O filme de hoje narra a tentativa de recriar rapidamente um sistema complexo a partir de um novo arsenal tecnológico. O final aponta para a parte raramente considerada nesta equação: o ser humano está na origem e é também o fim.
O filme, Minority Report – A Nova Lei, se passa em Washington no ano de 2054. A divisão pré-crime conseguiu acabar com os assassinatos, pois descobrem uma forma de punir o culpado antes que o crime seja cometido. Como? Por meio de três videntes. Quando eles têm uma visão, o nome da vítima aparece escrito em uma pequena esfera e em outra esfera está o nome do culpado. Também surgem imagens do crime e a hora exata em que acontecerá. Estas informações são fornecidas para uma elite de policiais, que tentam descobrir onde será o assassinato, mas há um dilema: se alguém é preso antes de cometer o crime pode esta pessoa ser acusada de assassinato? O líder da equipe de policiais é John Anderton (Tom Cruise), que teve o filho sequestrado aos seis anos. O desaparecimento da criança o fez se viciar em drogas e ainda continua dependente, mas isto não o impede de ser o policial mais atuante na divisão pré-crime e acreditar que a tecnologia conseguiu resolver todos os problemas de criminalidade. Porém algo muda totalmente sua vida quando vê, através dos precogs, que ele matará um desconhecido em menos de trinta e seis horas. A confiança que Anderton tinha no sistema tecnológico rapidamente fica abalada e John segue uma pequena pista, que pode ser a chave da sua inocência: um estranho caso que não foi solucionado. Mas apurar não é uma tarefa fácil, pois a divisão pré-crime já descobriu que John Anderton cometerá um assassinato e todos os policiais que trabalhavam com ele tentam agora capturá-lo.
Trouxe esse filme hoje porque tenho lido muita coisa com um tom de terrorismo, decretando quase o fim da produção editorial da forma como a conhecemos. Como o espaço é curto, vou simplificar o que tenho lido sobre mitos e verdades, porque a impressão que tenho é que há muitas vozes para falar sobre esse fim, sugerindo que vamos todos parar num limbo, pois se tira uma coisa e não se coloca nada no lugar.
Fato: O ebook elimina o papel impresso. Nem posso dizer que há um componente de preservação da natureza aqui, pois teria de haver um estudo sério para afirmar que o impacto de produção de um Tablet ou um Ipad ( e especialmente o seu descarte, com suas baterias poluentes) é menor que a produção de 20 exemplares de livros.
Isso quer dizer objetivamente que as gráficas de livros terão de encontrar formas alternativas de utilizar a sua força produtora de livros comuns: investindo em tecnicas de produção mais elaboradas, para diferenciar seus produtos e investindo em impressos para outros segmentos. E as livrarias passam a focar tambem em outros produtos(como já fazem) e a fortalecer seu braço virtual.
No entanto fala-se como se o surgimento do ebook fosse acabar com o livro impresso e também com a cadeia de produção. Ora, a grande diferença é o meio. Sai o papel e entra o tablet. O conteúdo basico do livro é quase o mesmo. Ainda que o ebook acabasse com o livro impresso, toda a cadeia produtora precisaria ser mantida: autores com grandes adiantamentos; corporações que investem pesadamente neles, tradutores, agencias de marketing, estúdios de Hollywood, revisores, designers etc.
Alguém imagina que uma série como Guerra dos Tronos, Crepúsculo ou a biografia do Steve Jobs poderia ser publicada sem essa rede de colaboradores?
O ebook vai fazer as pessoas lerem mais. Stop! O fato de eu conseguir colocar 1000 títulos em meu Ipad vai me dar chances de ler mais livros? Meu HD cerebral e meu tempo de leitura vai aumentar porque agora consigo carregar 1000 livros em minha pasta?
Não conheço ninguém que lê mais de três livros ao mesmo tempo. Quem o faz, deve fazer por exercício profissional ou para provar alguma teoria. Então porque isso é tomado como se a revolução eletrônica fosse fazer todo mundo se tornar um viciado em livros?
Vamos comparar: O que aconteceu com os computadores dados às pessoas nas escolas: Elas os usam prioritariamente para investigações científicas, estudos? Não. Em geral as pessoas se mantêm nas redes sociais; os adolescentes ficam copiando trabalhos de universidade; adultos vão para sites de encontro, pechinchas e notícias de sua área de interesse. No entanto, acreditava-se na época em que começamos a ter acesso a computadores pessoais que nos tornaríamos quase como programadores, revoluciorários do novo mundo. Isso não aconteceu. Virou um eletrodoméstico/eletroeletrônico como tantos outros que utilizamos na mais variada das vezes para nos comunicar e para entretenimento. Porque com o Tablet esse conceito seria diferente? Estudos já apontam que os tablets se tornaram principalmente um computador pessoal. Ler livros neles é uma função mais que secundária. Então, se alguma indústria corre riscos, é a empresa de computadores que não produz tablets.
O Ebook é mais barato? Sim. O livro eletrônico no Brasil é, em média, 30% mais barato. Mas quantos livros você precisará ler para essa conta fechar incluindo o preço do aparelho e o tempo de trocá-lo por um novo e mais avançado? Se você lê dois livros por mês( o que é uma média ótima), pagando 30 reais por exemplar, terá gasto ao longo de dois anos R$ 1440,00.
Num Tablet você gasta cerca de R$ 1400,00 hoje, e depois R$ 1008,00 para ter acesso aos 48 livros. Então é mais caro. E há o risco de perder, quebrar ou ser roubado. Além de muita gente não se sentir segura em utilizá-lo para ler num local público como ônibus, praça, parque ou metrô. Então nem é mais barato, você paga os 48 livros antecipados, e não é mais seguro.
Essa conversa já aconteceu com processos mais desenvolvidos no restante do mundo para uso de energia elétrica nos carros, energia solar nas casas e o sistema só foi adotado pela população quando o custo passou a ser subsidiado por uma política pública. Então, acredito que precisaria haver uma larga subvenção estatal para o ebook assumir o lugar do livro impresso. Mas se isso näo ocorreu no Brasil com processos que põem em risco a saúde do planeta, como energia solar e elétrica, não deve acontecer com o livro.
O Ebook irá eliminar a figura da editora do centro do negócio. O mercado é sempre um balizador da melhor qualidade da produção editorial nacional e estrangeira. Quando digo o melhor, quero dizer, o melhor de todas as áreas publicadas, seja terror trash, da piada para crianças ou ficção literária. O livro que merece ser publicado é aquele que tem gente interessada em lê-lo. E as editoras concorrem para selecionar os melhores autores e temas. Se não houvesse editores fazendo essa seleção, cada leitor teria de se pautar pelos comentários de gente que leu antes, sem nenhuma expertise como crítico e que pode ter um gosto bem duvidoso. Com a universalização da produção e acesso a conteúdo, o segredo estaria em filtrar o lixo e ver o que importa. Há uma corrente que acha que isso pode ser feito computacionalmente (inteligência artificial) e/ou pode emergir através de crowd wisdom (recomendações, ratings, etc). É preciso atentar que o rafting já se mostrou em vários casos falho. Muita gente convoca amigos para postar em sites recomendaçoes para livros( acontece direto na Amazon). Hoje já se descobriu inclusive que autores encontraram meios de criar números falsos de seguidores em redes sociais no Brasil.
Lembro de um passado recente, quando dirigi a área editorial de uma fundação nos anos de 1990 e falava-se do programa de revisão ortográfica. Ele iria resolver o problema dos erros nos jornais, revistas e livros. Passados mais de 15 anos esse programa não avançou muito. Ele corrige grafia, algumas concordâncias e trabalha com uma pontuação mais clássica. Nada que elimine a figura do editor de textos e revisores. Para ser capaz de se criar um programa que eliminasse a figura da revisão de textos, do tradutor, teria de se desenvolver um software capaz de criar idéias. Algo muito distante ainda.
Não consigo imaginar que um homem de tecnologia possa dar conta de criar um sistema capaz de repetir ações humanas num sistema que não é matemático, como a escrita. Taí o fato de a calculadora ser um instrumento quase perfeito e ter sido criada há 4400 anos e o nosso simples revisor de textos ser tão falho em nosso dias e, sobretudo, tirar a leveza e a arte de qualquer texto.
Por que essa ideia central de que a tecnologia vai resolver nosso “problema humano” tem muito para não funcionar? Haveria muitos pontos para citar, mas como estou na coluna de filmes, baseio-me neles. Todos nós já assistimos disparates tecnológicos e inovações que pareciam impossíveis saírem de filmes futuristas e parar na vida real. Foi assim com o celular, com a TV, e daqui a pouco vão criar a transmissão telepática. Mas e máquinas que substituem a criatividade e a coerência humanas? Os filmes, dezenas deles, que já produziram essa tentativa de vivermos sob adminstração de uma inteligência artificial , ou terminavam com a mensagem de que as máquinas destruiriam a vida ou entrariam em pane ou ainda nos escravizariam de uma forma a tornar a máquina, e não o homem, a finalidade de tudo. Vejam Eu, Robô; Resident Evil; O Dia em que a Terra Parou; Wall-e entre tantos outros. Julio Verne escreveu: Tudo o que um homem pode imaginar outros poderão realizar. Se as pessoas não entendem que a substituição de nosso esforço intelectual e arbítrio por máquinas não funciona na ficção futurística será que há chances reais de se tornar realidade? Falando de outro jeito: se não pode ser imaginado pode se tornar real?
Minha conclusão: mascarado de tecnologia como sistema perfeito, o desenvolvimento tecnológico, continua a ser gerido pelo homem. Então porque essa coisa de dizer que vamos tirar a figura dos editores como se fossem vilões e trocá-las por um editor de rafting, de score, de votos eletrônicos?
Essa nova tecnologia dará liberdade ao autor, que não precisará de editora para encontrar seus leitores. Essa idéia parece muito absurda. Quais são os jornais e revistas realmente lidos? Folha(portal UOL); O Globo ( Globo.com); Veja, Exame, Carta Capital, Rascunho, Blog do Noblat, Glamurama, Dimenstein. E vários outros. Alguns são físicos, outros virtuais, mas o comum entre eles é a estrutura editorial. A internet não mudou nossa confiança neles. Se a pessoa quer ser lida sem passar pelo crivo de uma editora basta colocar o livro num blog. Me digam quantos leitores, fora do circulo pessoal, irá realmente ler aquele livro?
A liberdade de publicar na net já existe. O que não existe é uma demanda de investidores interessados em colocar dinheiro e marketing em produtos que não têm retorno garantido. E para o livro ser vendido em livrarias virtuais, diante da tamanha demanda de produtos, a livraria usa o crivo de apostar em editoras que já demonstraram capacidade de realizar um bom trabalho editorial. A liberdade de decidir o que fazer com o seu texto qualquer autor sempre teve e aqueles que querem decidir sozinhos tudo podem ter escolhido aí o caminho, e talvez o público, mas se ele quer ser lido por muitos, precisa contar com outras pessoas, e se tem gente investindo dinheiro, essa “liberdade” deve ser dividida. Quem investe mais nesse pacote de ações decide como aquele investimento deve ser dirigido.
O autor vai receber mais por livro editado. Vamos às contas: Se um livro custa 20, a editora recebe 10 reais das livrarias( em geral 9,50) e paga ao autor, portanto 2,00, algo como cerca de 22% da receita bruta do livro ao autor. No ebook, o livro custa R$ 12,00 e o autor recebe entre R$ 2,50 e R$ 3,00 por livro vendido na maioria das casas editoriais e 1/3, ou seja, R$ 4,00 nas pequenas editoras. Qual é a grande diferença? Receber mais por um trabalho realizado por uma pequena empresa, onde o autor precisa trabalhar na divulgação para vender livros ou receber menos de mais exemplares vendidos, onde o esforço de vendas está fortemente relacionado com a marca editorial? Não é assim toda a regra de mercado? Baixamos os preços conforme a tiragem; reduzimos margens para ganhar menos por unidade, mas vendemos mais exemplares.
Vejam. Há mais de uma década, nós editores temos uma opção de pagar um royaltie 40% menor aos autores para fazer versões de livros em formato pocket. No entanto, a demanda desse livro cujo atrativo é o preço não explodiu porque a diferença de preço entre as versões pocket e brochura ainda não se tornou decisivo na compra de um livro com aspecto mais simples nas livrarias. E creio que isso continuará como regra entre os leitores que puderem comprar um tablet.
Há sim coisas que não se fala dos ebooks. Ele precisa de mais gastos editoriais. Para ele ganhar mercado e atender à sua finalidade, que não pode oferecendo apenas uma versão eletronica do livro impresso (porque assim as pessoas por um bom tempo preferirão o livro impresso), ele tem de oferecer mais. E para isso, precisará contar com programas e designers cada vez mais competentes. Com editores extras para criar conteúdo interativo virtual, ou seja, toda a cadeia de pessoas que se utiliza para o livro impresso, só que somada à do conteúdo virtual. Isso para que se faça sentido optar por uma versão eletronica. E isso não é barato e nem vai ser superacessível para todos. As redes virtuais deram hoje aos leitores a qualificação de críticos literários, então reduzir custos na cadeia da produção editorial não é o caminho para uma editora que pretenda crescer.
Anos atrás li um livro que se não fosse religioso poderia ser tomado como excelente novela comercial. Era um livro psicografado por Chico Xavier e contava a história do cristianismo nascente, intitulado Paulo e Estêvão. Obra de fôlego, acho que umas 600 paginas, o que tirei dali foi o seguinte: se tudo o que se contava ali for verdade*, passados dois mil anos o ser humano não mudou nada em sua essência. Somos os mesmos: inveja, ciumes, guerras, briga por poder, ganância, crimes… Continuamos os mesmos bárbaros, só sofisticamos nossas flechas e lanças. A evolução não mudou a humanidade. Só ganhamos eletrodomésticos. E eles servem para fazer a gente executar mais tarefas em menos tempo.
Fico desconfiado do discurso de assustar o mercado estabelecido. Essas profecias raramente acontecem, pois o mercado sempre encontra formas de se recriar e aproveitar os recursos em novas atividades. Mas para “vender” essas propostas estes futurólogos passam ao largo de pontos cruciais. E tirar valor da cadeia editorial como se ela impedisse que muitos autores que não tem seus livros lançados continuem inéditos esquece de que isso talvez seja bom.
*E não estou pondo em questão isso, mas utilizando-o como exemplo e baseando-me nos livros de Historia que nos diz a mesma coisa sobre os seres humanos de mil, dois mil anos atrás.