Para isso precisam sair dos escritórios e falar sobre o que lançam. Se um editor comprou o livro empolgado, precisa ter a capacidade de empolgar os funcionários da própria empresa, especialmente o departamento comercial. Depois os grandes compradores. Citei os grandes porque já tentei, mas não é possível falar com cada rede de compras de livros espalhadas pelo país. Então os editores precisam saber vender a idéia. Não dá para ser o nerd intelectual que conhece profundamente do assunto, super reservado, que não tem a capacidade de criar a curiosidade dos outros para conhecer o assunto, pelo menos folhear. E isso, tenho de dizer, é uma arte.

Vi na última feira de Londres um agente que falava dos livros que vendia, em esquetes, e criava uma cena de impasse sobre o drama de cada história que me deixou fascinado. Não eram livros para minha área, mas invejei aquela capacidade de contar a história de modo curioso. O que me lembrou de um de meus livros preferidos, A marca humana, de Phillip Roth. O professor Nathan Zuckerman, doutor em Letras Clássicas, ao iniciar a primeira aula abria assim:

“Vocês sabem como a literatura europeia começa? Com uma briga. Todas as fontes de literatura europeia têm início a partir de uma luta.” O professor lê em voz alta os versos de abertura de A Ilíada: “Divina Musa, canta a ira de Aquiles…” Começa a ler onde nasce a disputa entre Agamenon e Aquiles. “E qual o motivo de uma enorme batalha, com tanta violência? É tão básico como uma briga de bar. Eles estão disputando uma mulher. Uma jovem, na verdade. Uma menina roubada de seu pai.”

Ao ler este trecho invejei a capacidade daquele professor ficcional criado por Roth. Ele poderia ter feito como alguns catedráticos medrosos fazem: colocar os clássicos numa torre e transformá-los em monstros inacessíveis. Mas não, partiu de um ponto de vista simples, algo que faz parte do cotidiano de qualquer pessoa, para transmitir a mensagem e gerar interesse pela obra. Conheci poucos professores de literatura que sabiam transmitir o que gostavam. E isso vale também para todos os profissionais que trabalham em uma editora.

Hoje editores precisam ser também comunicadores, entender de marketing editorial, saber um pouco de criação publicitária, administração, matemática e não ter inibição. Claro que entender de livros, sobretudo da linha que se edita, é o primeiro requisito, mas a diferença se faz nestas outras qualificações, e em todas elas podemos melhorar a performance investindo em leituras e cursos.

Mas e o comercial? Vale o mesmo princípio da necessidade de melhorar a comunicação objetiva sobre o livro. Vi, em quase duas décadas, o trabalho do comercial mudar muito. Enquanto antes muitos levavam os lançamentos para as livrarias sem saber do que se tratavam, hoje eles estudam cada lançamento, algumas editoras alocam seus vendedores por área de afinidade, para atender a segmentos que eles entendem, e eles conseguem se diferenciar entre os que tiram pedidos dos que levam informação de qualidade aos compradores de livros.

Há muito o que se aprender em qualquer fase da vida. Considero perigosos sempre dois tipos de arrogância: a dos jovens, por conta da inexperiência, quando os impede de reconhecer suas falhas e, portanto, aprender; a dos mais maduros; por conta da experiência (que os faz perder o bonde com o passar do tempo). Eu vivo paranóico para não cair no segundo exemplo.

O importante é manter a mente aberta. E quem assume o compromisso de encontrar saídas a todo momento constrói uma imagem profissional sólida e os resultados aparecem.

Bom, mandem comentários e críticas em meu blog (www.faroeditorial.wordpress.com). Indicações de filmes são bem-vindas. Até a próxima edição!

As horas – Livros que dividem experiências de vida com os leitores

No meu tempo de universidade corria a crença de que toda obra literária é ficcional, mas sou dos que acreditam que toda obra literária é autobiográfica e que se pode decifrar uma pessoa pelas palavras, pelos assuntos, pela forma de se expressar. E se o escrito não parte da própria história pessoal, traz sua visão de mundo. E quase sempre temos aí momentos especiais, em que o autor divide com os leitores suas mais profundas reflexões. Esse é tema que venho destacar nesta coluna.

O filme As horas traz uma história recriada por Michael Cunningham a partir do romance escrito por Virginia Wolf, Ms Dolloway. Três mulheres vivendo em épocas distintas são personagens dos sentimentos vividos no romance.
A primeira personagem é a própria Virginia Wolf e sua história no exato momento em que escreve o livro, quando se vê exilada numa pequena cidade da Inglaterra para cuidar da saúde no momento mais crítico de sua vida. Sua doença se agrava, ela percebe que vai enlouquecer e decide por fim a tudo, deixando uma linda carta de amor dirigida ao marido: “Não creio que duas pessoas possam ser mais felizes do que fomos.” Essa é a frase repetida por todos os personagens centrais do filme, que percorre cerca de 100 anos e três gerações.
A segunda personagem, Laura Brown, interpretada por Julianne Moore, é uma dona de casa dos anos 50. Está grávida do segundo filho, tem um marido absolutamente cuidadoso, dedicado e, por consequência, controlador. Ela se sente sufocada, talvez perdida em uma vida em que não pode ir além. Está lendo Ms Dalloway. Então decide se matar. Hospeda-se em um hotel, leva vários comprimidos… mas qual a diferença entre morrer ou sumir? Isto não mudaria o sentimento de perda para os outros (filhos e marido). Então decide apenas ir embora sem deixar vestígios.
A terceira personagem é Clarissa, vivida por Meryl Streep, uma editora de livros de Nova York, que tem uma filha jovem adulta e vive um relacionamento estável com outra mulher (Miranda Richardson). Seu melhor amigo acaba de ganhar o maior prêmio literário de poesia e está morrendo em decorrência da Aids. Fora seu amante no passado, e agora é alguém que ela quer manter vivo a qualquer custo (e o que lhe tira o peso de ocupar-se com sua própria vida).
Vi e revi As horas inúmeras vezes. Fiquei impressionado com a criação da trama e o vai e vem dos personagens. Muitas vezes a história do livro parece inspirada nas vidas das outras duas personagens que lêem o livro no futuro. Outras, ele funciona como um destino traçado sobre o futuro.
Chamo a atenção para alguns detalhes deste filme:
Reparem na frase de Virgínia: “A vida de uma mulher inteira num único dia.”
Ela estabelece com isto o que somos de verdade. Como se um fragmento tão pequeno pudesse dizer mais de nós mesmos. E, para confirmar essa proposta, a trama traz a concentração de eventos tão importantes e decisivos num período de 24 horas.
Reparem na música que cria a expectativa, o passar dos segundos, o entrelaçamento das três histórias, como se a vida das três mulheres estivesse diretamente ligada. E na cadência das cenas que se comunicam em épocas distintas.
Reparem como o papel do livro está ali para ajudá-las a lidar com seus sentimentos. Há séculos escrever diários e outros textos é uma das principais formas de lidar com nossos sentimentos e questões pessoais mais complexas. Para mim, esse é o tipo mais antigo de terapia. E que muitos livros, mesmo os que são tratados como alta literatura, quando exteriorizam experiências pessoais, têm essa capacidade de nos ajudar a refletir mais sobre um assunto partindo de olhares que nos oferecem pontos de partida mais adiantados.
E, ao final, quando Laura Brown, a personagem de Julianne Moore aparece para Clarissa (Maryl Streep) após o suicídio de seu filho que nunca superou o abandono décadas atrás, toda a explicação razoável sobre o que ela fez ao desistir da família, que provocou um caos em todas as pessoas daquele núcleo, cai com uma simples explicação. Mostrando o óbvio, mas que muitas vezes nos esquecemos e acabamos julgando as pessoas rapidamente: a vida não é simples. Resignação, sublimação dos desejos, desintegração da personalidade e de tudo o que nos anima não é uma escolha para todo mundo.
Eram mulheres vivendo numa época em que não podiam ser exatamente quem gostariam; então, de certa forma, bancavam um papel e sabiam disso. Tiveram de optar, e cada uma fez a sua escolha diante das opções que as épocas diferentes lhes ofereceram: uma pela morte, outra pelo desaparecimento, e a terceira pela renovação. Mas todas escolheram coisas tão distintas privilegiando o amor.
Até a próxima coluna! Essa aqui foi sugerida por Aline Naomi, leitora da coluna. Se quiserem sugerir um tema, mandem para o meu blog: www.faroeditorial.wordpress.com. Postarei lá também um trecho do filme.

Roman de Gare, Crimes de Autor – O universo que cabe no mundo editorial

 

Esta é a obra que me trouxe até esta coluna. Por causa dela tive o desejo de escrever sobre filmes que abordam o universo editorial. Percebi, após assistir a esse filme, de modo renovado, como é incrível universo que muitos de nós, que trabalhamos no meio editorial, vivemos cotidianamente e como ele é rico, poderoso, e muitas vezes não damos conta disso. É costumeiro dizer de nós mesmos que quem trabalha no mercado editorial raramente volta para outros mundos. É um vício que causa dependência.

O tema do filme ronda sobre a relação escritor x ghost writer, mas o que se pode enxergar no background é a beleza do imenso universo editorial e pode ser compreendido como uma ode a todos os que trabalham com livros. É por esses detalhes editoriais, que passam ao lado de toda uma história forte, que desejo apresentar o filme. Roman de Gare, Crimes de Autor, dirigido por Claude Lelouch, é um filme francês de suspense psicológico. Fanny Ardant, uma atriz de talento excessivo que lembra em momentos Vanessa Redgrave e em outros uma versão de Sofia Loren, vive o papel de Judith Ralitzer, uma escritora de imenso sucesso de thrillers de suspense na França. Tudo parecia ir bem até que seu secretário, Pierre Laclos (Dominique Pinon) se mostra cansado com sua invisibilidade. Ele não é um assessor comum, mas um tipo muito especial de Ghost Writer. Ele cria a história inteiramente, oferece desde o título aos textos de quarta-capa. O romance é entregue à Judith, que só usa suas mãos para autografar os livros nas festas de lançamentos. E toda a crítica a elogia.

Então o Ghost conta à escritora sobre o firme propósito de assinar seu nome no próximo livro. Ela enlouquece, ele decide partir, mas ela o convence a escrever em seu barco a caminho de Cannes. Aqueles dias escrevendo em alto mar parecem perfeitos para algum evento. O que acontece então é uma trama policial elaborada com sofisticação. Como não quero entregar nada do suspense, tenho de parar de contar a história, mas a mensagem mais forte que ficou para mim é quando o assassinato tem como única prova um roubo. Mas não um roubo qualquer. Trata-se de um roubo de autoria.

Esta é das colunas que escrevi a que mais permite leituras até agora, e tem um caráter utilitário menos evidente diante dos demais. Uma dessas leituras está na condução do expectador. A literatura mais elaborada tem elementos que nos carregam por meio das palavras a recantos onde já pensamos que sabemos de tudo, quando somos surpreendidos por outro olhar, que nos mostra outras verdades, submersas nas mesmas frases onde havíamos confundido a verdade. Esta é uma outra tônica do filme.

Reparem como a narratiza nos conduz a indicar quem é o criminoso fugitivo. Crimes de autor traz o conflito legítimo de um Ghost Writer. Fala da vaidade tanto do escritor real e de fantasia, a luta pela publicação, a força de uma marca autoral em prejuízo do texto; mostra, em flashes curtos, o “glamour” da divulgação da literatura, das entrevistas, da fama, do reconhecimento popular, da destruição de vidas motivada pelo ego inflado dentro desse específico universo. Mostra um mundo de ambição, pois o que ele representa é bom, nobre e reflete o conceito geral que se tem dele. Quem não gosta do bom e do belo? Que símbolos estão associados a quem está no topo do mundo dos livros? A literatura está repleta disso. A vida de quem trabalha com livros, em qualquer etapa, parece sempre mais nobre, mas feliz, mais útil. Quantas pessoas já nos perguntaram isso? Eu, apesar de ser um dos que não se vê fazendo outra coisa, sempre respondo… É um trabalho como qualquer outro. Mas não é verdade. Não é um trabalho comum para quem ama e eu conheci e conheço dezenas e dezenas de pessoas que sei, fazem do trabalho com o livro uma parte importante e feliz de suas vidas. Quantas pessoas (profissões)têm isso?

Separei um trecho de aperitivo para que possam ver o que escrevo aqui que pode não fazer sentido para quem não assistiu ao filme. Huguette(Audrey Dana) é uma cabeleireira em Paris. Sua família mora no interior e ela estava indo visitá-los para apresentar o noivo. No entanto o casal briga no caminho e ela é abandonada num posto de parada depois de uma discussão. Então é abordada pelo ghost, que assiste toda a cena, e lhe oferece carona. Veja o link: http://www.youtube.com/watch?v=8AtvTpSyl9E

Essa coluna me fez rever o filme algumas vezes e acabou se tornando diferente das demais. Ao invés de escolher o tema, tentei decifrar as sensações que o filme me causou e foi isso que tornou tudo diferente. Então, convido os leitores a experimentar esse filme e, ao assistí-lo, pensem apenas no hoje, que será um reflexo de sua própria história editorial. Eu ainda estou nos dias do HOJE, quando o filme fez uma celebração do mercado editorial e todos os problemas que qualquer atividade possui se tornam irrelevantes. Amanhã pode ser diferente. Amanhã livros serão produtos. Livros terão de ter preço, embalagem, campanhas, metas, estratégias, imprensa, entrevistas, ataques de nervosismo, feiras, estragos, entregas, atrasos, tudo o que acontece com … Batatas. Mas ainda sim a matéria prima será tão unica e mesmo havendo copias idênticas para variadas pessoas, cada uma delas terá seu olhar invadido e provocado de forma diversa.

Sugiro, após ver o filme, refletir sobre mais três coisas:

  • Como o escritor sai a procura das histórias mais pitorestas para ir se apropriando delas sem pudor.
  • Não havia corpo, não havia testemunhas e depois se descobre o motivo disso. Mas qual é a prova usada para a incriminação do personagem? Veja a cena em que a escritora é desmascarada ao vivo durante uma entrevista num programa de TV.
  • Porque o Ghost deseja matar o escritor? Qual é a relação disso com a real possibilidade dele fazer sucesso?

 

 

Bom, torço para que gostem do filme. Mandem notícias, comentem aqui. Indicações são bem vindas. Até a proxima edição.

Filme, A proposta, com Sandra Bullock e Ryan Reinolds

Depois de um Polansky, e diante de uma indecisão sobre que filme trazer, Mariana Rolier, minha colega editora, sugeriu que eu comentasse essa comédia pop. O filme de hoje é A proposta (The proposal), mas bem poderia se chamar O Diabo lê Faulkner, porque parece uma referencia direta ao filme O Diabo veste Prada no mundo literário.  Margareth (Sandra Bullock) é a diretora editorial odiada por todos: arrogante, insensível, manipuladora… e o filme é similar em várias as passagens nas agruras que acontecem no filme sobre moda, até no fato dela ter seu assistente particular( Ryan Reinolds) que tanto serve de vassalo quanto protetor e a quem cabe executar as ordens maquiavélicas.

O que me fez trazer esse filme é que ele vai tratar da relaçao delicada entre autor e editor e isso acontece logo no início do filme.

Margareth trabalha num grande grupo e a concorrência, portanto, é acirrada.  Um de seus  autores preferidos, Frank, quer viver recluso, sem dar uma única entrevista.  Ela precisa que ele vá ao programa da Oprah, para garantir boas vendas, mas ele se recusa há anos.  Então sai com uma frase direta.  “Todos os autores precisam de publicidade. Ross, Lacorte, Russel e você.  Sabe o que eles  têm em comum?  O Pullitzer.”   E aí o convence a sair da clausura, que mais parecia tentar repetir Salinger.

Não estou aqui para discutir se a publicidade é boa ou ruim, pois temos exemplos de ser bom para uns e péssimo para outros. Philip Roth é um desses que não dá entrevistas e continua bem aceito e seus livros sempre resenhados. Nós temos Rubem Fonseca, dentre outros.  Mas essas são as exceções de clausura que gera um bom efeito sobre seus textos e acesa a curiosidade.

Mas o assunto aqui é a relaçao autor-editor.

Minha experiencia diz que qualquer relação deve ter regras claras, se possível, por escrito. No mundo profissional não há espaço para palavra. Claro, há sim, mas só naquela parte que não há como por em contrato, de modo que tudo fique engessado. E sempre que tenho de explicar cláusulas do primeiro contrato da vida de um autor, minha crença forte, que às vezes externo, é: “a gente só discute quanto existe uma questão não estabelecida”.  No caso de contratos de livros, hoje, quase tudo está ali.  Há editoras inclusive que estabelecem número de lançamentos, quem paga viagens, número máximo de livros para promoção, imprensa, descontos para autor, etc. Ainda assim, na relação entre autor e editor há coisas que só funcionam em base de confiança e respeito, pois trabalhamos com uma matéria que não se pode estimar valor. Alguns autores entregam aos editores num livro, mesmo que escrito em quatro meses, 30, 50 anos de sua vida, em forma de experiência, pesquisas. Algo que não poderá ser contado de novo.  Por outro lado, todo o trabalho de um editor e sua editora é dar ao texto do autor o tratamento que, segundo sua experiência, poderá oferecer mais oportunidades de ser apreciado pelo maior número de leitores. E, durante essa trajetória, há coisas absolutamente intangíveis, imprevisíveis.

Nessa relaçao, é importante o respeito mútuo e que o editor seja claro quanto às possibilidades da obra. Não raro, autores acreditam que a editora possui dom de transformar algo em sucesso. Não é verdade. Claro que uma boa distribuiçao, campanha de marketing, imprensa e divulgação são os primeiros passos, mas é tudo o que uma editora pode oferecer a um livro (se este for o caminho, pois há livros que são produzidos para poucos e nao possuem um caminho mais agressivo).

Tempos atrás o Publishnews transcreveu um artigo dos EUA que falava das obrigações de um autor e de coisas que ele precisa saber sobre o processo editorial depois que entrega o livro. Eu acabei salvando o texto para mim e passei a adaptá-lo continuamente com base em minha experiencia e mercados em que atuo, com o objetivo de um dia entregar essa cartilha aos meus autores nacionais no momento em que entrego o contrato.  Não o fiz ainda porque todo mundo que trabalhava comigo achou os termos muito cruéis. rsrsrs… No inicio… Mas quando alguns autores começaram a cobrar, a estabelecer novas prioridades, a exigir sua participação em Bienais, feiras do livro, capas de revistas, citação em matérias onde outros autores foram consultados, eles pensaram que os termos que colocava ali, afinal de contas, não eram tão cruéis assim.  Um autor que publico há alguns anos, depois de muito reclamar sobre encontrar pilhas de livros de autores concorrentes nas livrarias onde passava ele recebeu algo que poderia chamar de uma iluminação: entendeu que, ao se tornar autor, encarava como normal quando seu livro era encontrado, mas reparava muito quando só encontrava dos concorrentes.  Quando foi fazer o inverso: procurar o dos concorrentes descobriu que a proporção de encontro e falta era quase a mesma.  Fiquei feliz por ele dividir comigo essa experiência.

É importante é que o autor saiba exatamente o que cabe a ele e à editora

Por exemplo: Quando fazemos um lançamento?  Quando o autor tem um número razoável de pessoas para levar e que podem comprar livros. E isso é um numero de amigos, não de gente conhecida, com quem trocou o cartão com ele alguma vez na vida. E como regra se espera que alguém que convide 300 pessoas consiga levar no máximo metade. E o número de livros vendidos tem de ser superior ao valor que uma editora investe num evento.

Há ganhos indiretos com o evento de lançamento?  Sim. Raras vezes, cobertura da imprensa, contatos para outras vendas e eventos, matérias, etc. Em geral, apenas nota de lançamento. Em 17 anos, essa é uma cantilena que explico religiosamente a todos os meus autores nacionais.  E é necessária.

Há que ser claro, firme desde o início, sem perder a ternura

Como a publicaçao de um livro envolve questães emocionais, é importante que o editor seja a figura mais centrada. O autor pode agir de forma impulsiva, passional, ter crises de insegurança, mas o editor não tem o direito de agir da mesma forma. Para o autor o momento é unico. Para o editor, é o trabalho cotidiano. Se alguém pode ser frágil em algum momento durante o processo é o autor.  Então, em todas as oportunidades (e prevendo a possibilidade de conflito), o editor tem de deixar claro o que pode fazer, o que vai efetivamente fazer e o que o autor pode esperar.  Prometer demais ou omitir algo importante nesse processo pode provocar uma cena que nunca queremos ver.  Um autor que se torna um estorvo na editora.   Mas é bom que se saiba. Cuidar do autor, o que não quer dizer ser tornar seu psicólogo, é tarefa do editor.  Afinal, foi a ele que o texto, algo tao intimo e pessoal, foi confiado. Então esta é uma relaçao de cumplicidade; às vezes, de amizade, e de equilibrio delicado.  Comparo o Editor ao gerente da conta, como numa agencia de publicidade. E, se for bem atendido, o autor pode ser seu cliente para onde quer que vá.

Assim, aconselho sempre a novos editores: tratem os autores sempre com respeito, entendam suas necessidades, tentem fazer com que eles fiquem sempre confortáveis nessa relação e saibam que podem contar com seu trabalho e olhar para realizar, com seus textos, o milagre esperado: fazer com que encontrem os leitores.

Isso parece uma oração?  Pois é. Na seara editorial temos até um santo padroeiro dos editores (deseperados), São Jerônimo. 

Até a próxima coluna.  Se quiserem sugerir um tema, mandem para o meu blog: www.faroeditorial.wordpress.com

Pretendo comentar O filme francês: Crimes de Autor (Roman de Gare), estrelado por Fanny Ardant.

 

The Ghost Writer, de Roman Polansky

A atividade de um editor é bastante variada e até hoje imensa parte do que se realiza é aprendido na prática. Em minha lembrança como profissional da área, que percorre os anos 90, os cursos práticos sobre a atividade de editor começaram a surgir com as entidades oficiais do livro, como CBL e Snel, e também FGV e Universidade do Livro.

Hoje começam a surgir cursos para a formação de editores e demais profissionais editoriais dentro de cursos formais nas universidades, mas, como nas outras profissões, é a prática que acaba sendo a escola de cada profissional. 

Em minha experiência, muitas vezes tive de realizar tarefas sem mesmo saber como elas poderiam funcionar na prática e sei que há bastante curiosidade sobre o assunto. O exemplo que trago hoje é sobre a figura do Ghost Writer, o escritor invisível.

Como se contrata e como o trabalho deve ser realizado? O que funciona ? É melhor partir de entrevistas com o autor? Iniciar o trabalho baseado num texto do autor e completar com entrevistas? O que se deve evitar? Como agir numa negociação de um contrato? Qual é a medida da participação do ghost e do autor?  Como mediar essa relação para que se tenha o que se deseja e evitar conflitos?  Enfim, são inúmeras questões, e por isso indico este filme do Polansky.

Ghost Writer – Esta é uma figura pouco conhecida, porque é melhor que seja anônima, de modo a dar ao autor que assina o livro um talento extra, pois além de ser um profissional reconhecido em sua área(o que lhe favorece chegar aos leitores), nós esperamos que tenha um texto magnífico.  No mundo real isso raramente acontece, e é aí que entra em campo esta entidade – um escritor profissional que põe em ordem as idéias do autor, extrai dele o texto que falta e completa de modo lógico as lacunas não resolvidas.  Sim, escrever livros profissionalmente é um trabalho, e mais árduo será tanto quanto tem de parecer escrito por quem irá assinar e defender o texto publicamente.

No filme de Polansky, o ghost é o personagem central, e também é tratado com reconhecimento de seus pares. Nos EUA e Europa é normal encontrar livros em que eles aparecem na capa, em segundo plano ou sob o texto: com colaboraçao; em depoimento a, e afins…. mas se passarem a observar mais agora vocês poderão lembrar de vários livros escritos por ghosts, inclusive nacionais.

O filme mostra detalhes da escolha e contratação de um ghost via agente literário e também como funciona o trabalho do ghost para um livro de memórias, no caso,  do ex-primeiro ministro da Inglaterra( fictício), Adam Lang( Pierce Bronsnan). 

Acusado de prender e torturar, até levar à morte suspeitos de terrorismo, toda a imprensa e ex-aliados posicionam-se publicamente contra o ex-ministro. Esse é o cenário em que o novo ghost( Ewan Mcgregor) começa a trabalhar, chamado depois que seu antecessor, amigo de Lang, fora encontrado morto na praia, com suspeitas de suicídio. A Editora que o contrata pertence ao grupo Random House. O escritor então é levado para um local reservado nos EUA, uma espécie de escritório da editora localizado numa ilha – um lugar retirado de modo a garantir a segurança do texto escrito por Lang.

Sobre este original escrito pelo autor é que nosso ghost terá de partir para escrever a história, mas  o que ele encontra provoca sono e estupefação:  Texto piegas, chato, cabotino, recheado de egocentrismos e auto-elogio sob um verniz de estadismo. Então ele sabe que o trabalho será duro, e tem apenas um mês para fazê-lo.  Mas o problema são as lacunas, as informações que não batem, o desejo do autor de pintar o melhor quadro de si, algo que o ghost não poderia compactuar( pois, lembrem, ainda que os leitores possam não saber que foi ele quem escreveu, pois assinou um contrato de confidencialidade, as pessoas da área saberão). Então, de escritor fantasma acaba por se transformar numa espécie de investigador… E é onde tudo fica mais emocionante. Mas é um filme para ser visto, então trago aqui o momento da contratação: Veja o trecho do vídeo. http://www.youtube.com/watch?v=X1syq7kU-TM

Alguns detalhes para observar no filme:

  • A negociaçao entre ghost, agente e assessores do politico.

Reparem na reunião dentro da Random House, no momento em que o ghost é perguntado em que ele poderia contribuir com o livro e ele responde que “NADA!”… 

  • Percebam nos detalhes da conversa como ele cria a relação de confiança com os contratantes e o que o credencia para o trabalho. Marketing pessoal, confiança, disposição, conhecimento da matéria…
  • Destaque ao cuidado com o qual o original é tratado na ilha.
  • E, o símbolo da frase:  “Ghost writers não são convidados para festas de lançamento. Somos uma vergonha como uma amante num casamento.”  do ghost writer, respondendo a uma conhecida na festa de lançamento do livro que escreveu, mas para a qual não foi convidado.

Este é um filme para ver e rever. Sempre que revejo percebo mais detalhes, ora sobre o roteiro, ora sobre o cuidado ao apresentar a atividade editorial ali.

Bom, espero que gostem, mandem notícias em meu blog.  www.faroeditorial.wordpress.com  Indicações são bem vindas.  Até a proxima edição.  Tenho três filmes para comentar, mas prefiro fazer surpresa depois do feriado.

Filme sobre o livro Conversando com Deus, de Neale Donald Walsh

O filme parte da história real do autor que chegou ao fundo do poço depois de um acidente de carro, quando perdeu tudo, emprego, casa, chegando até a revirar lixo. No auge do desespero e descrença ele dirigiu diversas perguntas à Deus, até que começa a ouvir D’ele as respostas.  Dessas conversas ele escreve o primeiro livro que viria a se tornar sucesso no mundo inteiro, inclusive no Brasil, e que logo vieram as continuações. O que vou tratar aqui é da negociação do contrato e, para o tema ficar ainda mais interessante, trago um link de 5min do exato trecho do filme para quem tiver curiosidade.

Transposto para as telas, a cena que é bastante interessante de observar, mesmo por editores experientes, é a da negociação entre Bob, o agente que representa Neale, e Sharon, editora da Putnan, que pertence ao gigantesco grupo Penguin. Eles estão sentados num café.  Sharon com o assistente de um lado; e Bob, do outro.

Neale está falido. Bob consegue a atenção de uma grande editora e esta lhe faz uma oferta de 1 milhão de dólares pelo livro. Neale fica com as pernas trêmulas, Bob mantêm-se frio, pisa no pé de Neale para que ele não se manifeste, e diz algo como: Obrigado por sua oferta mais eu esperava bem mais de você! Vou levar o livro para outros clientes e em breve  envio a notícia de que o livro se esgota rapidamente a cada reedição.”

Era uma manobra arriscada….

Nesse momento Neale fica a ponto de ter um surto.  Ele estava na pior situação possível. Qualquer US$100.000.00 era mais  que aceitável até para dividir com o agente, e temia que o descarte de Bob, sem que tivesse outra proposta nas mãos pudesse fazê-lo perder tudo.

Mas Bob mostra-se frustrado, levanta da mesa e se despede da editora com frieza, enquanto chama Neale para que faça o mesmo. Neale não sabe o que fazer, fica lá, parado… ele sabe que aquela quantia era imensa mesmo para qualquer autor reconhecido nos EUA. Então, constrangido, pede licença e se levanta.  Quase próximos à saída, os dois conversam um pouco e Bob age de modo a acalmar o autor. Então a diretora chama o nome de Bob em voz alta.  Ele pára e ela se aproxima. Aumenta a oferta em mais meio milhão.  Neale pergunta: Porque você quer publicar o meu livro?    Depois da resposta ele fecha o acordo.

Essa cena mostra os detalhes de uma grande negociação – algo típico do mercado americano, mas que oferece uma noção de como um livro sem nenhum retrospecto pode se tornar um sucesso nas mãos de quem decide publicá-lo. Mostra também o trabalho de um agente literário nos EUA (onde ninguém chega a uma editora sem um agente), algo que começa a acontecer com mais freqüência no Brasil.

Reparem nos motivos que fazem a editora: 1º  fazer a proposta, 2º defender a edição pela Putnan e, 3º sua justificativa para o autor.

Eu recomendo o filme por conta desses detalhes: confiança do autor no agente que escolheu; a forma como o agente trabalha e negocia; a relação entre a editora que decide publicar o livro com a obra do autor é um verdadeiro roteiro de sucesso. Independente do valor pago adiantado: obra certa, nas mãos mais entusiasmadas com o livro e com condições reais de promovê-la.

Comentários, sugestões, críticas,  postem neste blog.

Na próxima coluna falarei sobre Ghost Writer, dirigido por Roman Polansky , onde abordarei “A contratação e o trabalho de um ghost writer”.

 link para o video: http://www.youtube.com/watch?v=ZC2b6CNindE

 

Este é um artigo que recomendo a todos. Forçamos nossos jovens, que estão começando a ler, a travar contato com textos escrito para adultos há pelo menos um século atrás.  Há alguns anos falo sobre isso mas encontrei esse texto no site Portallos que inclui de forma brilhante a mesma experiência. Algo que gostaria de ter escrito (rs).  Vale a leitura e reflexão.

Literatura Clássica Nacional? ECA?

abr 23rd, 2010 O meu problema com a literatura clássica do Brasil é a forma como ela é apresentada ao brasileiro: na escola. Veja bem, não acho que a literatura clássica nacional seja ruim, pelo contrário, ela reflexe a história brasileira de grandes autores e da vida nos tempos antigos no páis, é um retrato histórico do país, mesmo que sejam fictícia. Mas vamos admitir, muitos clássicos são apresentados cedos demais aos jovem brasileiro.

O maior problema destas obras é a linguagem utilizada. Parece um outro português, quase uma língua morta. São tantas conjugações verbais bizarras, tantas formas de tratamentos antiquadas, tantas palavras que só o dicionário para explicar, não são obras de fácil digestão. E isso assusta qualquer pessoa não habituada com a leitura de livros. As histórias são antigas e muitas das situações também são complexas para o jovem entender, pois muitas situações históricas também são aprendidas na escola, mas não vamos nos esquecer que são 8 anos de ensino fundamental e mais 3 de ensino médio. Não era incomum, usando eu como exemplo, ter que ler um livro de um determinado período histórico que ainda nem tinha visto como era na aula de história, isso quando víamos, porque se tem um matéria que é extremamente mal ensinada na escola é história brasileira. Era difícil encontrar um professor da matéria que sabia mais do que o livro escolar ensinava. Então temos duas situações que afugentam os jovens, a linguagem arcaica e o fator histórico inconpreensivo as vezes.

Novamente, as obras não são ruins, só que a forma como tomamos conhecimentos delas é totalmente inapropriada. É bem comum você encontrar um aluno de ensino fundamental e médio que odeie ler. E se lê, limita-se apenas aquelas às quais é obrigado, porque fica com aquela idéia de que todo livro é complexo, chato e arcaico como os apresentados na escola. E assim surge aquele “pré-conceito” de que o hábito de ler está longe de ser algo prazeiroso. Não é à toa que a literatura moderna brasileira não é tão rica quanto a internacional. Existem poucos autores que realmente ganham fama e trazem conteúdo de qualidade, afinal falta brasileiros com o hábito da leitura para comprar estes livros. E a culpa começa lá na escola, com a professora fazendo sua classe engolir tais obras clássicas, não quero nem citar exemplo para não ofender ninguém. Tudo bem que parte dessa culpa não é bem da professora, mas do Ministério da Educação, que obriga que as escolas tenham tais obras no curriculum escolar.

É um problema que também é difícil de se solucionar. Pois, os jovens tem que se habituar com o hábito da leitura e perceber o quão prazeiroso isso pode ser, mas o que dar para o aluno ler? Obras juvenis internacionais? Não seria menosprezar o conteúdo nacional? Coisa que parece que o nosso Governo tem um medo danado de acontecer. É complicado, porque temos livros de leitura fácil, mas estão longe da qualidade de enredo que um livro como Harry Potter pode causar ao jovem. Me lembro vagamento da coleção Vaga-Lume, alguém se lembra? Eu lia isso na escola por obrigação, a leitura é realmente bem mais simples e leve do que literatura clássica, mas admito que na época já achava muita das histórias tediosas e chatas, afinal, também já era leitor de quadrinhos da Disney, Marvel e até Turma da Mônica, que sempre tem uma linguagem mais juvenil. Quem tiver curiosidade, segue o link com a lista da coleção Vaga-Lume.

E chegamos naquele impasse. Nossas obras clássicas são complexas para a garotada, porém a literatura infanto-juvenil também é pra lá de bobinha frente aos enredos que esse público encontra em outros meios de entretenimento, como HQs, Videogames e Séries na TV. Não sobram muitas escolhas para agradar o estudante e o convencer que a leitura é algo bacana e que livros são essenciais para um certo senso de cultura.

Eu vivenciei isso, até hoje, mesmo sabendo que as obras são assim e por isso são clássicas, ainda não consigo ter prazer ao ler algo arcaico. Por sorte na escola em que estudei tinha uma biblioteca que era rica em outros livros mais interessantes, até hoje me lembro o quanto ficava empolgado lendo Viagem ao Centro da Terra de Julio Verne. Peguei o gosto da leitura assim, com livros bacanas, em geral internacionais, encontrados ocasionalmente na biblioteca da escola. Mas em contrapartida, sempre odiava aqueles nas quais os professores me obrigavam a ler.

Fonte: http://www.portallos.com.br/2010/04/23/especial-literario-o-xango-de-baker-street-reflexao-sobre-literatura-classica-nacional/comment-page-1/#comment-41143

by T_thiago.

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